sexta-feira, 6 de maio de 2011

JADER E O JORNALISMO

A morte, há dias, de Jáder de Oliveira me leva a meditar sobre a brevidade da vida, o valor da amizade e a natureza do ofício de jornalista. O jornalista é um homem comum, que consegue ver o mundo e escrever sobre seu dia-a-dia. Não é escritor, na identificação que a sociedade dá ao homem de letras. Não é especialista em nada; flutua sobre os assuntos, como uma libélula recenseia as lagunas de águas estanhadas, com sua vegetação estranha. Sua notoriedade é efêmera. Mas, de alguma forma, os bons jornalistas têm a sua atuação gravada no tempo, e queiram ou não queiram, ao influir sobre o cotidiano, influem na História.

Jáder e eu fomos, no início dos anos 50 – mais precisamente em 1952 – os dois mais jovens integrantes da redação do “Diário de Minas”, que se editava em Belo Horizonte. O jornal pertencia a Otacílio Negrão de Lima, irmão de Francisco Negrão de Lima, embaixador, ministro da Justiça de Getúlio e futuro governador da Guanabara. Era um matutino ligado ao PSD, logo, a Juscelino. Jáder era um adolescente de 17 anos, e eu mal passara dos 19. Como éramos os mais jovens, passamos a ser, necessariamente, os mais próximos. Recordo-me que a sua juventude era tão ostensiva, que José Calazans Filho (que tinha 34 anos apenas, mas, para nós, era um velho) costumava aborrecê-lo, perguntando sempre a sua idade. Jáder, respeitosamente, respondia corretamente e Calazans resmungava um forte palavrão, depois do intróito canalha: “vai ser novo assim...”

Uma semana antes de sua morte, conversamos longamente pelo telefone. Ele, com a dignidade de sempre, e bom humor, relembrava os nossos tempos jovens, falava dos companheiros que já se haviam ido, como se ainda estivessem vivos.

Jáder era repórter esportivo então. Sempre escreveu com elegância e correção. Ao mesmo tempo se dedicava à música popular brasileira e ao rádio. Bem dotado para as línguas estrangeiras, cantava baixinho as canções norte-americanas de Jerome Kern e Oscar Hammerstein, e, mediante elas, aprendeu rapidamente o inglês. Em Londres, ao mesmo tempo em que trabalhava na BBC, foi correspondente da imprensa brasileira, trabalhando em Veja, em sua primeira fase, e em outros jornais. Sempre que podíamos, nos víamos. Visitou-me em Bonn, onde morei, e estive muitas vezes com ele e Nely, a dedicada esposa que ele buscou na Argentina, em Londres. Jáder vinha ao Brasil pelo menos uma vez por ano. Seus dois maiores amigos, bem mais velhos, aos quais ele tinha um afeto de filho – ele que ficara órfão de pai muito cedo – eram os advogados José Cabral e José Ramos Filho. Com ambos – atleticanos lendários - conversava sempre sobre futebol. E com José Ramos, a música popular brasileira era o tema de todos os encontros. Passavam horas lembrando os grandes compositores do passado, cantarolando seus sucessos. Ele sabia, de cor, todas as composições de Noel Rosa, e conhecia as circunstâncias da criação de cada uma delas.

Na última vez que visitou Belo Horizonte, já não os encontrou: Cabral morreu aos 98 anos e José Ramos era pouco mais moço quando se foi.

Jáder já estava enfermo e tinha a consciência de que dificilmente venceria a doença. Mas nada derrubava o seu bom humor. “Fiz tudo o que podia fazer”, me disse em nossa última conversa. “Agora, é esperar”. E, em seguida, lembrou um episódio de nossa mocidade, fustigando certo colega pedante que tivemos, e seu riso intenso foi cortado pela tosse. “O canalha está se vingando”, voltou a rir. O médico interrompeu a nossa conversa, explicando-me que ele estava cansado.

Quando penso em alguns companheiros de jornal, e não foram poucos, construídos com a dignidade, a modéstia e a competência de Jáder de Oliveira, sinto que vale a pena o nosso ofício.

LIL ABNER E O SUPER-HOMEM

Até mesmo por uma estratégia da natureza humana, evitamos pensar na decadência e na morte. A vida, apesar de todas as especulações transcendentais, ocorre aqui e agora, no mundo que conhecemos. E esse mundo, propriedade ideal de cada um de nós, enquanto vivemos, é a única realidade de que dispomos. Por mais pobres que sejamos, o normal é que busquemos viver com esperança. Como no belo poema musical de Chico Buarque, Pedro Pedreiro, estamos sempre esperando o melhor.

A esperança é positiva, e seu lado oposto é a ambição, que faz da felicidade um saqueio sobre a felicidade alheia. Sentimentos negativos constituem o impulso de algumas sociedades políticas. É da orientação dessas comunidades a expansão do poder sobre o espaço alheio e a coesão interna a qualquer custo. Isso ocorreu em toda a História e, nos últimos cem anos, com ferocidade crescente. Nas duas grandes guerras, movidas pela ambição expansionista, morreram dezenas de milhões de pessoas. Há aqueles que defendem as guerras, como fator de progresso, e apontam, entre outras vantagens da matança, o surgimento de remédios poderosos, como a penicilina, ou o desenvolvimento da tecnologia dos transportes aéreos.

O nacionalismo é uma ideologia positiva, quando cuida da afirmação de soberania de um povo sobre seu território, seus recursos naturais, sua cultura, sua história e suas decisões políticas. E é a mais perigosa das idéias, quando busca o domínio de outros povos. Encontrar o equilíbrio entre a auto-estima e o respeito aos outros, tanto na vida pessoal, quanto na vida das nações, é desafio permanente da razão. O mesmo desafio da razão é posto, quando se trata de identificar o momento do declínio, e administra-lo com honra. Uma das dificuldades, tanto para as pessoas, quanto para as nações, é aceitar a derrota e buscar supera-la mediante os recursos da inteligência. Os Estados Unidos, diante das sucessivas derrotas militares, entre elas, de forma constrangedora, no Sudeste Asiático, não conseguiram encontrar outro caminho para a manutenção de seu orgulho nacional que não seja o da violência e da ameaça. É certo que nenhum outro povo dispõe de armas capazes de destruir o mundo, como eles dispõem. Mas é ilusório imaginar que disponham de meios para dominar o mundo para sempre. Depois de fragmentada a União Soviética, a História, que rejeita as hegemonias definitivas, favoreceu o crescimento econômico e bélico da China, que, há cem anos era ainda uma nação humilhada pelo domínio colonial, quando proclamou sua república. Os norte-americanos terão que encontrar um modus-vivendi com os chineses, ou partir para a guerra total contra Pequim. Para isso, os norte-americanos terão que se entender com terceiros, e os terceiros são os países emergentes – entre os quais se encontram povos muçulmanos, muitos deles situados na Eurásia. A guerra total contra Pequim poderia ser a guerra total contra o mundo – e essa eles não poderão vencer. Seu único desfecho seria o aniquilamento do planeta, ou sua destruição de forma tão devastadora que o homem levaria séculos para reconstruir a civilização.

O grande líder norte-americano – esperava-se que fosse Obama – será aquele que convença seu povo a renunciar ao nacionalismo expansionista, a reduzir o poder bélico e a admitir a convivência, em igualdade de direitos, com as outras nações. Mas não será fácil renunciar a essa presumida supremacia, embora isso seja necessário à paz comum. É possível que, com o cansaço da invencibilidade do Super-Homem, os norte-americanos aceitem como modelo a modéstia de Lil Abner, que descobriu, no Vale dos Shmoos, a solidariedade que se contrapunha ao capitalismo americano. Seu criador, Al Capp, teve a coragem de, em plena caça às bruxas, criticar duramente o sistema.


OS PILARES DA MENTIRA

Em suas memórias, Known and Unknown, A Memoir, recém publicadas (Nova York, 2011), Donald Rumsfeld conta, nas páginas 208-209, o momento patético da Queda de Saigon. Ele era chefe de gabinete de Gerald Ford, que assumira o governo depois da renúncia de Nixon e devia administrar a humilhante derrota.

Segundo Rumsfeld, Kissinger assegurava, no Salão Oval, que a evacuação de Saigon já se completara, com a saída do Embaixador Graham Martin que - tal como os comandantes dos navios que naufragam - devia ser o último a escapar, quando se soube que não era verdade. O diplomata escapara antes que personalidades do governo títere e derrotado de Saigon invadissem a embaixada e esbaforidas, tentassem ocupar os últimos helicópteros, disputando espaço com os norte-americanos em fuga. Antes da reunião, o fotógrafo da Casa Branca, David Kennerly, veterano do Vietnã, saudara Ford com duas frases: “A boa notícia é que a guerra acabou. A má notícia é que a perdemos”.

Segundo o autor, alguém sugeriu que não se devia corrigir a falsa informação de Kissinger, e se ajustasse nova versão ao pronunciamento do Secretário de Estado. Rumsfeld diz ter sido contra, lembrando que tudo o que havia sido dito ao povo norte-americano não fora simplesmente a verdade. Esta guerra tem sido marcada por muitas mentiras e evasivas, e, assim, não há o direito de terminá-la com uma última mentira” – ele teria dito. Ford mandou o secretário de imprensa, Ron Nessen, dizer a verdade aos jornalistas.

No passado, a mentira podia durar muito, embora sempre tivesse pernas curtas. Em nosso tempo, os segredos podem ser guardados, como os da morte de Kennedy, mas a suspeita da mentira é tão danosa quanto a sua revelação. Os Estados Unidos sempre mentiram, a fim de tentar legitimar sua política agressiva. Todos os golpes de Estado, patrocinados pelos norte-americanos em países estrangeiros, ocorreram sob pretextos falsos. Não é necessário ir muito longe: a guerra contra o Afeganistão e o Iraque foi montada sobre os pilares das mentiras mais reles. Saddam Hussein podia ter sido cruel com os inimigos, mas o seu governo era o mais laico e menos obscurantista da região. Depois da guerra contra o Irã, ele abandonara todas as armas químicas. Não dispunha de recursos técnicos para a produção de bombas atômicas. Fotos foram adulteradas, indicando reatores clandestinos, forjaram-se depoimentos, e essas “provas” arranjadas levaram um homem tido como sério, o general Colin Powell, a mentir diante das Nações Unidas.

Poucas horas depois da morte de Bin Laden, começam a se confirmar suspeitas iniciais e perturbadoras. O saudita foi morto desarmado - e poderia ter sido capturado vivo. No avesso da lógica e da ética, Washington diz que não é preciso que o suspeito esteja armado para resistir à prisão. Osama “resistiu”, de mãos nuas, aos soldados protegidos por uniformes à prova de bala e dotados de armas potentes. O saudita tinha que ser morto, antes que pudesse dizer qualquer coisa ao mundo.

O bom senso internacional, passado o entusiasmo frenético diante da execução, começa a prevalecer, para qualificar o ato como agressão criminosa contra o povo do Paquistão e seu governo. Obama declara que agiu em defesa de seu país – e ponto. Foi como dissesse: “tenho o poder e dele faço o que quiser”.

Conta-se que, em Ialta, Churchill propôs que Hitler fosse executado tão logo reconhecido pelas tropas aliadas. Com ironia, Stalin se opôs: na União Soviética se respeitava o direito a um julgamento, conforme “o devido processo da lei”.

Como se sabe, Hitler se antecipou, matou-se com sua pistola, depois de determinar aos auxiliares que queimassem o cadáver – o que fizeram, em uma pira de molambos embebidos de gasolina.

A SEMENTE DO MEDO

Os Estados Unidos celebram a morte de Bin Laden, e um ex-embaixador brasileiro considerou-a “espetacular”.

É melhor ver a morte de qualquer homem, bom ou mau, como a morte de parte de nós mesmos. Como no belo poema em prosa de Donne, any man’s death diminishes me, because I am involved in mankind, and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee. A morte de qualquer homem me diminui, disse o poeta, porque sou parte da Humanidade, e, por isso, não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por você. Todos nós morremos um pouco, quando as Torres Gêmeas vieram abaixo, e todos nós morremos quase diariamente com os que tombam e tombaram, na Palestina, no Iraque, no Afeganistão, na Costa do Marfim, no Realengo, em Eldorado dos Carajás, na Candelária e nas favelas brasileiras.


Os americanos comemoram nas ruas a morte de bin Laden, enquanto nos países muçulmanos outros oram pelo homem que consideram mártir. Como parte da Humanidade, talvez não nos conviesse a euforia pela execução sumária de bin Laden, nem a consternação por sua morte. Os atentados de Nova Iorque – de resto, nunca assumidos de forma cabal pelo saudita – foram crime brutal contra a Humanidade, bem como todos os atos de terrorismo, ao longo das duas últimas décadas. Mas a vingança exercida pelos comandos norte-americanos não pode ser aplaudida. Foi um ato de guerra, cometido contra a soberania do Paquistão, desde que ao governo de Islamabad não foi solicitada autorização prévia para a operação – segundo informou o diretor da CIA, Leon Panetta.

Isso nos leva a outra leitura de John Donne: não pergunte que povo foi atingido pela intervenção militar norte-americana. Todos nós fomos atingidos, não só por essa operação bélica e pela agressão à Líbia, mas também, no passado, pela intromissão, política, militar, econômica, das elites que controlam o governo de Washington, desde a guerra de anexação de territórios soberanos do México, movida pelo presidente Polk, em 1846. O México perdeu a metade de seu território, e os Estados Unidos ganharam mais de um quarto do que já ocupavam no norte do hemisfério. Essa vitória excitou a voracidade imperialista dos Estados Unidos, mais tarde explícita no fundamentalismo do “Destino Manifesto”.

Devemos ser cautelosos quando procuramos entender o momento atual. Comentaristas internacionais, sob o calor destas horas, tentam pensar nas conseqüências imediatas, e há os que discutem se o homem morto em Abbottab (o nome da cidade é homenagem ao general James Abbott, que serviu nas forças de ocupação da Índia no século 19) é mesmo bin Laden – que começou a sua vida de combatente como aliado dos norte-americanos contra os soviéticos, no Afeganistão dos anos 80. Tenha sido ele, ou não, importa pouco. Osama era apenas um símbolo, na clandestinidade imposta pelas circunstâncias. O que importa, e muito, é o que virá a ocorrer não nos próximos dias, que serão de pausa e perplexidade, mas nos próximos meses e anos.

O perigo maior, e desdenhado, é o de que o conflito atual, iniciado com a ocupação da Palestina por Israel, se transforme realmente em guerra declarada entre os países capitalistas ocidentais, que se identificam como cristãos, e os muçulmanos. Quem definiu a agressão como cruzada foi Bush, ao afirmar que Deus o havia convocado a matar Saddam. E conforme o livro clássico de Essad Bey, todos os movimentos no Oriente Médio, entre eles a ocupação judaica da Palestina, se fazem na busca da posse de seu petróleo. No passado, o saqueio se fazia em nome da “civilização” e, hoje, se faz também em nome da “modernidade”.

No fundo do regozijo, há sementes de medo. Esse medo é muito mais poderoso do que foi o saudita, de 54 anos e, segundo informações não desmentidas, a um tempo amigo e sócio dos Bush nos negócios de petróleo.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

OS NAVIOS DA VALE E O FIM DA HISTÓRIA

A Vale recebeu este mês o VALE BRASIL, primeiro de sete super-navios encomendados ao estaleiro Daewoo Shipbuilding & Marine Engineering Co, da Coréia do Sul. Com 362 metros de comprimento e 65 metros de largura, a embarcação tem capacidade para 400 mil toneladas e é o maior do mundo em sua categoria. Dinheiro que poderia ficar aqui se a Vale tivesse decidido – a exemplo da Petrobras - construir grandes navios no Brasil, contribuindo decisivamente para a recuperação da indústria naval e a geração de empregos em solo brasileiro.

Pode-se alegar que as siderúrgicas da Coréia do Sul – e por extensão, seus estaleiros - são clientes da Vale na compra de minério de ferro. Mas com certeza não foi mandando construir seus navios no Brasil que os sul-coreanos se transformaram em um dos países mais industrializados do mundo ao longo dos últimos 25 anos. Os Tigres Asiáticos, começando pelo Japão, ainda no final do Século XIX, e assim como está acontecendo com a China hoje, só cresceram por causa da decisão política de estabelecer uma indissolúvel e permanente aliança estratégica entre governo e iniciativa privada de capital nacional, para a competente substituição de importações e a conquista de mercados externos, agregando continuamente valor aos seus produtos e exportações. Lá fora, essa é a regra. Aqui, quando o governo tenta fazer a mesma coisa, todo mundo cai de pau no “perigo de reestatização” e no “nacionalismo anacrônico”, como se algum grande país do mundo – como o próprio Japão, os Estados Unidos, a Alemanha, a China – tivesse chegado a algum lugar sem zelar por seus interesses e sem uma postura nacionalista clara por parte da sua população.

Só pode ser ingênuo – ou canalha - quem anuncia que o nacionalismo acabou em um mundo em que os países mais fortes se impõem aos mais fracos pela força das armas. Ou em que, como acontece na Europa, o nacionalismo é tão exacerbado que já se transformou em racismo – pergunte-se aos brasileiros que são rotineiramente revistados, humilhados e enviados de volta ao Brasil dos aeroportos espanhóis, por exemplo, – ou, ainda, no qual, como está acontecendo agora nos Estados Unidos, milhões de pessoas saem para as ruas carregando bandeiras e gritando USA ! USA ! USA ! para comemorar, como se fosse carnaval, a morte de um único homem. O nacionalismo não morreu, como não morreu a História. Ao contrário do que escreveu Francis Fukuyama depois da queda da União Soviética, essa velha senhora está vivíssima - e de vez em quando explode violentamente, como uma bofetada, na cara de quem defende a “pax americana”, a “governança global” e o fim das fronteiras - como aconteceu naquele fatídico 11 de setembro, quando o primeiro avião carregado de passageiros atingiu a Torre Sul do World Trade Center.

terça-feira, 3 de maio de 2011

OS USURPADORES

Em artigo publicado pela Folha de S. Paulo, o deputado estadual Campos Machado, se irrita com os fundadores do novo PSD, sob o argumento de que o seu partido, o PTB é herdeiro da sigla. O parlamentar paulista comete a mesma heresia que atribui a Kassab. Para começo de conversa, a distância entre o PTB de Roberto Jefferson (e de Campos Machado) e o PTB de Getúlio, Danton Coelho, João Goulart, Alberto Pasqualini e Santiago Dantas, é maior do que o espaço entre o nosso planeta e a constelação de Andrômeda. Outro erro do cavalheiro é atribuir a fundação do PSD a Getúlio. É certo que, sendo criado para contrapor-se à União Democrática Nacional, que reunia seus velhos adversários, o PSD era simpático a Getúlio, mas não foi idéia sua. A iniciativa partiu de Benedito Valadares, que encarregou o intelectual mineiro Mario Casasanta de redigir o primeiro rascunho de seus estatutos e programa. Conta-se que, ao confiar a tarefa a Casasanta, o ainda governador lhe pediu que pusesse alguma coisa de comunismo no partido, porque estava na moda. O comunismo estava na moda em razão do forte desempenho da União Soviética na Segunda Guerra Mundial. Casasanta deu-lhe então nome de “Social Democrático”, idéia associada ao marxismo desde o fim do século 19.

O PSD se associou ao PTB a partir da segunda metade do governo Dutra, mas de forma discreta. Sendo assim, apresentou seu candidato à sucessão do Marechal, contra o próprio Vargas e o candidato da UDN, pela segunda vez, o Brigadeiro Eduardo Gomes. O postulante do PSD foi o mineiro Christiano Machado, que se destacara na Revolução de 30. O povão, no entanto, votou maciçamente em Getúlio. Foi desse episódio que surgiu o verbo “cristianizar” no léxico político brasileiro. A aliança, para valer, entre os dois partidos foi uma operação de mineiros e gaúchos, para impedir a continuação do golpe da direita, insuflado pelos norte-americanos, que levara Getúlio ao suicídio. Como ocorrera em 30, os gaúchos e os mineiros se entenderam no dia 25 de agosto, em São Borja, logo depois do sepultamento de Vargas. Oswaldo Aranha, Tancredo e Jango começaram a conversar ainda na saída do cemitério, e concluíram que era necessária uma situação de fato. Todos sabiam que Vargas pretendia lançar a candidatura de Juscelino à sua própria sucessão, no pleito do ano seguinte, 1955. A razão política recomendava colocar o povo logo nas ruas, como uma forma de neutralizar os golpistas. Os trabalhadores e as classes médias urbanas teriam que se aliar, em nome do país, e eleger Juscelino contra os golpistas, associados ao capital estrangeiro. A aliança se formalizara com a candidatura de Juscelino, governador de Minas, e Jango, que representava o Rio Grande do Sul. Mais do que um acordo entre os partidos, tratava-se da aliança histórica entre mineiros e gaúchos, os dois povos mais politizados do Brasil.

Eleito em 3 de outubro de 1955, Juscelino enfrentou e venceu a tentativa golpista do presidente Carlos Luz, substituto de Café Filho, vice de Vargas, que deixara o cargo acometido de cardiopatia moral, acovardado no Palácio do Catete. O PSD que nasce em São Paulo nada tem a ver com o PSD mineiro, que teve seus últimos momentos de glória ao eleger, em 1965, Israel Pinheiro governador de Minas e o mineiro Francisco Negrão de Lima governador da Guanabara. Foi essa dupla vitória do PSD que levou a ditadura a impor o bipartidarismo, com a extinção dos velhos partidos e a criação da Arena e do MDB.

A sigla do PTB deveria ser de Brizola, o grande líder sobrevivente da agremiação fundada por Getúlio. Outros dela se apoderaram, o que levou o bravo gaúcho a fundar o PDT, a que se filiaria a presidente Dilma Roussef, antes de optar pelo PT.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O DESTINO DO OCIDENTE

Há mais de cem anos alguns observadores vêm anunciando o declínio do Ocidente, essa idéia fundada na razão grega, que investigava os fenômenos físicos e as inquietações da alma, sob o exercício da liberdade. Mas a liberdade estava limitada pelas restrições sociais e econômicas. Ao admitir o instituto da escravidão, e discriminar as mulheres, os gregos a reduziam. É certo que muitos dos atenienses combatiam as ações práticas que embaçavam o ideal do humanismo. Isso não impediu que crimes brutais fossem cometidos, durante a Guerra do Peloponeso. A repressão aos habitantes de Melo, bem documentada por Tucidides, mostra que o Ocidente trazia, desde a origem, os sinais de suas contradições. Os argumentos dos enviados de Atenas à pequena ilha, a fim de subjugá-la pelo engodo, e, em seguida, pela ameaça, antes das armas, servem de modelo histórico ao comportamento das nações mais poderosas da História. Os mesmos atenienses que mataram todos os homens de Melo, e escravizaram suas mulheres e suas crianças, seriam derrotados, primeiro pelos macedônios e, em seguida pelos romanos. O arquipélago perdeu sua autonomia política e se transformou em colônia, que trocou sucessivamente de mãos, até se submeter a um monarca estrangeiro, já no século 19. A orgulhosa república, que trouxera à História o conceito de democracia, só se reencontraria no século 20, com a 2ª. Guerra Mundial.

Os valores do Ocidente, vindos da Grécia Antiga, que ocuparam, mal ou bem, toda a Europa, e encontraram seu momento mais alto nas revoluções intelectuais e políticas dos séculos 17 e 18, foram violados pela ocupação colonial. Em 1884, na Conferência de Berlim, com a demarcação da África em áreas de domínio, o saqueio se reafirmou como direito internacional dos brancos. Os mesmos argumentos – o de que algumas nações não conseguem governar-se por si mesmas, e violam os “direitos humanos”, tal como os concebem os mais bem armados – retornam, de vez em quando. Como ocorre agora, para justificar a guerra, que já se iniciou, contra os países árabes. Depois do Iraque, do Afeganistão, da Líbia, que estão sendo arrasados, prepara-se a invasão da Síria. E Israel repete o discurso dos atenienses a Melo, ao reagir contra o entendimento entre as duas organizações da resistência palestina.

O medo assusta o governo submisso do Marrocos, que ocupa o território dos saarauis e atribui, em segunda versão, a explosão de cilindros de gás em Marrakech a uma ação “terrorista”. É mais fácil entender a tragédia de ontem como negligência dos proprietários, que não foram capazes de armazenar os cilindros de gás longe da chama dos fogões.

As revelações do Wikileaks sobre Guantánamo exibem as chagas repulsivas desse perempto Ocidente. E não faltam advertências, dos próprios norte-americanos, de que sua orgulhosa civilização está sendo estiolada pelo egoísmo e pela ganância. Por mais que pretendam dissimular, o medo, esse sócio do desatino, domina os governantes do norte. A revogação, na prática, do Tratado de Schengen, condena a Europa a desmantelar sua unidade continental. A Europa teme ser ocupada pelos “bárbaros”, da mesma forma que ocorreu com o espaço romano. Os governos europeus, sob a influência dos Estados Unidos, da França e da Inglaterra, renunciaram aos poucos princípios que restavam do humanismo do Ocidente. Hoje, quem conduz a história não são os intelectuais gregos que, com sua espantosa descoberta da lógica, entenderam que a sobrevivência do homem estava na busca do bem comum. São os banqueiros – em todo o mundo. Isso pode apressar o cumprimento da conhecida tese de Toynbee sobre a aliança entre o proletariado interno e o proletariado externo, em inevitável processo revolucionário contra os opressores.