domingo, 3 de janeiro de 2010

A CERIMÔNIA DE PARIS



Quando as guerras eclodem, os contendores, cada um de seu lado, tentam responsabilizar os inimigos pelo conflito. Quando elas terminam, cabe aos vencedores, com o êxito, ditar a versão que predomina. Em 1868, a rainha Isabel II, da Espanha, foi deposta. Em junho de 1870, o dirigente espanhol Juan Prim decidiu oferecer o trono de Madri ao príncipe prussiano Leopold Hohezollern-Sigmaringen, e encontrou o apoio do primeiro ministro da Prússia, o aclamado Otto von Bismarck. Como essa aliança entre a Espanha e a Prússia ameaçava a posição da França na Europa, os franceses determinaram a seu embaixador, Vicent Benedetti, que se entrevistasse com o rei da Prússia, Guilherme I, que se encontrava na localidade de Ems, no interior do país. O encontro foi cordial: o embaixador, em nome de seu governo, pedia ao soberano garantias de que essa aliança não significaria uma ameaça aos franceses. Um telegrama, com o teor da conversa, foi enviado a Bismarck. Bismarck reescreveu a mensagem, com a versão de que houvera insulto verbal entre o rei e o embaixador. No mesmo dia, divulgado essa versão do telegrama em Berlim e em Paris, acirraram-se os ânimos. Napoleão III, então soberano francês (Napoleon, le petit, segundo Marx), cinco dias depois – em 19 de julho – declarou guerra à Alemanha. Foi uma típica manobra de provocação, que encontrou no orgulho e na ilusão de seu próprio poder dos franceses, a resposta que Bismarck pretendia. O chanceler sabia que os franceses, não obstante sua superioridade de meios, não seriam capazes de mobilizar seus contingentes – e a Alemanha já tinha todos os seus movimentos preparados. Assim, em pouco mais de dois meses de campanha, a França foi derrotada, e Bismarck a humilhou, ao unificar os estados alemães sob a hegemonia de Berlim e coroar Guilherme I como Imperador da nova Germânia nos salões do Palácio de Versailles, em Paris.
Anteontem, sob o Arco do Triunfo, em Paris, Frau Merkel e Sarkozy celebraram o que definiram como a reconciliação entre os dois paises, ao lembrar os 91 anos do fim da Primeira Guerra Mundial que foi, de certa forma, a continuação da Guerra de 1870. A Alemanha não conseguira, com a vitória contra Napoleão III, a hegemonia continental. Mesmo derrotada, a França se reerguera com o grande desenvolvimento econômico que se seguiu, e continuava como a grande referência dos valores europeus. Muitos historiadores acreditam que Moeltke, o lendário comandante dos exércitos alemães, planejou toda a campanha da guerra de 1914. Ele havia construído os movimentos estratégicos da Alemanha em um possível conflito a Oeste, com a França e, a Leste, com o Império Russo. John Keegan, em seu estudo sobre a Primeira Guerra Mundial, inicia com a enigmática afirmação de que “the armies make plans”, e que uma vez estabelecidos esses planos, os militares se encarregam de criar os motivos para colocá-los em execução.
O fato é que o assassinato de um príncipe austríaco em Sarajevo deu aos alemães, aliados de Viena, o pretexto que desejavam, a fim de continuar o conflito anterior, em agosto de 1914. Oito milhões de combatentes – alemães, franceses, italianos, russos, ingleses e norte-americanos, mas também de outras nacionalidades – tombaram naqueles quatro anos e dois meses que durou a guerra. Seis milhões de civis também morreram no conflito que quebrou uma tradição, a de evitar a destruição de alvos civis. Os alemães, com os grandes canhões Krupp, destruíram a cidade de Liége, na Bélgica. O esforço aliado – com a participação, ainda que quase simbólica, nos meses finais da guerra, dos Estados Unidos – derrotou finalmente os alemães. Foi a vez de os franceses exercerem o orgulho da vitória. Um cartaz com o título soberbo de “On les a”, percorreu a Europa, mostrando um galo – símbolo do país – sobre a figura de um alemão caído.
Em 1939, Hitler retomava o projeto de Bismarck, alimentado também pelo desejo da revanche sobre a derrota de 21 anos antes. A cerimônia de 11 de novembro significa, realmente, a grande conciliação? Há uma coisa que incomoda: tanto em Berlim, quanto em Paris, cresce a intolerância contra os “extracomunitários”, e se discute a afirmação de uma “identidade européia” que deixa de ser a do humanismo, e se associa à limpeza étnica do continente, já defendida há quase 80 anos – a partir de Berlim. Ainda agora, a Holanda decidiu expulsar 26.000 refugiados de seu território, e outros países se preparam para fazer o mesmo.

ALÉM DE UM JULGAMENTO

A retomada do julgamento, pelo STF, do pedido de extradição de Césare Battisti, deve ser analisada sem emoção, o que não é fácil. Há, no caso, o interesse do estado italiano, e, a ele se contrapondo, o interesse de nosso país. Se não os houvesse, os juízes atuariam conforme os seus sentimentos naturais de simpatia ou aversão diante do réu, conforme as provas apresentadas e a legislação pertinente. Assim costuma ser, desde o julgamento mitológico de Orestes, matricida que as Fúrias queriam punir e que a proteção de Apolo e da deusa Atena absolveu, ao influir na decisão dos seres humanos que constituem o tribunal, conforme a trilogia de Ésquilo.
Também aquele julgamento poderia ser interpretado como “político”, uma vez que Orestes não estava sendo julgado apenas por ter matado a mãe e seu amante. Ele havia exercido vingança política contra os assassinos de um rei e usurpadores do trono. Em Les Mouches, versão de Sartre do mito, essa razão política foi clara, e se associou à situação da França sob ocupação alemã em 1943, quando a peça foi encenada. Orestes encarnava, na metáfora sartreana, a Resistência Francesa. Ao que parece, e felizmente para Sartre, os alemães não entenderam a alegoria.
Deixando de lado a dúvida se o STF devia ou não decidir sobre esse ato do Executivo, uma vez que, ao ser provocado, o alto tribunal, em qualquer situação, é quem diz se é ou não competente, cabe, sim, discutir o problema da intromissão do governo italiano. Se o governo atual da Itália fazia da extradição uma questão de honra nacional, cabia-lhe agir pelos canais diplomáticos, e com discrição. Podemos admitir a sua pretensão de punir, de acordo com suas leis, alguém que considera um subversivo que teria agido como assassino comum. O que não podemos tolerar, é a arrogância dos italianos, que se dirigiram aos brasileiros como se fôssemos uma república bananeira ou feitoria do litoral africano.
As ofensas foram intoleráveis. Como se recorda, elas não se limitaram a criticar a decisão do asilo concedido a Battisti: chegaram a insultar o nosso povo. O deputado da Liga Norte, Ettore Pirovano, disse que não éramos um país conhecido por seus juristas, mas, sim, pelas suas dançarinas. O governo Lula tem sido paciente com os italianos. Podemos arriscar que Juscelino, em seu lugar, não só teria suspendido as relações diplomáticas, até receber as necessárias desculpas de Roma. E se estivesse no Planalto alguém da têmpera de Floriano Peixoto, as relações seriam rompidas no ato.
O que está em discussão é mais do que o destino de um homem, seja ele culpado em sua terra ou inocente dos crimes que lhe atribuem. Isso não é o mais importante, quando se trata da soberania do Estado brasileiro e da dignidade de nosso povo. A protérvia dos italianos não pode ficar sem resposta. O governo “exemplar” de Berlusconi cometeu erro crasso, ao reagir, como reagiu, à decisão de nosso Ministro da Justiça. Ao fazê-lo, provocou a natural reação de muitos setores da vida brasileira, que seriam indiferentes à sorte de Battisti. E levou esse erro ainda mais longe, ao dirigir-se ao Supremo Tribunal Federal para, nele, contestar uma decisão do poder executivo nacional. Se ele recorresse ao Tribunal de Haia, acataríamos, com todo o respeito, o seu direito em fazê-lo. Tanto é assim que o anúncio do governo de fato de Honduras, de que recorreria à Corte de Haia contra o Brasil, não causou qualquer espanto.
Bater às portas da nossa Suprema Corte como fizeram os italianos, é aleivosia sem precedentes em nossas relações externas. E essa atitude não se modificou. Ao enviar ao Brasil seu representante, Ítalo Ormanni, chefe do Departamento de Justiça do Ministério da Justiça Italiana, a fim de assistir ao julgamento, Roma reafirmou a intenção de constranger os ministros do Supremo com a sua presença.
Conforme a interpretação de eminentes juristas, a decisão do STF, nesse caso, não é a final. O Presidente da República pode agir conforme lhe facultam a Constituição e as leis, e negar a extradição, sem que isso seja ato de hostilidade contra o Supremo.
É estranho que muitos se sintam preocupados com a Itália. Sob Berlusconi, os governantes de um país que conheceu alguns momentos de esplendor na Historia, não se encontram em condições de dar lições a quem quer que seja.

A EUROPA E A LIBERDADE



Aparentemente, com as solenidades em Berlim, saúda-se o advento da liberdade na Europa, depois das experiências dramáticas do século passado, com o totalitarismo e as guerras. Há, sem embargo, que perguntar de que liberdade se trata, e de que Europa se trata. Nunca fomos capazes de definir exatamente o que seja liberdade, uma idéia identificada com a concepção do convívio no Ocidente, cuja origem situamos na Grécia dos séculos V e IV antes de Cristo. Mas a liberdade grega foi instrumento político, idéia motora para a construção de um estado nacional capaz de se preservar contra os inimigos vizinhos. Sem a consciência de que participavam efetivamente da coisa pública, e que tinham bem maior a defender, os atenienses não teriam resistido aos persas, embora depois disso não tenham conseguido vencer os espartanos e, menos ainda, dos macedônios. O grande mérito dos gregos foi o de transferir essa idéia de liberdade para o Ocidente, onde ela triunfou por pouco tempo na República Romana, para hibernar durante mais de um milênio, até o Renascimento.
A liberdade só existe se for ativa, isto é, se servir para o homem exercer sua vontade, não apenas no domínio da vida pessoal, mas no conjunto da sociedade. Por isso, os gregos desdenhavam os conformistas, os que não participavam das decisões coletivas. Esses, ao não exercer a liberdade, a desmereciam. Eram, em sua indolência política, submissos à vontade alheia. A liberdade é, assim, um sentimento ativo. Não é uma situação que se aceita, mas que se constrói. Para lembrar o texto clássico do Santo Tomás de Aquino, a propósito do pensamento político de Aristóteles, é alguma coisa que edificamos enquanto nela pensamos, por isso, a política é uma ciência (ou seja, um conhecimento) moral, e não técnico. Isso quanto à liberdade. E o que podemos entender como Europa? A unidade continental tinha duas idéias básicas. Uma era a da libertação do totalitarismo, outra, a recuperação do poder espiritual do continente sobre o mundo, mediante a reconstrução de sua economia e de seu saber. Nesse sentido, a União Européia foi o resultado da consciência de uma necessidade histórica, trabalhada por alguns excepcionais homens de Estado, de um lado e do outro do Reno.
A queda do muro de Berlim favoreceu a expansão da União Européia, que nascera como a Europa dos Seis em 1957, com o Tratado de Roma. Essa ampliação, sem embargo, vem trazendo problemas de identificação do que seja hoje a Europa, e o que sejam as sociedades nacionais que a integram. A unificação não é completa, começando com o problema da moeda única. Para os ingleses, a libra é, como a monarquia, símbolo sagrado de soberania. Mas não se cinge à Europa a grave crise do homem contemporâneo. Os Estados Unidos estão se confrontando com o mesmo problema de identidade. O major que matou os seus companheiros de farda de Fort Hood é, ou não, um americano? Ele matou concidadãos, ou atirou em inimigos do Islã? A grande vantagem dos Estados Unidos é a de ser, desde os peregrinos do século 17, uma pátria pela escolha, não pela fatalidade do nascimento. Daí o seu extremo nacionalismo: todo Ersatz é sempre mais exacerbado do que o modelo. Essa realidade começa a ser posta à prova. Não teria o major matado simplesmente por fadiga de viver em uma sociedade corroída pelo egoísmo? Os adolescentes que matam seus colegas, lá e alhures, por que o fazem? De acordo com eminentes psicanalistas, quando alguns homens odeiam os outros homens, de forma geral, é porque, no fundo, odeiam-se a si mesmos. Todo assassino é suicida, e todo suicida, um assassino.
Segundo os moralistas da escola que expulsaram uma aluna em São Paulo, ela vestia roupas provocantes. Qual é a escala que separa a sedução da provocação? Quais são os limites para que uma pessoa possa expor ou não o seu próprio corpo? Em uma sociedade erotizada, principalmente pela propaganda comercial, que usa o corpo feminino como apelo de consumo, é natural que muitas mulheres se sintam estimuladas a vestir-se como os modelos dos anúncios. Em nosso tempo, o apelo ao erotismo está em quase toda parte, na música, na literatura, na televisão e no cinema.
Têm sido freqüentes os atos de intolerância contra os alunos diferentes, seja pela cor, pela condição social, pelas dificuldades de locomoção ou de expressão. É hora de colocar limites severos a esses atos estúpidos – em nome da essencial liberdade de ser.

A LIBERDADE E OS MUROS


Tenho as minhas memórias pessoais do muro de Berlim. Quando ele se levantou, minha mulher e eu visitamos a Alemanha Oriental e me explicaram a providência como forma de impedir o desastre econômico: os habitantes de Berlim Ocidental, recebendo em dinheiro do Ocidente capitalista, trocavam por marcos orientais, no câmbio negro, atravessavam as ruas e se abasteciam de tudo no mercado socialista, com preços administrados pelo Estado. Não só se abasteciam as famílias, como os pequenos comerciantes. Isso causava grave problema para a economia socialista. Não deixava de ser uma explicação. Além disso, havia os cidadãos de Berlim Oriental que atravessavam para o outro lado, todos os dias, a fim fazer o contrabando no sentido inverso, de drogas e artigos de luxo.
Quando o muro caiu, nós vivíamos em Roma. A sua demolição, que antecedeu a queda do sistema soviético, foi saudada como nova era de felicidade no mundo – menos para alguns. Já se sabia que houvera poderosa conspiração internacional entre Reagan e o papa Wojtyla, envolvendo o Banco Ambrosiano, a C.I.A. e o Solidarinosc, com a cumplicidade de Gobartchev, contra os países socialistas. O resultado é conhecido: o sistema soviético se desfez e o homem da glasnost e da perestróika pôde sentir-se realizado, como garoto-propaganda de pizzas e de bolsas Louis Vuitton, nos meios de comunicação dos Estados Unidos.
Ainda nestes dias, os chineses descobriram um trecho considerável da Grande Muralha, que ficou oculto durante séculos. Era uma proteção contra os inimigos. As cidades medievais eram cercadas de muros, como ainda podem ser vistos. Um longo muro separa o México dos Estados Unidos e outro, de grandes proporções, separa Israel dos territórios palestinos. A sua construção, queiram ou não, obedece às mesmas razões pelas quais os alemães do leste erigiram o seu. No Rio, pretendem levantar cercas, a fim de controlar as favelas. Os novos e ricos condomínios urbanos brasileiros se fazem cercar de muralhas, protegidas eletronicamente, com sentinelas atentas e armadas, de trecho a trecho, imitando a famosa Linha Maginot, que os alemães desdenharam, ao invadir a França pela Bélgica. Estamos todos cercados de muros, circulamos nas cidades dentro de veículos – que são muralhas de aço blindado; no alto dos edifícios, em seus corredores, nos elevadores, as câmaras vigiam, como as seteiras das antigas muralhas. As muralhas mais sólidas e impenetráveis são as ocultas, que separam os homens ricos dos homens pobres. Um longo e invisível muro – semelhante à linha de Leibniz – passa pelas ruas, penetra as igrejas e ladeia os pontos, ou seja, as pessoas, deixando, em campos separados, por mais próximos pareçam estar, uns homens e os outros.
Recentes estudos do IPEA dividem a sociedade brasileira em três classes de renda. As duas classes inferiores são tão inferiores que é um absurdo considerá-las estatisticamente. A terceira – que, segundo o IPEA é a de renda individual mais alta – começa com o salário mínimo atual. Assim, de acordo com esse critério, uma família de quatro membros com a renda total de dois mil reais se encontra na faixa mais alta de renda. Mas, não obstante a conclusão estatística, altíssimo muro as separa da minoria de renda realmente alta no país.

A PLATAFORMA DO CANDIDATO



O recente artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso parece ter como único objetivo sua candidatura à Presidência da República. Observadores atentos da situação política suspeitam que, por detrás da indecisão do PSDB em escolher entre o governador de São Paulo e o governador de Minas, haja manobra do próprio Fernando Henrique, talvez com a aquiescência de Serra. Ambos atuariam como servidores dos poderosos interesses de São Paulo. Diante do impasse entre Aécio e Serra, e do provável crescimento da candidatura de Ciro e – quem sabe? - da própria Dilma, a saída seria a ida de alguns próceres do PSDB e de outras agremiações ao escritório político do ex-presidente, instalado com doações de empresários, no final de seu governo. Ali, apelariam para o patriotismo paulista de sua excelência, a fim de recuperar o poder.
O presidente Lula tem sido beneficiado pelas circunstâncias, o que não é mau. Mas é inegável que ele é sincero na luta pela redenção de milhões de famílias pobres às quais, durante a história do País, foram negados o conhecimento, a dignidade e os salários justos. Ele conseguiu isso sem provocar a reação dos empresários inteligentes, que descobriram um mercado de consumo que não conheciam: o do próprio país. O reconhecimento popular pode ter inflado as velas do barco de Lula, que se sente estimulado a, tal como Pico de la Mirandola, discorrer sobre todos os assuntos e mais alguns. Mas, nisso, ele tem ótimo modelo no próprio weberiano Fernando Henrique. Trata-se de pecado menor, e, no caso de Lula, justificável em sua inigualável biografia de vitorioso. Ele, pelo menos, não se considera “mais inteligente do que vaidoso”.

O artigo de FHC é uma plataforma de candidato, com argumentos anacrônicos. Ele e outros identificam o “discurso ultrapassado dos anos 50” nos nacionalistas de hoje. Mas repete os de Lacerda contra Jango, no caso da falsa Carta Brandi, em que se denunciava (também) o propósito de instalar-se, no Brasil, uma república sindicalista sob molde peronista.
Há quem veja em seu artigo apenas a expressão de preconceito de intelectual contra o torneiro mecânico que está dando certo – mas isso seria reduzir a inteligência do acadêmico. É melhor deduzir que seu objetivo é mesmo o de se por como tertius na disputa. Ele já tentara a mesma manobra, na segunda eleição de Lula, quando dificultou a candidatura de José Serra, em favor de Geraldo Alkmin. Sabe que Serra poderá, sem dificuldades maiores, reeleger-se para o Palácio dos Bandeirantes. Entende que, sem a unidade do partido em torno de Serra ou de Aécio, faltarão votos para vencer o pleito. E – aí está o pulo do gato – sabe também que, para alguns empresários paulistas, nada melhor do que ter representantes tanto no Morumbi, quanto no Planalto.
O ex-presidente duvida da memória de seus leitores, que não se esquecem do que foram as privatizações e o uso dos fundos de pensões, na operação que tornou o Sr. Daniel Dantas um dos homens mais poderosos do Brasil. Quanto à Vale do Rio Doce, a nação compreenderia o seu silêncio, se ele evitasse tocar no assunto. Nunca, desde el rei dom Manuel, houve doação de bem público de tal monta a um grupo de favoritos.
Os interesses de São Paulo - também representados no governo Lula - conduzem a União há quase 16 anos, em violação ao pacto republicano da igualdade entre os Estados, e continuarão por mais 8 anos, se a manobra der certo. Dentro de onze dias, a República fará 120 anos. Já é tempo para que se torne, tal como a quiseram então, uma federação de direito e de fato.
Aécio recusa, como é da conveniência dos mineiros, a Vice—Presidência. Ele interpreta bem o sentimento de Minas que, desde o regime militar, vem dando credibilidade ao Planalto com seus vice-presidentes, e já se cansou disso. Castelo Branco buscou José Maria de Alkmin para endossar a ditadura inaugural; Costa e Silva recrutou Pedro Aleixo (menosprezado no episódio do AI-5); Aureliano serviu de avalista a Figueiredo; Collor foi atrás de Itamar e, por último, Lula teve que se valer de José Alencar para tranqüilizar os meios empresariais.
O ex-presidente previa o caos, se Lula fosse eleito. A vitória do trabalhador provavelmente tenha salvado o país do caos. Se os programas do governo não houvessem aliviado a situação dos famintos e humilhados, teria sido impossível conter a explosão do desespero.

PLEBISCITO SOBRE DROGAS


A legalização do comércio de entorpecentes volta ao debate, no mundo inteiro, diante da crescente criminalidade associada ao tráfico das drogas. Talvez sejamos obrigados, em breve, no Brasil, a perguntar à sociedade inteira, mediante votação plebiscitária, se ela aceita o livre consumo das drogas ou prefere continuar com a proibição. A guerra entre as forças do Estado e os soldados do narcotráfico, e dos grupos de criminosos entre eles, se intensifica no mundo inteiro. Milhares de pessoas morrem todos os anos, principalmente nos países pobres. E qualquer pessoa de bom senso sabe que há, por detrás do grande negócio, importantes financiadores e organizadores do sistema – os que auferem, em segurança, e longe das favelas, os lucros maiores, enquanto os pequenos matam e morrem. Além disso, as altas margens desse comércio servem para corromper policiais e outros servidores do Estado, como juízes, não só de primeira instância, como de alguns tribunais – como já ficou provado em operações da Polícia Federal.
O debate não pode ser superficial. O consumo de drogas causa imensos danos às comunidades humanas. Destrói a saúde das pessoas e exige gastos públicos consideráveis, não só no combate à produção, distribuição e consumo das drogas, como, também, na assistência médica e psicológica aos viciados. Ninguém, de bom senso, pode estimular o uso de drogas, qualquer seja o grau de sua periculosidade. Melhor seria para o mundo que não houvesse tais drogas. Há, é verdade, uma diferença entre o cigarro comum – que só causa dano ao organismo físico dos fumantes, ativos e passivos – e a cocaína e seu derivado residual, o craque – que enlouquece o consumidor e o incita a crimes tenebrosos, muitos deles cometidos no interior das famílias. Sendo assim, não é fácil defender a plena liberdade de consumo.
Pelo outro lado, há uma visão radical da liberdade, que assegura a qualquer um o direito de dispor de seu próprio corpo como quiser. O uso da droga, para esses defensores da total autonomia pessoal, deve ser permitido – desde que seus atos não venham a prejudicar outras pessoas. Nesse caso caberia ao Estado controlar o consumo, em lugares especiais, mantendo o drogado sob custódia enquanto durassem os efeitos do narcótico. Será um gasto considerável, mas, provavelmente, menor do que o exigido no combate inútil aos traficantes e consumidores. Outro efeito social importante será o saneamento das favelas. Com a droga sendo comercializada nas farmácias, mediante controle, os morros deixarão de ser entrepostos de distribuição dos narcóticos. O Estado voltará a ocupá-los, a corrupção deixará de atingir os corpos de repressão, e o que restar do comércio clandestino será mais facilmente combatido.
A exacerbação do consumo de drogas – que é historicamente um ritual místico - é hoje uma das respostas da infelicidade, da frustração, do desencanto da sociedade contemporânea. É uma forma radical de evasão, que pode conduzir à fuga absoluta, à morte. Não é uma desgraça apenas da pobreza, mas de todas as camadas sociais. Sua causa mais profunda é o sentimento de alienação que a sociedade industrial contemporânea impõe, conforme todos os estudos sobre o tema.
Alguma coisa deve ser feita, e já.

DEZ COQUEIROS


Hoje não há um só coqueiro na praça, e o nome oficial voltou a ser Córrego do Abençoado. Mas durante muitos e muitos anos o lugar se chamou Dez Coqueiros. Consta que, nos anos setenta, dos mil e oitocentos, quando o Segundo Reinado estava no auge, dez homens de uma mesma família foram mortos, no prazo de três anos. E no mesmo prazo, em um terreno vazio, do patrimônio da Igreja de Santa Luzia dos Santos Cegos, foram plantados, por mãos desconhecidas, dez coqueiros da raça macaúba, ali chamados de bocaiúva. Os coqueiros formavam um quadrado, com dois no meio. Ninguém, naquele tempo, relacionou o aparecimento dos coqueiros com a morte dos Vieirinha. O diminutivo era só do patriarca, pelo miúdo que era, mas passou a ser de todos os outros, filhos e genros.
Um dos Vieirinha, o mais novo de todos, foi salvo do extermínio, ninguém sabe como. Para uns, ele fugiu; para outros, foi levado pelo padre ou pelo comprador de gado, mas ninguém sabe ao certo. Como ninguém soube, ao certo, quem matara a família, ainda que houvesse boatos, nunca confirmados. As mulheres, de luto fechado, morreram sem matrimoniar ninguém; as viúvas, sempre de cara amarrada, as moças envelhecendo beatas e beatas morrendo.
Em 1920 apareceu na cidade rico forasteiro, comprador de terras. Além de uma fazenda, comprada em nome alheio, fez negócio com a igreja, ficando com o terreno dos Dez Coqueiros. Para a estranheza dos muito mais velhos – já se haviam passado quase 50 anos da morte dos Vieirinha – começaram a morrer os homens da família dos Alves, e ninguém se deu conta de que sempre que um deles era enterrado, o vento derrubava um dos coqueiros velhos. Antes do Natal, o padre recebeu documento de devolução, sem ônus para a Igreja, do terreno dos Dez Coqueiros e – e o forasteiro desapareceu.
Foi depois disso que o arraial – hoje cidade - voltou a chamar-se Córrego do Abençoado.