sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

RESERVAS INTERNACIONAIS CHEGAM A 295 BILHÕES DE DÓLARES.


As reservas em poder do Banco Central (fora o dinheiro do fundo soberano) alcançaram, no dia 26 de janeiro de 2011, mais de 295 bilhões de dólares. O BRIC já tem três vezes as reservas internacionais do G-7. China, Rússia, Índia e Brasil, nessa ordem, são os quatro maiores credores do tesouro norte-americano.

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BRASIL BARRA NAVIO INGLÊS E A ARGENTINA AGRADECE.



O Brasil proibiu a entrada, no Porto do Rio de Janeiro, do navio da marinha britânica HMS Clyde, procedente das ilhas Malvinas, que obteve autorização para aportar em Santiago do Chile. A medida repercutiu favoravelmente na Argentina, na qual o chanceler Héctor Timerman agradeceu oficialmente o gesto de solidariedade do Governo Brasileiro. Em Londres, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores afirmou que o Governo inglês “respeita” a decisão.






sexta-feira, 25 de junho de 2010

OS MILITARES E A POLÍTICA



Ao demitir, ontem, o general Stanley McChrystal do comando das tropas norte-americanas no Afeganistão, o presidente Obama venceu o primeiro
grande teste de autoridade em seu governo. A los militares, disse o presidente argentino Arturo Illia – “o se les manda, o se les obedece”. Obama mandou. Mandou, como Truman, em abril de 1951, demitiu o general MacArthur, velho herói da Guerra na Ásia, responsável pela democratização manu militari do Japão, por desobediência às diretrizes políticas estratégicas da Casa Branca no caso da Guerra da Coreia.

O argumento de Truman foi definitivo: a Constituição estabelece que os militares têm que se subordinar ao comando civil. Se não demitisse MacArthur, estaria faltando ao juramento que fizera, de sustentá-la e defendê-la. O general McChrystal, com toda a sua importância, se encontra a anos-luz da personalidade de MacArthur.

São difíceis as relações entre militares e o poder civil, em todos os tempos e em todas as latitudes. Já se tornou lugar-comum lembrar o aviso de Clemenceau de que a guerra é assunto muito grave para ser confiado aos militares. Mas há momentos em que o homem de Estado se vê obrigado a suportar militares petulantes. Nas discussões de ontem sobre o caso McChrystal, a historiadora Doris Kearis lembrou a desfeita sofrida por Lincoln, em 1862. Percebendo que o general McClellan, comandante das tropas da União contra os confederados, não estava atuando de acordo com suas diretrizes, resolveu visitar o chefe militar em sua residência, em companhia de dois auxiliares, para uma conversa amistosa. O general não estava, e os visitantes esperaram mais de uma hora. McClellan chegou, viu-os, passou por eles sem os cumprimentar, subiu as escadas, e mandou avisar que já se recolhera ao leito. O grande presidente engoliu a ofensa: não lhe convinha demitir logo o insolente militar, porque não tinha como substituí-lo no comando. Esperou dois anos para fazê-lo. McClellan estava sendo eficiente na luta, e chegou a ser chamado de Little Napoleon. Quando começou a esmorecer, foi facilmente substituído.

Os militares, pela própria natureza de sua formação, de seu trabalho e de sua posição na sociedade, sentem-se diferentes da população em geral. Em grande parte – e este é o caso do general McChrystal – são filhos de militares, passam a infância em companhia de crianças da mesma origem e se acostumam, desde cedo, a viver separados da sociedade civil.

O general George Marshall foi tido como o exemplo de discrição, de tal maneira que, segundo seus contemporâneos, evitava rir das anedotas de Roosevelt, para não demonstrar intimidade com o presidente. Nunca revelou os conselhos que, como o militar de mais alta posição nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, dava ao chefe de Estado. Mas nem todos agem assim.

No caso do Brasil, as vicissitudes de nossa formação trouxeram os problemas conhecidos. Ainda em 1826, Bernardo Pereira de Vasconcelos advertiu contra a decisão de Pedro I de mandar o Exército reprimir os revoltosos da Confederação do Equador, dando às comissões militares o poder de condená-los e os executar. Abriu-se o precedente para tudo o que veio depois.

O presidente Obama encarregou o general Petraeus de acumular o comando das operações do Afeganistão com as suas responsabilidades atuais, mas falta saber o que os Estados Unidos farão para sair de uma guerra já perdida – como perdida se encontra a do Iraque.

terça-feira, 22 de junho de 2010

O PRAGMATISMO, O PODER E A ÉTICA


No monólogo da abertura de seu Doctor Faustus, Christopher Marlowe adverte: “Si peccasse negamus, fallimur, et nulla in nobis veritas”. Se não reconhecemos os nossos pecados, nada da verdade existe em nós.

A campanha eleitoral está se transformando em triste confronto entre o pragmatismo e a ética. Uma corrente de humanistas defende o princípio de que o verdadeiro pragmatismo é o que respeita os fundamentos imemoriais da ética. Esse pensamento encontra eco no conselho de que, na dúvida, devemos sempre apostar na honra.

Uma coisa, na construção do poder, é a concessão doutrinária. Para encontrar o centro – e não se governa senão pelo centro – os partidos podem ceder em seus programas e estabelecer pactos em que todos os contratantes ganham alguma coisa para perder outras. Mas há limites para esses acordos, quando envolvem a comunidade, e esses limites estão sendo esquecidos nas candidaturas presidenciais e em quase todas as estaduais.

Tanto o PSDB quanto o PT nasceram do discurso ético. Os dissidentes do PMDB, paulistas e mineiros, que se levantaram contra o poder dos governadores eleitos em 1986, apelaram para a social-democracia, em nome da moralidade política. O PT foi ainda mais autêntico em sua gênese, quando se reuniram os sonhadores com a igualdade social e os defensores dos bons costumes na administração do Estado. De repente, nos dois partidos, a luta por minutos e segundos nos programas de televisão conduz a arriscadas e pecaminosas concessões. Quando o PSDB negocia o apoio de Roberto Jefferson e cata os votos dos seguidores de Arruda no Distrito Federal, e o PT de Minas se vê tangido a apoiar o candidato do PMDB ao governo do estado, os princípios deambulam no deserto, escorraçados pelo ilusório pragmatismo.

O presidente, com todos os seus irrecusáveis méritos, parece estar testando a própria força, e criando obstáculos para ter o gosto de vencê-los. Isso se revela na construção das alianças estaduais, que devem servir de suporte à aliança nacional com o PMDB. Com o PMDB não, com uma parcela dele, que parece ter mais votos – embora tenha abandonado os princípios que lhe deram origem. Mesmo assim, o processo está sendo difícil. Na Bahia, os dois partidos marcham separados. No Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, está sendo muito improvável o acordo bipartidário, porque as lideranças regionais do PMDB, entre elas Pedro Simon e Luis Henrique, contestam a direção nacional, e apoiavam a candidatura de Roberto Requião à Presidência da República pelo partido. Requião teve mais de cem votos convencionais, o que não pode ser desprezado. Em São Paulo, o PMDB está dividido entre Quércia, que tem os votos do interior, e Temer, que presume controlar a máquina. Se isso ocorre em quase todos os estados, no caso particular de Minas é muito mais penoso. Depois de obter a aquiescência de Fernando Pimentel – velho companheiro da candidata Dilma Rousseff – para uma aliança formal com o candidato do PMDB ao governo de Minas, a direção nacional do PT se esforça em conseguir concessão bem mais difícil: a concordância de Patrus em aceitar a candidatura a vice-governador.
Patrus tem sido, em sua vida pública, homem de valores sólidos e translúcidos, como os cristais do Espinhaço, em cujas encostas nasceu. Os mineiros sabem que qualquer seja sua decisão, ela não será ditada por uma razão menor.

DIPLOMACIA SEM MEDO


Em entrevista ao Jornal do Brasil, o chanceler Celso Amorim atribuiu os ataques que a diplomacia de Lula recebe de alguns ex-embaixadores – todos eles vinculados ao governo de Fernando Henrique – à dificuldade de as pessoas se adaptarem aos tempos novos. É realmente o que está ocorrendo, não só com relação à diplomacia, mas a toda a sociedade atual, tanto no Brasil quanto em todos os países do globo. O mundo mudou, para melhor e para pior. Trotsky pregava a necessidade de uma “revolução permanente”, sem perceber que a História é, em si mesma, uma revolução sem fim, com seus momentos de avanço e de recuo, como ocorre no interior de cada período revolucionário visto isoladamente.

Comecemos pelo problema maior do século passado, que permanece: o artificial Estado de Israel. Foram as melhores as intenções dos países aliados ao criar aquele “lar nacional” para os judeus, depois do Holocausto. O Brasil tomou parte ativa nisso, coube a Oswaldo Aranha presidir a Segunda Assembleia Geral da ONU que aprovou a resolução. Poucos se recordam, no entanto, que, ao longo destes 62 anos, Israel, com o apoio dos Estados Unidos e da Inglaterra, jamais cumpriu o mandamento de respeitar a criação de um Estado palestino no mesmo território.

O Estado de Israel possui bombas atômicas – e dispôs-se mesmo a vendê-las ao regime racista da África do Sul, conforme revelou a imprensa britânica recentemente. Graças a isso, seus governantes mantêm os países vizinhos sob constante ameaça. Há quase 40 anos, quando houve a primeira revelação de que os cientistas de Israel estavam para armar o primeiro artefato nuclear, encontrei-me, na Europa, com dois amigos judeus nascidos no Brasil. Um deles, Louis Wiznitzer, estava exultante, porque Israel disporia de “uma arma de dissuasão”. O outro, o sociólogo mineiro Marcos Magalhães Rubinger, então em Genebra, estava desolado: “Estamos, como judeus, perdendo a última oportunidade de nos integrar à Humanidade, de renunciar a essa ideia particular de ‘povo diferente’ que nos atormenta”, me disse. Infelizmente, ambos já se foram.

Não se pode resolver o problema entre Israel e a Palestina sem que se resolva o problema entre Israel e seus vizinhos que, sendo muçulmanos, sentem-se no dever da solidariedade para com o sacrificado povo palestino. Isso explica a necessidade de negociar com o Irã, o mais poderoso dos países com maioria islâmica, como forma de esvaziar a tensão no Oriente Médio e retirar de Israel o pretexto para sua irracional política de aniquilamento paulatino dos palestinos.

Se as grandes potências são incapazes de promover a paz, os países que emergem como potências médias têm o dever de buscar o entendimento, de destravar o processo político. É nesse contexto que o Brasil está assumindo papel importante na sociedade mundial. O Brasil tem autoridade suficiente para isso. O que lhe estava faltando era coragem moral para assumir essa responsabilidade. De certa forma, não há nada de novo nessa postura, exposta por Ruy Barbosa há 103 anos, na II Conferência de Haia. Ali, diante da prepotência da Alemanha, da arrogância da Rússia tzarista e da presunção imperialista dos Estados Unidos, a delegação brasileira, chefiada pelo grande tribuno baiano, propôs a doutrina da plena igualdade política entre as nações soberanas. É na restauração dessa doutrina que o atual Itamaraty trabalha, sob a direção pessoal do presidente Lula.

Quando redigíamos este trabalho, Obama enviava ao Congresso sua mensagem com a nova estratégia norte-americana, que começa a reconhecer a responsabilidade de novos atores na cena internacional – entre eles, o Brasil. O famoso G-8 deixou de ser o clube dos donos do mundo, e a responsabilidade passa a ser do G-20 – grupo construído a partir da liderança brasileira entre os emergentes. Infelizmente, os maiores sabotadores da nova política externa independente se encontram em nosso próprio país – principalmente entre os que dominaram o Itamaraty no tempo de Fernando Henrique, o mais serviçal governante brasileiro ao interesse norte-americano em toda a história republicana.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O FUTEBOL E A POLÍTICA


As massas sempre demonstraram seu imenso poder. Sua força foi analisada por grandes pensadores do século passado, como Ortega y Gasset, em seu ensaio profético de 1930, La rebelión de las masas; Elias Cannetti, com Mass und Macht; e Serge Tchakhotine, em Le viol des foules par la propagande politique. Todos eles, de uma ou de outra forma, mostram como as massas podem atuar, em certas circunstâncias, como um só indivíduo. Ortega chama a esse indivíduo hombre-masa. Do ponto de vista filosófico, com todo respeito por Ortega, o melhor ensaio é o de Cannetti, ao identificar massa e poder: quem aglutina as massas e as sabe conduzir manobra o seu poder, como Hitler. Partindo da práxis, da experiência real, dos instrumentos totalitários da propaganda, o melhor ensaio é o do biólogo, psicólogo e agitador político russo Tchakhotine. Seu livro foi publicado em francês em 1938, quando o mundo estava entre três ideias básicas: o nazifascismo teuto-italiano, o socialismo marxista e a democracia capitalista-liberal anglo-americana.

Ortega publicou seu livro bem antes, em 1930, e seu grande mérito foi o de analisar a globalização dos anos 20, que levaria à depressão e à guerra, mas remontar o início dessa massificação do indivíduo ao começo da época moderna, ou seja, ao Renascimento e à Descoberta da América. Seu pensamento seria retomado, em seguida, pela Escola de Frankfurt e, de maneira magistral, por Marcuse em One-dimensional man, em 1964 – ano crucial para os brasileiros.

Podemos resumir esses três estudos em uma advertência: a de que a sociedade industrial capitalista tende a anular a individualidade, ao criar e manter uma massa universal uniforme e conformada. Uma massa de indivíduos que “pensa” estar exercendo sua liberdade de escolher, de pensar e de decidir. Não importa qual seja a sua bandeira. O que importa – como diz Cannetti – é que ela tremule como uma labareda.

Há 52 anos, quando “o mundo descobriu o Brasil”, conforme lema divulgado nestes dias, eu dirigia pequeno jornal diário, em Governador Valadares (que continua circulando até hoje). Havíamos perdido Copas anteriores e, de forma crucial, a de 1950, contra o Uruguai, no Maracanã.

Foi uma festa imensa, porque teve o gosto da recuperação do orgulho nacional. O Brasil, que havia perdido Vargas, quatro anos antes, e que começava a recuperar-se com o governo de Juscelino, explodiu diante da genialidade de dois meninos do povo, Garrincha e Pelé (nesta ordem, em meu juízo). Jornal do interior é, acima de tudo, jornal de opinião, e eu redigia rodapé de primeira página. Nele, moderei o entusiasmo geral, ao lembrar as terríveis dificuldades que o Brasil vinha encontrando para realizar o projeto de desenvolvimento de Vargas, naquele terceiro ano de Juscelino no poder.

Neste meio século conseguimos dar um grande salto econômico. A vitória de 1958 deve ter contribuído, e muito, para que o mineiro cumprisse a meta de avançar, conforme o slogan, 50 anos em 5. Vendo os fatos com tanto tempo de intervalo, sentimos a interação entre o entusiasmo popular da vitória com o esforço de desenvolvimento naquela segunda metade do governo. Infelizmente, no pleito de 1960, houve um demagogo que conseguiu dominar as massas, eleger-se, enveredar pela sedução totalitária e, com sua renúncia irresponsável, abrir caminho a duas décadas de ditadura.

Para manter a força positiva das massas, faltam os líderes sensatos. Para perdê-las, bastam os demagogos alucinados.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

ENTREVISTA COM O CHANCELER CELSO AMORIM PARA O JB


A sensação é inevitável, mesmo para quem, como o repórter, conhece o palácio há quase 50 anos: Niemeyer concebeu o novo Itamaraty para o chão e a paisagem de nosso surpreendente milênio, para o chão e a paisagem de outra e surpreendente nação, a dos brasileiros de hoje. O amplo salão de acesso é o vestíbulo de novo milênio e de nova consciência do mundo e de nós mesmos, nesse inquieto planeta, a cada dia menor em sua ubiquidade, a cada dia maior em sua dúvida quanto à própria sobrevivência.
Do novo Itamaraty são ausentes as vetustas colunas e a retilínia arquitetura do velho Itamaraty, no qual passeava a nobreza do barão do Rio Branco. As curvas de Niemeyer e a clareza dos salões, com a invasão da luz de Brasília, correspondem ao que somos, enquanto os cisnes idosos, sob a sombra das palmeiras do antigo palácio carioca, recordam o que fomos. As águas, mais leves, do Planalto, são outras, outras, mais próximas do chão, as plantas que adornam seus jardins. Outro, é claro, o chanceler, aliviado da obesidade de seu poderoso antecessor, posto que submetido a regime de viagens exaustivas, com o sono conturbado pelos fusos horários.
Celso Amorim é, em todos os seus gestos e palavras, o menos solene de todos os chanceleres conhecidos. Nenhum outro poderia ser o chefe da diplomacia com Lula na Presidência, nem com Itamar – mesmo incluídos os paisanos, isto é, os ministros políticos que, em alguns casos, se esforçam para adquirir caricatural physique du rôle. Amorim, o discutido presidente da Embrafilme que patrocinou a produção de Pra frente, Brasil, provavelmente não conseguiria o mesmo desempenho com um presidente vindo das velhas famílias do Império, ou das novas famílias de imigrantes enriquecidos em São Paulo.
A atualidade determina a pauta de nossa conversa: que perspectivas há, no caso do Irã? Amorim se move entre a cautela profissional e o natural orgulho da ação positiva brasileira no mundo atual. Confessa, de início, que não tinha muita convicção de que houvesse grande possibilidade de acordo entre os Estados Unidos e o Irã, mas, da mesma forma, entendia que era preciso tentar tudo, para obter alguma coisa.
– Sempre fomos muito bem tratados, tanto da parte do presidente (dos EUA) Obama, quanto da parte da secretária (de Estado) Hilary Clinton. Posso dizer que não havia divergências quanto ao resultado pretendido, que era o de obter garantias de que o Irã só iria usar a tecnologia nuclear para fins pacíficos, mas os meios não pareciam os mesmos. Nós acreditávamos, e continuamos acreditando, na persuasão, no convencimento, na conversa amistosa, na sinceridade de nossos propósitos. Eles, no entanto, se mostravam muito céticos, quanto à possibilidade de que o Irã viesse a aceitar as condições que haviam proposto em outubro passado. Creio que eles se mostraram surpreendidos com o resultado. É provável que não esperassem a aquiescência do Irã aos esforços da Turquia e do Brasil, que agiram como países soberanos, interessados na paz. Eles gostariam de ter iniciado o processo de punição antes de nossos entendimentos – e responderam com a decisão da secretária de Estado de propor as sanções às chamadas grandes potências.
Atrevo-me a observar que há uma diferença doutrinária, digamos, entre o presidente e sua competidora nas eleições primárias dentro do Partido Democrata, e que, provavelmente, Obama não pense exatamente como a secretária de Estado, que busca afirmar-se na ala direita de seu partido no Congresso. Amorim sorri com suave malícia. Ele sabe que eu não espero a contribuição de seu juízo, posto que, qualquer que ele fosse, seria diplomaticamente inoportuno.
E, agora, o que ocorrerá? – levo-o a retomar o seu pensamento. Amorim está otimista. Acha que os demais membros do Conselho de Segurança – sobretudo a China e a Rússia – podem concordar com a ideia, mas provavelmente não aceitem o conteúdo da resolução proposta por Washington.
Nesse momento, Amorim se desculpa, diante de um sinal de uma assessora que chega à porta. Deve atender a um chamado de seu colega turco, com quem estivera conversando antes de nossa entrevista. Não bem retornou ao Brasil, e está em contato permanente com Teerã e Ancara. De Teerã teve a promessa de que a carta, endereçada à ONU, reiterando os termos do acordo, que o governo de Ahmadinejad ficou de enviar até segunda feira, está sendo cuidadosamente redigida – e será enviada a tempo.
– Essas coisas levam tempo, recomendam a ponderação, reclamam consultas. Na diplomacia, tempo e paciência caminham juntos.
Acrescenta que, pouco a pouco, os norte-americanos e europeus compreenderão a necessidade de cautela. Isso, repete, fortalece seu otimismo, o mesmo otimismo de Lula. Lembra que, com o passar das poucas horas, já se percebem os sinais da prudência, por parte dos membros permanentes do Conselho, e com direito a veto.
Comento com o chanceler matéria divulgada pelo New York Times – que, como seu editorial, interpretava os fatos em favor da senhora Clinton – e a reação surpreendente nos comentários dos leitores. Até onde eu havia lido (mais ou menos dois terços de quase 300 intervenções). Não havia um só leitor que aprovasse a posição do Departamento de Estado. Todos apoiavam – e muitos com linguagem dura – os esforços do Brasil e da Turquia para desamarrar, e não cortar, como parecem pretender os alexandres do Complexo Industrial Militar dos Estados Unidos, o nó górdio iraniano. Amorim não os havia lido, pediu à assessoria que acessasse a matéria; sorriu, feliz, para ilustrar o superlativo: interessantíssimo.
Observo que podemos ver, no episódio, a situação dos Estados Unidos no mundo de agora. O ministro comenta que há vários artigos, firmados por observadores respeitáveis, sobre a resistência de Washington – e seus aliados – à entrada de novas potências, novospaíses, no jogo internacional.
– Até há pouco eles nos convidavam para conversar sobre o clima. Na OMC foram constrangidos a nos ouvir. Mas consideravam que assuntos de paz e segurança entre as nações eram coisas deles. Assim, quando o Brasil e a Turquia entram no jogo, é natural que reajam. A tentativa, mesmo que seja simbólica, de a Turquia e o Brasil agirem de forma diferente, sugere que a arquitetura da segurança internacional, sustentada por algumas autodesignadas forças e países, não pode manter-se por muito tempo.
Intervenho, para lembrar que os Estados Unidos têm oscilado, em sua História, entre os postulados de Hamilton e os de Jefferson. E quando a orgulhosa aristocracia da Nova Inglaterra se defronta com a eleição de um mestiço, com o sobrenome Hussein, há sinais claros de que alguma coisa mudou realmente naquele país. O chanceler resume em uma frase curta: foi uma mudança para melhor, mas seguramente não terá sido para o entendimento de parcela de suas elites.
– Há setores da sociedade norte-americana que, diante de um presidente com essas marcas biográficas, dele cobram uma posição mais dura, uma demonstração de força. Eu o vejo como homempropenso ao diálogo. Mas, sem dúvida, ele enfrenta dificuldades.
Provoco-o, lembrando algumas críticas que se fazem à diplomacia brasileira: não estaríamos desprezando a prioridade da aliança continental sul-americana, em favor de uma intervenção no Oriente Médio?
– Não, de forma alguma. O Brasil não pode desinteressar-se dos assuntos que afetam a paz mundial. Quando os nossos países, a Turquia e o Brasil, foram eleitos para o Conselho de Segurança, é claro que essa escolha acarretou-lhes a responsabilidade de cuidar da paz, em nome da comunidade internacional, e não somente em nome do próprio país ou de determinada região. Não há tema que mais afete a segurança internacional do que o do Oriente Médio. Em algum momento, e com razão, eu via na Palestina o perigo maior da região, mas, nesta hora, a questão nuclear do Irã é mais premente. Tendo a possibilidade de atuar, de maneira positiva, com um país da região, que é a Turquia – o que foi uma boa combinação – o Brasil procurou agir em busca de uma solução pacífica, como é de seu dever. Isso não foge à nossa vocação. Afinal, quando participamos da Segunda Guerra Mundial, o fizemos na defesa da democracia. No caso atual, não se trata da guerra mas da paz. Melhor ainda.
Diante das críticas, algumas acerbas, que alguns dos condutores da diplomacia brasileira, durante o governo passado, endereçam ao Itamaraty de hoje, permito-me observar que eles atuam como os famosos generais de pijama. Haveria uma categoria de “embaixadores de pijama”?
Amorim se embaraça um pouco com a pergunta e, antes de responder com a elegância que tem faltado a alguns de seus adversários, permite-se uma boutade: os pijamas dos embaixadores devem ser da grife Versace.
Indago-lhe se esse grupo de diplomatas age em decorrência de haver perdido sua posição eminente no Itamaraty de Fernando Henrique, ou se há alguma coisa ideológica mais profunda.
– Em primeiro lugar, eu prezo muito a liberdade de expressão, e acho perfeitamente válido que cada um dê a sua opinião. Também acho que não é por simples coincidência que determinados meios de comunicação busquem sempre os mesmos embaixadores com essa posição. Já li muitas outras manifestações diferentes, de outros diplomatas e de setores da sociedade que não encontram a mesma acolhida desses órgãos tão solícitos à crítica à nossa política externa. Prefiro não ver, nisso, a manifestação de quem deixou o poder. Na verdade, todos nós temos como missão defender o Brasil e defender algumas ideias importantes nas relações internacionais. Acho, no entanto, que algumas pessoas têm dificuldade em adaptar-se aos novos tempos. O Brasil ascendeu muito rapidamente no cenário internacional, principalmente em razão do desempenho do presidente Lula, na conciliação entre a boa economia e a justiça social – e, é claro, também por sua atuação internacional. Como a mudança foi súbita, a cabeça de muitos com ela não se acostumou. Por isso, mesmo aceitando que criticam com boa-fé, atuam sempre com a preocupação de que “não podemos brigar com tal grande potência”. Quando atuamos em Cancun, no caso da OMC, e na divergência sobre a Alca, muitos disseram: “Mas, gente, vocês vão brigar com os Estados Unidos?”
O ministro cita a era Bush:
– Ora, mesmo na época de Bush, as relações entre Lula e o presidente texano foram boas. Trabalhamos juntos, com êxito, em vários programas. É claro que, nesses assuntos delicados de paz e segurança, as coisas são mais difíceis, levam mais tempo, mas os Estados Unidos irão compreender que a participação ativa do Brasil não se faz contra os interesses deles, porque já passou a época em que um só país pode dominar o mundo. Terá que haver uma governança realmente multipolar. Da mesma forma que, para muitos países é difícil entender essa mudança, é provável que pessoas que militaram durante muitos anos em situação diferente tenham dificuldade em entender que o Brasil hoje não só pode agir com independência, e defender seus interesses, ao mesmo tempo em que contribui para a ordem global. O fato é que a emersão dos Bric assustou um pouco. Conforme a gíria americana, há “new kids on the block”.
Relembro o discurso de posse de Celso Amorim como chanceler do presidente Lula. Ele recomendou aos jovens diplomatas que não tivessem medo, nem arrogância. A postura do Itamaraty, hoje, pode ser considerada de Realpolitik? Amorim aceita a expressão bismarquiana, na medida em que o Itamaraty atua de acordo com a dimensão da realidade mundial. Pondera, no entanto, que, mesmo não agindo no vazio, a postura brasileira é fundada em positivo idealismo humanista.
– Acho que não nos podemos mover em uma política determinada pelo interesse cru. Essa posição não me entusiasma, nem ao presidente. A política que reúne o nosso interesse como nação e os nossos ideais humanistas é a da solidariedade, e ela nos está trazendo maior reconhecimento nos foros internacionais. Atuamos no sentido da universalidade, o que nos leva tanto às grandes nações europeias, como nos permite trazer a Brasília ministros de 50 nações africanas, a fim de discutir os problemas da agricultura. Vamos a Israel, vamos à Jordânia, vamos à Palestina e ao Irã, porque nós não temos posição preconceituosa.
Arrisco-me a dizer que essa política brasileira, de respeito à igualdade entre as nações, foi enunciada por Ruy Barbosa em Haia. Amorim não só concorda, como considera Ruy Barbosa o patrono da diplomacia multilateral brasileira, da mesma forma que Rio Branco foi o patrono da diplomacia bilateral.
De muitas outras coisas – e algumas importantes – falou o chanceler, mas todas dentro da mesma linha de raciocínio. O Brasil cresceu muito, o mundo mudou muito, e é preciso enfrentar os problemas sem medo, mas sem as bravatas da adolescência. Entre as mudanças do mundo se encontra a instantaneidade da informação, que estimula a transformação dos indivíduos passivos em cidadãos atuantes, como se vê no mundo inteiro. Nossa autonomia de ação é um caminho do qual não poderemos retornar, a menos que estejamos dispostos a agachar-nos, depois que nos decidimos a andar de cabeça alta. O caso do Irã é emblemático, porque a sua solução contribuirá para a consolidação de nova ordem mundial, com o fortalecimento das Nações Unidas e o fim dos ditados imperiais das grandes potências. De qualquer forma, a vigilância na defesa do entendimento entre as nações – é o que podemos resumir de suas ideias – terá que se manter, e a cada dia mais, porque a paz é sempre uma conquista esquiva da razão política.