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domingo, 3 de janeiro de 2010

PERFIL DO AMIGO


De vez em quando lhes conto, neste espaço, alguns episódios de minha amizade com Granadeiro, orgulhoso vira-lata, cego de um olho (que perdeu em luta com algum bicho feroz, e eu suponho que tenha sido um tamanduá-bandeira), mas com seu charme especial, posto que invariável namorador. Todos os cães que conheci, antes e depois dele, só se interessavam pelas fêmeas no cio. Granadeiro não era assim. Mesmo com o risco de ser rejeitado, era terno e carinhoso com todas as cadelas que cruzavam seu caminho, em qualquer hora. Aproximava-se com jeito, e lhes roçava e cheirava o focinho (não fazia como os outros); rosnava, com ritmo, como se entoasse uma balada irlandesa. Chegada a hora da partida, voltava a cara muitas vezes para trás, saltava como um nijinsky de seu povo, e caminhava lentamente, dando, assim, recados de saudade, sem esquecer o dever de acompanhar o amigo de viagem sem rumo.
Nós nos entendíamos com o olhar. Ele sabia quando eu estava preocupado, com as provisões do embornal diminuindo, sem sinais de morador por perto. Vinha, lambia minhas mãos, e saia apressado, sentindo o vento. Daí a algum tempo, voltava, rosnava, e me intimava a segui-lo. Seu faro para torresmo, ovos e feijão, base da solidariedade dos pobres, era infalível. Havia sempre um rancho diante de seu focinho, com alguém de bom coração para nos saciar e ouvir minhas histórias. Sempre vivi disso. Seu faro ia ao coração: nunca, naqueles anos de companheirismo, conduziu-me a alguém que não prestasse. Acho que ele era protegido por um anjo canino, um cachorrinho de asas que o ajudava a ajudar-me – e que devia se entender com o meu próprio anjo da guarda, como Granadeiro e eu nos entendíamos. Assim sendo, e andando à frente, às vezes saía da trilha e se embrenhava no mato. Eu o seguia, porque bobo não era. Assim me desguiava dos capões espessos, das encostas pedregosas em cujas grutas as onças partejam e protegem suas crias. Confesso que era meio fedorento, situação que eu remediava, sempre que podia, lavando-o em águas limpas das veredas, com sabão preto e buchinha de folhas de arnica, arruda ou alecrim do campo.

DEZ COQUEIROS


Hoje não há um só coqueiro na praça, e o nome oficial voltou a ser Córrego do Abençoado. Mas durante muitos e muitos anos o lugar se chamou Dez Coqueiros. Consta que, nos anos setenta, dos mil e oitocentos, quando o Segundo Reinado estava no auge, dez homens de uma mesma família foram mortos, no prazo de três anos. E no mesmo prazo, em um terreno vazio, do patrimônio da Igreja de Santa Luzia dos Santos Cegos, foram plantados, por mãos desconhecidas, dez coqueiros da raça macaúba, ali chamados de bocaiúva. Os coqueiros formavam um quadrado, com dois no meio. Ninguém, naquele tempo, relacionou o aparecimento dos coqueiros com a morte dos Vieirinha. O diminutivo era só do patriarca, pelo miúdo que era, mas passou a ser de todos os outros, filhos e genros.
Um dos Vieirinha, o mais novo de todos, foi salvo do extermínio, ninguém sabe como. Para uns, ele fugiu; para outros, foi levado pelo padre ou pelo comprador de gado, mas ninguém sabe ao certo. Como ninguém soube, ao certo, quem matara a família, ainda que houvesse boatos, nunca confirmados. As mulheres, de luto fechado, morreram sem matrimoniar ninguém; as viúvas, sempre de cara amarrada, as moças envelhecendo beatas e beatas morrendo.
Em 1920 apareceu na cidade rico forasteiro, comprador de terras. Além de uma fazenda, comprada em nome alheio, fez negócio com a igreja, ficando com o terreno dos Dez Coqueiros. Para a estranheza dos muito mais velhos – já se haviam passado quase 50 anos da morte dos Vieirinha – começaram a morrer os homens da família dos Alves, e ninguém se deu conta de que sempre que um deles era enterrado, o vento derrubava um dos coqueiros velhos. Antes do Natal, o padre recebeu documento de devolução, sem ônus para a Igreja, do terreno dos Dez Coqueiros e – e o forasteiro desapareceu.
Foi depois disso que o arraial – hoje cidade - voltou a chamar-se Córrego do Abençoado.