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sexta-feira, 8 de abril de 2011

DE OLHOS OPACOS NO TURBILHÃO DO MUNDO.

O engenheiro baiano José Carlos Aleluia enviou carta ao Reitor da Universidade de Coimbra, protestando contra a concessão do título de Doutor Honoris-Causa ao operário Luis Inácio da Silva, que, com o apelido afetivo de Lula, presidiu ao Brasil durante oito anos. Sem mandato, Aleluia mantém contatos com seus eleitores, mediante um site na Internet.

Ele foi um oposicionista inquieto, ocupando, sempre que podia, a tribuna, no ataque ao governo passado, dentro da linha sem rumo e sem prumo do DEM. Aleluia considera uma ofensa às instituições acadêmicas o título concedido a Lula, e faz referência elogiosa à mesma homenagem prestada ao professor Miguel Reale. Esqueceu-se, é certo, de outros brasileiros honrados pela vetusta universidade, como Tancredo Neves. Não é preciso conhecer a teoria de Freud para compreender a escolha da memória de Aleluia.

O título universitário é, hoje, licença profissional corporativa. O senhor Aleluia está diplomado para exercer o ofício de engenheiro. A Universidade o preparou para entender das ciências físicas, e é provável que ele seja profissional competente, tanto é assim que ministra aulas. O título universitário certifica que o graduado estudou tal ou qual matéria, mas não faz dele um sábio. O conhecimento adquirido na universidade é importante, mas não é tudo. Volto a citar, porque a idéia deve ser repetida, os versos de um escritor mais identificado com a direita do que com a esquerda, T.S. Elliot, nos quais ele mostra a diferença entre ser informado, conhecer e saber: Where is the wisdom we have lost in knowledge? Where is the knowledge we have lost in information?

O título de Doutor Honoris-Causa, sabe bem disso o engenheiro Aleluia, não é licença profissional, mas o reconhecimento de um saber, construído ao longo do tempo, tenha o agraciado ou não freqüentado a universidade. O papel da Universidade não deveria ser o que vem desempenhando – o de conferir certificados de preparação técnica -, mas o de abrir caminho à busca do saber. O Senador Christovam Buarque, com a autoridade de quem foi reitor da UNB, disse certa vez que a Universidade ideal será aquela que não expeça diplomas.

Lula, com os seus defeitos, e não são poucos, é um doutor em política. Um chefe de Estado não administra cifras, não faz cálculos estruturais, não prolata sentenças, nem deve escrever seus próprios discursos. Cabe-lhe liderar os povos e conduzir os estados, e isso dele exige muito mais do que qualquer formação escolar: exige a sabedoria que desconfia do conhecimento, e o conhecimento que se esquiva das informações não confiáveis.

A universidade é uma instituição relativamente nova na História. Ela não foi necessária para que os homens, com Demócrito, intuíssem a física atômica; com Pitágoras e Euclides, riscassem no solo figuras geométricas e delas abstraíssem os teoremas matemáticos; e muito menos para que Fídias fosse o genial arquiteto e engenheiro das obras da Acrópole e o escultor que foi. Mais ainda: as maiores revoluções intelectuais e sociais do mundo não dependeram das universidades, embora nelas se tenham formado grandes pensadores – e sua importância, como centro de reflexões e pesquisas, seja insubstituível. O preconceito de classe contra Lula sela os olhos de Aleluia e os torna opacos.

Solidário o meu autodidatismo com o de Lula, quero lembrar o grande escritor norte-americano Ralph Waldo Emerson: um talento pode formar-se na obscuridade, mas um caráter só se forma no turbilhão do mundo.

É no turbilhão do mundo que se forma o caráter dos grandes homens.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O DÉFICIT DE TRANSAÇÕES EXTERNAS DE LULA FOI MUITO MENOR QUE O DE FERNANDO HENRIQUE CARDOSO.

No déficit de transações externas, de 47,5 bilhões de dólares, insistentemente apontado como um dos maiores desafios econômicos para o Governo Dilma Roussef, o que mais pesou foram os mais de 30 bilhões de dólares das remessas de lucro das multinacionais, boa parte delas enviadas por bancos e empresas de telefonia e eletricidade estrangeiras que aqui aportaram no maior processo de desnacionalização da economia dos últimos 500 anos, promovido e concretizado entusiasticamente pelo Governo de Fernando Henrique Cardoso.

Essas remessas, que irão aumentar nos próximos anos, acompanhando o crescimento da economia, e que estão ajudando a salvar países quebrados, como Portugal e Espanha, representam recursos que poderiam continuar a circular aqui dentro do Brasil, gerando riquezas e empregos em território nacional, se conglomerados estratégicos como a Telebras não tivessem sido esquartejados e vendidos para o exterior.

O segundo fator, além do câmbio, foi o crescimento dos gastos de brasileiros em países estrangeiros, de mais de 16 bilhões de dólares, graças ao crescimento da economia. Outro dia, em um comentário em uma matéria sobre a perspectiva de desvalorização do real, um internauta argentino comentava que, primera vez, circulam em Buenos Aires “brasileños de color” e que o fato desses turistas negros estarem desembarcando e gastando seus dólares às margens do Prata, só pode ser explicado por uma coisa: a diminuição da desigualdade de renda no Brasil.

Com tudo isso, no entanto, nunca é demais lembrar aos mais afoitos que os oito anos de Lula terminaram com menor déficit externo e maior entrada de Investimento Estrangeiro Direto na comparação com o governo anterior. O resultado da conta de transações correntes nas duas gestões do governo petista somou déficit de US$ 54,97 bilhões, valor 70,5% menor que o observado nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, quando o buraco atingiu US$ 186,16 bilhões. Com uma diferença: Lula terminou seus 8 anos de governo com quase 300 bilhões de dólares em reservas internacionais.