quinta-feira, 17 de junho de 2010

O FUTEBOL E A POLÍTICA


As massas sempre demonstraram seu imenso poder. Sua força foi analisada por grandes pensadores do século passado, como Ortega y Gasset, em seu ensaio profético de 1930, La rebelión de las masas; Elias Cannetti, com Mass und Macht; e Serge Tchakhotine, em Le viol des foules par la propagande politique. Todos eles, de uma ou de outra forma, mostram como as massas podem atuar, em certas circunstâncias, como um só indivíduo. Ortega chama a esse indivíduo hombre-masa. Do ponto de vista filosófico, com todo respeito por Ortega, o melhor ensaio é o de Cannetti, ao identificar massa e poder: quem aglutina as massas e as sabe conduzir manobra o seu poder, como Hitler. Partindo da práxis, da experiência real, dos instrumentos totalitários da propaganda, o melhor ensaio é o do biólogo, psicólogo e agitador político russo Tchakhotine. Seu livro foi publicado em francês em 1938, quando o mundo estava entre três ideias básicas: o nazifascismo teuto-italiano, o socialismo marxista e a democracia capitalista-liberal anglo-americana.

Ortega publicou seu livro bem antes, em 1930, e seu grande mérito foi o de analisar a globalização dos anos 20, que levaria à depressão e à guerra, mas remontar o início dessa massificação do indivíduo ao começo da época moderna, ou seja, ao Renascimento e à Descoberta da América. Seu pensamento seria retomado, em seguida, pela Escola de Frankfurt e, de maneira magistral, por Marcuse em One-dimensional man, em 1964 – ano crucial para os brasileiros.

Podemos resumir esses três estudos em uma advertência: a de que a sociedade industrial capitalista tende a anular a individualidade, ao criar e manter uma massa universal uniforme e conformada. Uma massa de indivíduos que “pensa” estar exercendo sua liberdade de escolher, de pensar e de decidir. Não importa qual seja a sua bandeira. O que importa – como diz Cannetti – é que ela tremule como uma labareda.

Há 52 anos, quando “o mundo descobriu o Brasil”, conforme lema divulgado nestes dias, eu dirigia pequeno jornal diário, em Governador Valadares (que continua circulando até hoje). Havíamos perdido Copas anteriores e, de forma crucial, a de 1950, contra o Uruguai, no Maracanã.

Foi uma festa imensa, porque teve o gosto da recuperação do orgulho nacional. O Brasil, que havia perdido Vargas, quatro anos antes, e que começava a recuperar-se com o governo de Juscelino, explodiu diante da genialidade de dois meninos do povo, Garrincha e Pelé (nesta ordem, em meu juízo). Jornal do interior é, acima de tudo, jornal de opinião, e eu redigia rodapé de primeira página. Nele, moderei o entusiasmo geral, ao lembrar as terríveis dificuldades que o Brasil vinha encontrando para realizar o projeto de desenvolvimento de Vargas, naquele terceiro ano de Juscelino no poder.

Neste meio século conseguimos dar um grande salto econômico. A vitória de 1958 deve ter contribuído, e muito, para que o mineiro cumprisse a meta de avançar, conforme o slogan, 50 anos em 5. Vendo os fatos com tanto tempo de intervalo, sentimos a interação entre o entusiasmo popular da vitória com o esforço de desenvolvimento naquela segunda metade do governo. Infelizmente, no pleito de 1960, houve um demagogo que conseguiu dominar as massas, eleger-se, enveredar pela sedução totalitária e, com sua renúncia irresponsável, abrir caminho a duas décadas de ditadura.

Para manter a força positiva das massas, faltam os líderes sensatos. Para perdê-las, bastam os demagogos alucinados.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

ENTREVISTA COM O CHANCELER CELSO AMORIM PARA O JB


A sensação é inevitável, mesmo para quem, como o repórter, conhece o palácio há quase 50 anos: Niemeyer concebeu o novo Itamaraty para o chão e a paisagem de nosso surpreendente milênio, para o chão e a paisagem de outra e surpreendente nação, a dos brasileiros de hoje. O amplo salão de acesso é o vestíbulo de novo milênio e de nova consciência do mundo e de nós mesmos, nesse inquieto planeta, a cada dia menor em sua ubiquidade, a cada dia maior em sua dúvida quanto à própria sobrevivência.
Do novo Itamaraty são ausentes as vetustas colunas e a retilínia arquitetura do velho Itamaraty, no qual passeava a nobreza do barão do Rio Branco. As curvas de Niemeyer e a clareza dos salões, com a invasão da luz de Brasília, correspondem ao que somos, enquanto os cisnes idosos, sob a sombra das palmeiras do antigo palácio carioca, recordam o que fomos. As águas, mais leves, do Planalto, são outras, outras, mais próximas do chão, as plantas que adornam seus jardins. Outro, é claro, o chanceler, aliviado da obesidade de seu poderoso antecessor, posto que submetido a regime de viagens exaustivas, com o sono conturbado pelos fusos horários.
Celso Amorim é, em todos os seus gestos e palavras, o menos solene de todos os chanceleres conhecidos. Nenhum outro poderia ser o chefe da diplomacia com Lula na Presidência, nem com Itamar – mesmo incluídos os paisanos, isto é, os ministros políticos que, em alguns casos, se esforçam para adquirir caricatural physique du rôle. Amorim, o discutido presidente da Embrafilme que patrocinou a produção de Pra frente, Brasil, provavelmente não conseguiria o mesmo desempenho com um presidente vindo das velhas famílias do Império, ou das novas famílias de imigrantes enriquecidos em São Paulo.
A atualidade determina a pauta de nossa conversa: que perspectivas há, no caso do Irã? Amorim se move entre a cautela profissional e o natural orgulho da ação positiva brasileira no mundo atual. Confessa, de início, que não tinha muita convicção de que houvesse grande possibilidade de acordo entre os Estados Unidos e o Irã, mas, da mesma forma, entendia que era preciso tentar tudo, para obter alguma coisa.
– Sempre fomos muito bem tratados, tanto da parte do presidente (dos EUA) Obama, quanto da parte da secretária (de Estado) Hilary Clinton. Posso dizer que não havia divergências quanto ao resultado pretendido, que era o de obter garantias de que o Irã só iria usar a tecnologia nuclear para fins pacíficos, mas os meios não pareciam os mesmos. Nós acreditávamos, e continuamos acreditando, na persuasão, no convencimento, na conversa amistosa, na sinceridade de nossos propósitos. Eles, no entanto, se mostravam muito céticos, quanto à possibilidade de que o Irã viesse a aceitar as condições que haviam proposto em outubro passado. Creio que eles se mostraram surpreendidos com o resultado. É provável que não esperassem a aquiescência do Irã aos esforços da Turquia e do Brasil, que agiram como países soberanos, interessados na paz. Eles gostariam de ter iniciado o processo de punição antes de nossos entendimentos – e responderam com a decisão da secretária de Estado de propor as sanções às chamadas grandes potências.
Atrevo-me a observar que há uma diferença doutrinária, digamos, entre o presidente e sua competidora nas eleições primárias dentro do Partido Democrata, e que, provavelmente, Obama não pense exatamente como a secretária de Estado, que busca afirmar-se na ala direita de seu partido no Congresso. Amorim sorri com suave malícia. Ele sabe que eu não espero a contribuição de seu juízo, posto que, qualquer que ele fosse, seria diplomaticamente inoportuno.
E, agora, o que ocorrerá? – levo-o a retomar o seu pensamento. Amorim está otimista. Acha que os demais membros do Conselho de Segurança – sobretudo a China e a Rússia – podem concordar com a ideia, mas provavelmente não aceitem o conteúdo da resolução proposta por Washington.
Nesse momento, Amorim se desculpa, diante de um sinal de uma assessora que chega à porta. Deve atender a um chamado de seu colega turco, com quem estivera conversando antes de nossa entrevista. Não bem retornou ao Brasil, e está em contato permanente com Teerã e Ancara. De Teerã teve a promessa de que a carta, endereçada à ONU, reiterando os termos do acordo, que o governo de Ahmadinejad ficou de enviar até segunda feira, está sendo cuidadosamente redigida – e será enviada a tempo.
– Essas coisas levam tempo, recomendam a ponderação, reclamam consultas. Na diplomacia, tempo e paciência caminham juntos.
Acrescenta que, pouco a pouco, os norte-americanos e europeus compreenderão a necessidade de cautela. Isso, repete, fortalece seu otimismo, o mesmo otimismo de Lula. Lembra que, com o passar das poucas horas, já se percebem os sinais da prudência, por parte dos membros permanentes do Conselho, e com direito a veto.
Comento com o chanceler matéria divulgada pelo New York Times – que, como seu editorial, interpretava os fatos em favor da senhora Clinton – e a reação surpreendente nos comentários dos leitores. Até onde eu havia lido (mais ou menos dois terços de quase 300 intervenções). Não havia um só leitor que aprovasse a posição do Departamento de Estado. Todos apoiavam – e muitos com linguagem dura – os esforços do Brasil e da Turquia para desamarrar, e não cortar, como parecem pretender os alexandres do Complexo Industrial Militar dos Estados Unidos, o nó górdio iraniano. Amorim não os havia lido, pediu à assessoria que acessasse a matéria; sorriu, feliz, para ilustrar o superlativo: interessantíssimo.
Observo que podemos ver, no episódio, a situação dos Estados Unidos no mundo de agora. O ministro comenta que há vários artigos, firmados por observadores respeitáveis, sobre a resistência de Washington – e seus aliados – à entrada de novas potências, novospaíses, no jogo internacional.
– Até há pouco eles nos convidavam para conversar sobre o clima. Na OMC foram constrangidos a nos ouvir. Mas consideravam que assuntos de paz e segurança entre as nações eram coisas deles. Assim, quando o Brasil e a Turquia entram no jogo, é natural que reajam. A tentativa, mesmo que seja simbólica, de a Turquia e o Brasil agirem de forma diferente, sugere que a arquitetura da segurança internacional, sustentada por algumas autodesignadas forças e países, não pode manter-se por muito tempo.
Intervenho, para lembrar que os Estados Unidos têm oscilado, em sua História, entre os postulados de Hamilton e os de Jefferson. E quando a orgulhosa aristocracia da Nova Inglaterra se defronta com a eleição de um mestiço, com o sobrenome Hussein, há sinais claros de que alguma coisa mudou realmente naquele país. O chanceler resume em uma frase curta: foi uma mudança para melhor, mas seguramente não terá sido para o entendimento de parcela de suas elites.
– Há setores da sociedade norte-americana que, diante de um presidente com essas marcas biográficas, dele cobram uma posição mais dura, uma demonstração de força. Eu o vejo como homempropenso ao diálogo. Mas, sem dúvida, ele enfrenta dificuldades.
Provoco-o, lembrando algumas críticas que se fazem à diplomacia brasileira: não estaríamos desprezando a prioridade da aliança continental sul-americana, em favor de uma intervenção no Oriente Médio?
– Não, de forma alguma. O Brasil não pode desinteressar-se dos assuntos que afetam a paz mundial. Quando os nossos países, a Turquia e o Brasil, foram eleitos para o Conselho de Segurança, é claro que essa escolha acarretou-lhes a responsabilidade de cuidar da paz, em nome da comunidade internacional, e não somente em nome do próprio país ou de determinada região. Não há tema que mais afete a segurança internacional do que o do Oriente Médio. Em algum momento, e com razão, eu via na Palestina o perigo maior da região, mas, nesta hora, a questão nuclear do Irã é mais premente. Tendo a possibilidade de atuar, de maneira positiva, com um país da região, que é a Turquia – o que foi uma boa combinação – o Brasil procurou agir em busca de uma solução pacífica, como é de seu dever. Isso não foge à nossa vocação. Afinal, quando participamos da Segunda Guerra Mundial, o fizemos na defesa da democracia. No caso atual, não se trata da guerra mas da paz. Melhor ainda.
Diante das críticas, algumas acerbas, que alguns dos condutores da diplomacia brasileira, durante o governo passado, endereçam ao Itamaraty de hoje, permito-me observar que eles atuam como os famosos generais de pijama. Haveria uma categoria de “embaixadores de pijama”?
Amorim se embaraça um pouco com a pergunta e, antes de responder com a elegância que tem faltado a alguns de seus adversários, permite-se uma boutade: os pijamas dos embaixadores devem ser da grife Versace.
Indago-lhe se esse grupo de diplomatas age em decorrência de haver perdido sua posição eminente no Itamaraty de Fernando Henrique, ou se há alguma coisa ideológica mais profunda.
– Em primeiro lugar, eu prezo muito a liberdade de expressão, e acho perfeitamente válido que cada um dê a sua opinião. Também acho que não é por simples coincidência que determinados meios de comunicação busquem sempre os mesmos embaixadores com essa posição. Já li muitas outras manifestações diferentes, de outros diplomatas e de setores da sociedade que não encontram a mesma acolhida desses órgãos tão solícitos à crítica à nossa política externa. Prefiro não ver, nisso, a manifestação de quem deixou o poder. Na verdade, todos nós temos como missão defender o Brasil e defender algumas ideias importantes nas relações internacionais. Acho, no entanto, que algumas pessoas têm dificuldade em adaptar-se aos novos tempos. O Brasil ascendeu muito rapidamente no cenário internacional, principalmente em razão do desempenho do presidente Lula, na conciliação entre a boa economia e a justiça social – e, é claro, também por sua atuação internacional. Como a mudança foi súbita, a cabeça de muitos com ela não se acostumou. Por isso, mesmo aceitando que criticam com boa-fé, atuam sempre com a preocupação de que “não podemos brigar com tal grande potência”. Quando atuamos em Cancun, no caso da OMC, e na divergência sobre a Alca, muitos disseram: “Mas, gente, vocês vão brigar com os Estados Unidos?”
O ministro cita a era Bush:
– Ora, mesmo na época de Bush, as relações entre Lula e o presidente texano foram boas. Trabalhamos juntos, com êxito, em vários programas. É claro que, nesses assuntos delicados de paz e segurança, as coisas são mais difíceis, levam mais tempo, mas os Estados Unidos irão compreender que a participação ativa do Brasil não se faz contra os interesses deles, porque já passou a época em que um só país pode dominar o mundo. Terá que haver uma governança realmente multipolar. Da mesma forma que, para muitos países é difícil entender essa mudança, é provável que pessoas que militaram durante muitos anos em situação diferente tenham dificuldade em entender que o Brasil hoje não só pode agir com independência, e defender seus interesses, ao mesmo tempo em que contribui para a ordem global. O fato é que a emersão dos Bric assustou um pouco. Conforme a gíria americana, há “new kids on the block”.
Relembro o discurso de posse de Celso Amorim como chanceler do presidente Lula. Ele recomendou aos jovens diplomatas que não tivessem medo, nem arrogância. A postura do Itamaraty, hoje, pode ser considerada de Realpolitik? Amorim aceita a expressão bismarquiana, na medida em que o Itamaraty atua de acordo com a dimensão da realidade mundial. Pondera, no entanto, que, mesmo não agindo no vazio, a postura brasileira é fundada em positivo idealismo humanista.
– Acho que não nos podemos mover em uma política determinada pelo interesse cru. Essa posição não me entusiasma, nem ao presidente. A política que reúne o nosso interesse como nação e os nossos ideais humanistas é a da solidariedade, e ela nos está trazendo maior reconhecimento nos foros internacionais. Atuamos no sentido da universalidade, o que nos leva tanto às grandes nações europeias, como nos permite trazer a Brasília ministros de 50 nações africanas, a fim de discutir os problemas da agricultura. Vamos a Israel, vamos à Jordânia, vamos à Palestina e ao Irã, porque nós não temos posição preconceituosa.
Arrisco-me a dizer que essa política brasileira, de respeito à igualdade entre as nações, foi enunciada por Ruy Barbosa em Haia. Amorim não só concorda, como considera Ruy Barbosa o patrono da diplomacia multilateral brasileira, da mesma forma que Rio Branco foi o patrono da diplomacia bilateral.
De muitas outras coisas – e algumas importantes – falou o chanceler, mas todas dentro da mesma linha de raciocínio. O Brasil cresceu muito, o mundo mudou muito, e é preciso enfrentar os problemas sem medo, mas sem as bravatas da adolescência. Entre as mudanças do mundo se encontra a instantaneidade da informação, que estimula a transformação dos indivíduos passivos em cidadãos atuantes, como se vê no mundo inteiro. Nossa autonomia de ação é um caminho do qual não poderemos retornar, a menos que estejamos dispostos a agachar-nos, depois que nos decidimos a andar de cabeça alta. O caso do Irã é emblemático, porque a sua solução contribuirá para a consolidação de nova ordem mundial, com o fortalecimento das Nações Unidas e o fim dos ditados imperiais das grandes potências. De qualquer forma, a vigilância na defesa do entendimento entre as nações – é o que podemos resumir de suas ideias – terá que se manter, e a cada dia mais, porque a paz é sempre uma conquista esquiva da razão política.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

AS MUITAS MARGENS DOS RIOS



Guimarães Rosa encontra uma terceira margem de um rio, para nela colocar seu personagem sem nome. O conto tem, nisso, outro de seus enigmas: o filho que narra, o pai que navega nas águas altas, a mãe e mulher, que sofre, e o rio, não têm nomes. Ninguém tem nome, nada tem nome: a estória é feita de silêncios e de mistérios. Mas a grande força é a do rio. O rio chama o homem, talvez cansado de si mesmo, talvez cansado do mistério do próprio rio, todos os dias, o mesmo; todos os dias outro em suas águas iguais, sempre novas, vindas do céu e da seiva da terra. Para fugir do mistério, o personagem de Guimarães Rosa talvez tenha querido nele viver, tentar devassá-lo de dentro para fora.

Os rios são sempre semelhantes e muito diferentes. As margens podem ser parecidas, conforme a região; em matas e brejos, em barrancas e areais, em rochas e rasos secos. Mas os rios têm alma, e sua alma, como a dos homens, é vária; muda com seus indevassáveis humores.O rio mata e o rio salva; o rio canta e chora sobre as pedras, ou quando é afunilado pelos paredões, em canais esguios, e procura libertar-se, em busca do mar distante.

Tantos são seus mistérios que suas margens se multiplicam. Não há só a terceira margem, de que trata Guimarães, em um de seus textos mais maduros e mais instigantes. O mar pode ser belo, majestoso, imenso, promessa de infinito; mas os rios, dos córregos raquíticos aos mais largos e mais densos, estão mais próximos da condição humana, são metáforas da vida. Nascem em pontos altos, de águas ralas e mansas e vão descendo as encostas, caindo nas cachoeiras, esquivando-se das serras, crescendo com as tempestades, até desaparecerem no oceano. Dele, as águas subirão, para retornar, com o vento, às serras. Em seu curso, o rio vai recolhendo seus mortos, e registrando, nas águas menores, que afluem, à direita e à esquerda de seu caminho, o som do choro e o sal das lágrimas; o riso das crianças e os sons abaritonados dos machos e acontraltados das fêmeas, nos duelos de amor.

Em um rio também sem nome, James Joyce coloca o princípio e o fim de Finnegans Wake: “river run, past Eve and Adam, from swerve of shore to bend of bay...

Sempre vivi na beira de rios, alguns modestos como os meus melhores amigos, riozinhos de águas anãs, e outros densos de história, como o Reno, o Tevere, o Vltava, vaidosos e arrogantes. Pelo leito de alguns rios, naveguei; ora com cuidados, ora com fundada confiança. Os rios de Minas conheço-os quase todos, do São Francisco, que vai juntando os povos até o mar do Nordeste, ao Doce, que, sempre soturno, cai no mar do Espírito Santo; do Urucuia voluptuoso, ao Jequitinhonha desconfiado.

De todos os rios tenho a experiência do saber que emana de suas águas. Os povos ribeirinhos são sempre mais astutos, conhecem as idiossincrasias do tempo; lêem nos ramos que descem as águas o ânimo da natureza. Mas não podem evitar as cheias: os rios são guardiães incorruptíveis dos segredos da natureza. Sobem quando menos se espera e, enraivecidos e cruéis, invadem os vales. Seus leitos convocam as águas que descem as encostas, para arrastá-las, soterrar os descuidados, atrair os mortos às suas águas ressentidas.

E O OUTRO LADO DA LUA


Assim como são muitas as margens dos rios, há outros lados da Lua, além daquele que nos é oculto, e só as sondas vêem. Todos os dias ficamos sabendo de coisas novas na velha companheira da Terra. Sabemos que há, ali, água e, se há água, há algum oxigênio – e isso é bom sinal. Agora descobrimos que há também buracos, provavelmente túneis pelos quais emergiram as lavas vulcânicas, em passado muito distante.

Os mais jovens não conhecem a Lua velha, aquela que, mais do que o corpo celeste, era o apelo estético – e erótico. As fases da Lua moviam os hormônios – e, se ainda os movem, ninguém mais parece se dar conta disso. Moviam os hormônios e branqueavam os cabelos, como nos versos de Rogaciano Leite e Sílvio Caldas: “Meus cabelos cor de prata, são beijos das serenatas, que a Lua mandou pra mim...

Os poetas sonhavam de muitas formas com a Lua, e não só como inspiração romântica. O grande Cyrano de Bergerac, no século 17, combinava a literatura com a filosofia e a ciência, sem esquecer as conquistas amorosas e seu nariz imenso era visto como um atrevimento anatômico. Cyrano escreveu duas comédias notáveis, em que narra suas viagens aos estados e impérios da Lua e aos estados e impérios do Sol. Além de ser, assim, um precursor da ficção científica, Cyrano – militante político partidário de Mazzarini – foi também um crítico da arrogância da ciência e do obscurantismo da Igreja.

Um dia, talvez, conheçamos tudo sobre a Lua e é mesmo provável que ela se transforme em uma colônia da Terra. Mas os rios continuarão com seus mistérios, e suas infinitas margens, que correspondem às infinitas inquietações humanas. E o satélite, mesmo com suas águas polares, continuará desolador, porque lhe faltarão os rios, as cachoeiras, os barqueiros, os remansos e as ilhas solitárias.

O FAROL DE BERENICE


Falando dos rios e da Lua, devo lembrar a estória de Berenice. Tudo me diz que é falsa, mas Luís Sabino jurou-me que é verdadeira. Seu irmão mais moço, Elziro Sabino, preveniu-me que Luís – que já passava dos 80 – lera muito e misturava folclore, mitologia e mentira, não sabendo separar as lembranças em sua cabeça castigada pela malária e por algumas porretadas em briga de bordel de Pirapora.

Mas vamos ao farol de Berenice. Berenice fora menina que a mãe, em troca de um favor não explicado (Luís Sabino acredita que era o de se livrar do marido inválido) entregara ao diabo, para criar. Como o diabo não tinha corpo, nem casa, a menina foi induzida por ele a buscar guarida na casa de velha rameira de beira rio. Depois de adestrada nas artes do ofício, Berenice ficou embruxada e montou, em canoa de pau-ferro um farol mágico, que atraía os barqueiros noturnos. Atraia-os, seduzia-os, matava-os com sua saliva de cobra e seus corpos desciam o rio, para enganchar-se nos brejos das margens baixas.

Luis Sabino escapou da morte, quando a noite o apanhou, mor de um remo perdido, perto da barra do Paraopeba, e viu a luzinha na beira do rio. Com um remo só e de jeito, chegou e encontrou a mulher, nua, na canoa ancorada no toco de gameleira, iluminada pela luz da lua, que se refletia em um espelho pendurado na popa – o farol. “Eu tava meio perrengue e já sabia da malvada. Me peguei com Deus e por isso estou agora contando a história. A bruxa, quando eu refuguei, me jogou na água, mas nadei pra longe e acordei na praia”.

UM HOMEM LIVRE




Nos anos seguintes ao fim da Guerra de 1939-45, foi intensa a vinda de judeus para o Brasil. Muitos eram sobreviventes dos campos de concentração, que haviam perdido tudo durante a ocupação alemã nos países em que viviam antes, e dos quais foram arrastados para o Leste – uns para morrer e outros para o terrível sofrimento dos trabalhos forçados e da humilhação. As mulheres pareciam mais tocadas pela perseguição e algumas sofriam de permanente depressão.

Alguns tinham, no Brasil, parentes, mesmo distantes, que os acolheram. Outros recuperaram dinheiros antigos, nos bancos suíços, e podiam reiniciar a vida, com pequenos negócios. Mas havia os pobres, os judeus sem dinheiro, como os personagens de Michael Gold. Esses compravam e vendiam roupas usadas, eram mascates urbanos, viviam em rigorosa austeridade e podiam, assim, emprestar pequenas quantias para os mais pobres ainda, com juros suportáveis. Um deles, de quem me fiz amigo, me disse que a pior discriminação que sofria era de seu próprio povo. Ele – um sefaradim autêntico, com sua pele morena, seus fortes traços semíticos, magro, de pequena estatura, poderia ser modelo para algum pintor que desejasse retratar um judeu palestino dos tempos bíblicos.

Foi o primeiro judeu de quem ouvi uma clara condenação do sionismo. Ele me disse que o retorno a Israel era coisa dos judeus ricos, da Europa, que queriam distância dos judeus pobres e os queriam confinar nas aldeias palestinas. E me disse que sua gente tinha o direito de manter seus costumes e sua religião, como qualquer outro povo. Em troca, devia obedecer as leis e as normas dos países em que vivesse.

Era muito mais velho do que eu. Um dia desapareceu. Soube que fora para o Mato Grosso. Ele mesmo não era religioso. Não freqüentava a sinagoga, e como vivia sozinho no mundo, não estava sujeito ao problema de consciência na educação dos filhos. Com seu agnosticismo radical, me disse que, se os árabes e judeus da Palestina fossem apenas humanistas e não deístas, o mundo não só seria melhor no futuro, como teria sido melhor antes.

Isaac tinha suas leituras – e era um homem livre.

O HOMEM DE NAZARÉ E OS OUTROS HOMENS


Coisas da Política

As escavações de Nazaré, ao revelarem uma casa da época de Cristo – que pode ter sido a da família de Jesus – mostram a pobreza daquele tempo, em que os romanos afirmavam seu império sobre a Palestina, com seus soldados e Herodes. Somos tentados, ao examinar as circunstâncias históricas, a definir Jesus como um homem político, mas, para isso, temos que escoimar a expressão, tão maculada ela se encontra. A política, e essa reflexão nos serve nestas horas brasileiras, como servia em Jerusalém, é a mais importante das ações humanas, e todos nós devemos praticá-la, como Cristo a praticou contra o Império.

Vivendo em comunidade, tudo o que fazemos, e tudo o que deixamos de fazer, interfere no todo. Na política, como na física, podemos recorrer à famosa teoria do caos, de Edward Lorenz, e do efeito borboleta (dela intuído, embora de forma lateral). Assim como o bater de asas de uma borboleta, no Pacífico, pode determinar, pela ampliação das conseqüências físicas, o derretimento de uma geleira na Antártica, o ato de um cidadão qualquer pode desencadear processo político que venha a mudar o mundo. Seu gesto pode repetir-se, crescer ao ser emulado, mudar a História.

Cristo foi o jovem que saiu de Nazaré, esteve em algum lugar que os evangelhos não registram, nem ele revelou a seus discípulos, até que, homem feito, foi buscar, nas águas do rio, o batismo de João Batista. O pregador precisava de seu concurso, e ele o substituiu quando uma princesa volúvel recebeu de presente a cabeça do profeta. Sua ação foi política: como João, recusava o sistema. Contra ele, pregava - no meio do povo - a revolução, imediata, da igualdade e da justiça. Qualquer que seja a interpretação de sua presença e dimensão histórica, ele agiu, no plano da realidade de seu tempo, como político. Isso não lhe exclui, nem mesmo reduz, a transcendência. A transcendência se confirma na necessidade, naquele momento, e em toda a História, de sua presença no sentimento de todos os seres humanos. Todos os que o negam, o confirmam, em algum momento da vida. Confirmam-no quando se encontram em aflição e o confirmam quando são tocados por instantes de êxtase, de alegria e de indignação contra os opressores.

O Natal é a festa do nascimento de Jesus, porque é a festa do nascimento de todos nós. De acordo com alguns teólogos, nós nascemos com Cristo, porque só depois dele entendemos a vida como um compromisso com o amor. A mensagem de Cristo é mais poderosa do que as instituições que reivindicam o seu nome; é também mais poderosa do que a fé que as seitas recolhem e administram, nos negócios do mundo. Ela é a mensagem do filho do homem, para os homens; é a mensagem de um para o outro, para os outros. Nisso, os evangelhos podem ser traduzidos em uma frase: nós somos seres que só podemos nos entender como irmãos na igualdade: na face e nas mãos, nos olhos e nos lábios, na voz, no riso e nas lágrimas.

Nós somos o que somos, e seremos maiores no tempo e no mundo, quando formos iguais, uns diante dos outros. Para os humanistas e agnósticos que vivem a sua mensagem, embora possam duvidar da saga que lhe atribuem, Cristo é, do nascimento à morte; da gruta de Belém ao Calvário; da estrela radiosa e brilhante, que o saúda ao nascer, às trevas da agonia, uma resposta do homem à sua própria necessidade.

Como qualquer homem, na hora da morte, ele não tinha ângulo em que agarrar-se, estava a-gônico, de acordo com o léxico grego. Assim, como qualquer homem, recorreu a Deus, perguntando-lhe porque o abandonara. No reconhecimento de sua fragilidade humana, estava a grandeza de sua transcendência. Por isso, São Francisco de Assis, de inegável existência histórica, é o santo que dele mais se aproxima, ao despir-se e batizar-se com o vento, e reafirmar o amor, ao retomar, com a jovem Clara, o caminho de Cristo na encosta de Assis e na planície umbra, em cujo solo reabriu suas trilhas palestinas, e fundou, com os pobres, comunidade que incluía leprosos e miseráveis.

O Natal - para aqueles que não o celebramos como festa profana, festa do consumo - é uma reverência ao Mistério, que fez de um homem frágil, que não conseguia, sozinho – e este é outro sinal da transcendência – carregar a cruz, e aceitou que um certo Simão, cirineu, o ajudasse a subir a escalada do Calvário. Um cirineu qualquer, que vinha do campo, com seus braços e seu ombro, conforme o belo Evangelho de Lucas.