domingo, 13 de maio de 2012

O RETORNO AO ESTADO


(JB) - O governo conservador da Espanha foi obrigado a estatizar a Bankia, uma das instituições dedicadas ao financiamento imobiliário, a fim de evitar o desmoronamento geral do sistema. Não foi uma escolha, mas a única saída a fim de buscar solução para uma crise que levará ao caos, se não houver medidas paralelas e urgentes. O povo já se prepara para voltar à Praça do Sol e suas adjacências.

Na Inglaterra, em uma manifestação inesperada, 30.000 policiais se somam aos demais empregados públicos em greve. É uma advertência severa. Na Grécia se tenta coligação de centro-direita com o desmoralizado Pasok, dos que se diziam socialistas e se curvaram às exigências “austeras” de Berlim. Não se espera que a tentativa de formação desse governo à direita seja bem sucedida.

A França aguarda o que fará Hollande, uma vez que ele caiu na esparrela de aceitar a convocação de Ângela Merkel para visitar Berlim, logo depois de empossado. A chanceler alemã não titubeia. “Garante” ao mercado financeiro internacional, em nome de não sabemos bem o que, que a Europa cumprirá as medidas de restrição fiscal a que chegaram ela, Sarkozy e esse arremedo de primeiro ministro britânico, David Cameron. A arrogante senhora fala, provavelmente, em nome dos grandes bancos, que controlam as finanças mundiais, e entre os quais se destaca o Goldman Sachs.

A crise européia é uma crise dos estados: ao tentar criar um super-estado confederado, com soberania sobre os povos nacionais, os líderes europeus acabaram com as instituições históricas e não puderam substituí-las por outras mais eficazes. O caso do Banco Central Europeu é nisso clássico. Os bancos centrais nacionais, por mais se arrogassem independência, estavam sujeitos ao controle político dos governos, sob a pressão dos parlamentos e da cidadania. Vale a pena lembrar um editorial de Le Monde, de há alguns meses, sobre o tema. Diz o grande jornal:

Historicamente, a primazia do político, isto é, sua capacidade de “enquadrar” os interesses financeiros, teve como instrumento essencial os bancos centrais. Não se pode perder de vista esta realidade: é por intermédio do poder monetário que é possível fazer prevalecer o interesse coletivo. Isso supõe que o Banco Central esteja colocado sob a autoridade do poder político. É o que se observa nas grandes democracias. Apesar dessa arquitetura, que se mostrou efetiva, ela não foi adotada pela zona do euro. Um Banco Central Europeu, separado da política, é uma péssima coisa. É, em si mesma, a expressão de uma crise muito profunda da democracia européia, de sua impotência congênita”.

Convém relembrar que a mais inteligente e mais antiga das instituições humanas, o Estado, vem sendo erodido por dentro e por fora, há mais de trinta anos, a partir da deregulation de Reagan e de Mme Thatcher. Na mesma medida em que o Estado se encolhia, e as grandes corporações financeiras cresciam, os trabalhadores passaram a ser coisas descartáveis.

A razão de ser das empresas deixou de ser a criação de empregos e a inovação em produtos e serviços. Submetidas ao assalto de predadores, passaram a ser dirigidas por administradores alugados pelos grandes bancos comerciais, autorizados a atuar como bancos de investimentos. A “reengenharia” dessas empresas, umas menores e outras gigantescas, se limitou a demitir, demitir, demitir. No auge da privatização e da globalização, alguém decretou que os incapazes de seguir o novo ritmo deviam contentar-se em tornar-se meros servidores domésticos dos vencedores.Voltando ao editorial de Le Monde: a moeda vinha sendo despolitizada, entregue à ilegítima soberania do mercado financeiro.

Era isso o que ocorria em nosso país, e que começa a ser diferente agora. Ao atuar lateralmente, determinando aos grandes bancos oficiais a redução do spread, a presidente Dilma Rousseff está recuperando para a chefia do Estado a autoridade sobre o Banco Central e colocando a moeda, como se deve, sob o controle político da sociedade que a elegeu. Mas há mais coisas que o Estado deve fazer na economia, e no cumprimento de seu dever de exercer a justiça.

Nisso, temos uma boa notícia, com a prisão do comandante da operação policial responsável pelo massacre dos trabalhadores sem-terra em Eldorado dos Carajás, o coronel Marcos Colares Pantoja. Não obstante essa prisão – que se faz diante do imenso clamor nacional contra a chacina, ocorrida há 16 anos – continua a violência no campo. O Estado não consegue cumprir nem mesmo o Estatuto da Terra, aprovado durante o regime militar.

Os grandes êxitos do governo, nos últimos dez anos, não podem ocultar os problemas que crescem, ao crescerem as expectativas, internas e externas, sobre o nosso futuro imediato. Temos que sujeitar o nosso entusiasmo a algumas reflexões sobre a situação atual, e continuar colocando na expansão da produção e do consumo interno os nossos esforços maiores. Só podemos, na realidade, contar com o próprio povo. Com sua inteligência, seu trabalho, seu amor ao país.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

HOLLANDE E O ESPERADO NÃO DE BERLIM


(JB) - A senhora Ângela Merkel, tenha disso consciência ou não, age de acordo com a velha arrogância prussiana, ao convidar François Hollande a visitar Berlim, no próximo dia 16 – logo depois de empossado. Foi quase uma convocação. Ela deixou claro, ao cumprimentar o novo presidente, que podem falar de tudo, menos do essencial: da “austeridade” orçamentária. Austeridade, na visão germânica da política européia, significa seguir o caminho percorrido até agora, com os bancos recebendo bilhões e bilhões de euros, emitidos sem lastro, e os usando para as especulações de seu interesse e para encalacrar ainda mais os países meridionais. Os bancos receberam o dinheiro do Banco Central Europeu a 1% ao ano e os repassam, ao estados em crise a juros de 6 a 9% ao ano. Um “spread” escorchante.

Se François Hollande, fatigado pela campanha e pelos festejos da vitória, não estivesse desatento, poderia ter sugerido que o encontro se fizesse em Bruxelas, sede da União Européia, e não em Berlim. Se ela pretende discutir o desenvolvimento econômico continental, o lugar do encontro não poderia ser outro que não Bruxelas, a menos que ela, em gesto de boa diplomacia, houvesse proposto visitar Paris.

A senhora Merkel faz lembrar um de seus antecessores na Chancelaria do Reich, que convocou a Munique os primeiros ministros da França (Daladier), da Itália (Mussolini) e da Inglaterra (Chamberlain) a fim de lhes impor sua vontade, a de apoderar-se de grande parte do território tchecoslovaco. O fantasma de Hitler está sob o portal de Brandenburgo.

Hollande só conseguirá reaver-se do descuidado “oui”, que deve ter soado aos ouvidos de Ângela Merkel como um obediente “jawohl!”, se - diante da imposição alemã - se mantiver firme, em seu propósito de aliviar os sacrifícios impostos aos trabalhadores europeus, com a chamada “austeridade”. A Europa será devolvida aos seus cidadãos, ou continuará dirigida e saqueada pelos banqueiros do Goldman Sachs e associados menores, que hoje exercem o poder de fato no continente, e disso retiram seu proveito.

Para os observadores desinformados e irônicos, o encontro – antes mesmo que Hollande se sinta em seu gabinete presidencial - poderá ser entendido como uma audiência para o recebimento de normas e instruções.

Atenas pode não ter a importância – e não tem – de Paris, mas é um símbolo do poder e da razão política bem mais antigo.

A derrota da coligação que se encontrava no governo (só se obtiveram as cadeiras no parlamento, pela legislação que lhe assegurou 50 vagas a mais do que os escrutínios), e a vitória da esquerda, eram esperadas. Não se contava com a atrevida emersão do partido neonazista, sob o nome inocente de “Aurora Dourada” e a suástica, redesenhada, como seu símbolo. Começou bem, já com tropa de assalto formada, exigindo dos jornalistas que se levantassem para receber o líder, e expulsando da sala os que se recusaram ao “gesto de respeito” para com o novo palhaço, louco e racista. Seu primeiro projeto é o de minar as fronteiras gregas, a fim de impedir a entrada de estrangeiros.

Uma vez que a coligação que se encontrava no poder não conseguiu formar o novo governo, caberá à esquerda faze-lo, e nas próximas 48 horas. Espera-se que as lições européias dos anos 30 inspirem os democratas gregos, e que eles estabeleçam uma aliança de centro, capaz de vencer as pressões externas com habilidade, e reendereçar a economia do país mediante o fortalecimento do Estado e uma política de desenvolvimento social em busca do pleno emprego.

Hollande lembrou o new deal de Roosevelt em sua campanha. Foi bom que o fizesse. Há oito décadas, em 1932, diante de uma recessão que alguns consideram menor do que a de hoje, o Estado foi compelido, à esquerda e à direita, a intervir diretamente na economia. Na Alemanha, a resposta foi a do nazismo, com a eleição de Hitler; na Itália, a do Instituto de Reconstrução Industrial - criado por Alberto Beneduce - que interveio fortemente nas atividades produtivas, política mantida depois da vitória aliada, até o neoliberalismo dos anos 80 e 90, que jogou a Europa na crise atual.

Roosevelt conseguiu impor o seu programa de recuperação industrial, ao encoleirar os banqueiros e intervir, sem vacilação, em todos os aspectos da economia e da cultura de seu país, levando-o à vitória na Segunda Guerra Mundial, que se celebra exatamente hoje. Hollande tem razão: projeto semelhante ao de Roosevelt pode salvar a Europa.

É preciso impedir que o atrevimento do novo nazismo atinja, de igual forma, a Itália, a Espanha e a Alemanha – como o de Hitler nos anos 30. A França de Hollande deve resistir ao Diktat alemão, o que a França de Pétain não foi capaz de fazer diante de Hitler.


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http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/05/08/o-esperado-nao-de-hollande-a-berlim/

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=6&id_noticia=182806

http://www.conversaafiada.com.br/economia/2012/05/08/santayana-hollande-deve-dizer-nao-a-merkel/

http://contextolivre.blogspot.com.br/2012/05/o-esperado-nao-de-hollande-berlim.html

http://www.kaosenlared.net/america-latina/al/brasil/item/17691-n%C3%A3o-a-berlim.html?tmpl=component&print=1

http://contrapontopig.blogspot.com.br/2012/05/contraponto-8117-santayana-hollande.html

http://www.aepet.org.br/site/colunas/pagina/238/O-esperado-no-de-Hollande-a-Berlim-

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http://www.planetabarueri.com.br/barueri/index.php?/blogs/santayana-hollande-deve-dizer-nao-a-merkel.html

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http://democraciapolitica.blogspot.com.br/2012/05/santayana-hollande-deve-dizer-nao.html

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http://www.jornalvanguarda.com.br/v2/index.php?pagina=noticias&id=10794

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http://www.cartapolis.com.br/geral/layout.php?subaction=showfull&id=1336659870&archive=&start_from=&ucat=4&

http://www.kaosenlared.net/component/k2/item/17691-n%C3%A3o-a-berlim.html

http://www.noticiaria.com.br/item/id/3699/date/2012-05-09/title/santayana-hollande-deve-dizer-nao-a-merkel

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http://brasilsoberanoelivre.blogspot.com.br/2012/05/o-esperado-nao-de-hollande-berlim.html

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http://hhenkels.blogspot.com.br/2012/05/esses-prussios.html

http://www.torres-rs.tv/site/pags/nacional_politica2.php?id=2131%22

http://pt.scribd.com/doc/92988949/O-ESPERADO-NAO-DE-HOLLANDE-A-BERLIM-NEOLIBERAL-DE-MERKEL

http://carcara-ivab.blogspot.com.br/2012/05/hollande-e-batalha-contra-berlim.html

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terça-feira, 8 de maio de 2012

OS JUROS ENCABRESTADOS


(Carta Maior) - Não há melhor definição da importância e da perversão dos bancos do que a de um comitê de intelectuais – entre eles editores de jornais – que se reuniu em março de 1829, na cidade de Filadélfia. Depois de uma semana de discussão, o comitê redigiu sua conclusão sobre o sistema financeiro, por unanimidade. O sumo do documento foi publicado por The Free Advocate em sua edição semanal de 9 a 16 de maio do mesmo ano:

“Que os bancos sejam úteis como instituições de depósito e transferências, nós podemos admitir prontamente, mas não podemos concordar que esses benefícios sejam tão grandes como para compensar os males que produzem, ao criar artificial desigualdade de riquezas e, dessa forma, artificial desigualdade de poder. Se o atual sistema bancário e de papel moeda ampliar-se e perpetuar-se, os trabalhadores devem abandonar todas as esperanças de adquirir qualquer propriedade”.

Do Comitê participavam dois economistas destacados e editores de jornais, William Gouge, da Philadelphia Gazette, e Condy Raguet, do Free Trade Advocate; William Dune, velho jornalista jefersoniano; o filantropo Robert Vaux, Ruben Whitney, ex-diretor do Banco e os líderes sindicais William English e James Ronaldson. O encontro foi registrado por Arthur M. Schlesinger, Jr. em seu estudo clássico sobre o período, “The Age of Jackson”, publicado em 1945.

O formato atual do sistema se iniciou durante o mercantilismo europeu, com o surgimento de agentes financeiros, que emitiam notas de câmbio descontadas por seus correspondentes nas principais praças comerciais do continente, e se desenvolveu a partir do Renascimento, com as casas bancárias de Veneza e Florença, no Sul, e de Hamburgo e Amsterdã, no Norte.

O acúmulo de recursos lhes permitiu envolver-se com a política, no financiamento dos estados nacionais, como ocorreu na Guerra dos Cem Anos, quando banqueiros florentinos, os Bardi e os Peruzzi, emprestaram um milhão e duzentos mil florins de ouro a Eduardo III, a fim de custear o início do conflito, no século 14.

Os Fugger da Alemanha, os maiores capitalistas do século seguinte, foram banqueiros dos papas, encarregando-se de recolher e administrar o dinheiro das indulgências vendidas pelo Vaticano e dos impostos cobrados pelos estados pontifícios.

O libelo dos cidadãos de Filadélfia continua atual. Os bancos não só patrocinam a desigualdade social, ao destinar os recursos dos estados e do povo aos próprios negócios, e no financiamento aos milionários, mas também os utilizam para eleger seus delegados aos parlamentos e, assim, frequentemente corromper e controlar o poder político. Assim, os governantes atuam em sua defesa, como ocorreu em nosso país com o Proer e a entrega de bancos nacionais aos estrangeiros por preços simbólicos, como ocorreu na “venda” do Bamerindus, do Banespa e de outras instituições. O Santander é um exemplo: seu último balanço exibe resultados superiores a duas vezes os seus ativos no país.

Na Europa, como sabemos, os governos emitiram um trilhão de euros e os entregaram ao BCE, para recuperar a economia continental. Em lugar de fazê-lo, a instituição os repassa aos bancos privados a juros de 1% ao ano, a fim de que estes emprestem aos estados em dificuldades - mas a taxas de 6 a 8,5% ao ano. Para honrar esses juros, os governos cortam na saúde, na educação, nos investimentos produtivos, levando o desemprego ao paroxismo, e multiplicando a miséria, como está ocorrendo na Espanha, na Grécia e em Portugal.

No Brasil, a audácia dos banqueiros privados vai além de toda a cautela. Os juros cobrados dos mais pobres – os que são compelidos a valer-se dos empréstimos de curto prazo, mediante o cheque especial, e do refinanciamento das faturas dos cartões de crédito – são infernais: 238% ao ano, no caso dos cartões, e de 185% nos cheques especiais.

Para que tenhamos uma idéia do assalto: na Grã Bretanha, com as dificuldades conhecidas, os juros sobre as faturas não saldadas dos cartões de crédito não ultrapassam 30% ao ano, ou seja, são de cerca de 1/8 das taxas cobradas em nosso país.

A presidente teve a coragem de enfrentar a bancada da Febraban e os famosos analistas econômicos dos grandes jornais, tão interessados em defender as corporações financeiras, e tão pouco empenhados em defender o desenvolvimento econômico do país. Suas providências técnicas, como a da redução dos juros pagos às cadernetas de poupança – em proporção insignificante, mas suficiente para empurrar as taxas de remuneração das aplicações financeiras para baixo, não prejudicam os clientes dos bancos, mas impõem uma sensível redução do spread. Enfim, encabresta os agiotas, tão danosos ao país.


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http://www.jornaldodiase.com.br/viz_conteudo_opiniao.asp?codigo=9520121164097445

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http://www.isebvmf.com.br/index.php?r=noticias/view&id=237339

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domingo, 6 de maio de 2012

A VITÓRIA DE HOLLANDE E AS ELEIÇÕES DE JUNHO


(Blog)- A derrota de Sarkozy não deve ser vista como uma vitória da esquerda, ainda que seja um êxito de François Hollande. A estreita margem de maioria dos votos, poluída pela contribuição de 49% dos sufrágios da Frente Nacional, não confere ao novo presidente tranqüilidade para chefiar o Estado. Ele terá que atuar com habilidade e força de ânimo, a fim de garantir a maioria da Assembléia Nacional, nas próximas eleições legislativas nos dois turnos, de 10 e 17 de junho deste ano. Este será um mês crucial, na busca de maioria de esquerda, capaz de permitir uma coabitação harmônica entre o presidente e o futuro primeiro ministro.

De qualquer forma, cabe ao presidente a gestão política do Estado, em suas linhas maiores, entre elas as da política externa, que a prudência sempre rege, e não se esperam rupturas abruptas. As guerras, como a paz, são de gestação lenta, porque ambas acarretam conseqüências históricas fortes. Muitas alianças internacionais, identificadas como de paz ativa, correspondem ao armistício, à perigosa cessão de parcelas de soberania.

A referência expressa de Hollande à Alemanha, e a pronta manifestação de congratulações de Ângela Merkel ao líder socialista, confirmam o dissídio entre as duas nações mais fortes da União Européia. Entendem ambos que devem encontrar um ponto de entendimento. Se faz falta esse ponto de entendimento, é porque Berlim compreende que alguma coisa vai mudar no Eliseu.

Com Sarkozy era fácil: apesar de dificuldades pontuais, os dois líderes se entendiam no conservadorismo comum, na defesa da chamada austeridade – sobre o lombo dos trabalhadores – e na proteção aos grandes banqueiros internacionais. Isso sem falar que o meridiano de Tel-Avive faz sua curva no espaço, a fim de passar, ao mesmo tempo, pela Unter den Linden e pela Avenue des Champs Elisées.

É provável que, ainda sob a mauvaise conscience do antissemitismo histórico da França, agravado pela ocupação nazista, Hollande mantenha a retórica de defesa de Israel, mas sem o empenho de Sarkozy contra os muçulmanos e, sobretudo, contra os palestinos.

Com todas as preocupações, diante do futuro próximo, alguma coisa se move em Paris e em Berlim, além das árvores de suas duas grandes avenidas. Se o vento será tão forte para derrubar a ordem neoliberal vigente, não sabemos.


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sexta-feira, 4 de maio de 2012

O JULGAMENTO POLÍTICO COMO LEGÍTIMA DEFESA


(JB)- Coube a Robespierre definir o julgamento político como legítima defesa das sociedades nacionais. Ao defender o julgamento de Luís 16, que condenaria o rei à morte, e lhe dar toda a legitimidade, o líder revolucionário explicou que o poder legislativo, a Convenção Nacional, não atuava como um tribunal comum. Atuava como um corpo político da nação. Se o rei fosse inocente, culpados seriam os 387 deputados que haviam votado pela morte do soberano. Como constituíssem a maioria dos delegados do povo, culpada seria a nação francesa. Sendo um julgamento político, a sentença condenatória era um ato de defesa da pátria contra aquele que ela identificara como inimigo.

Ao defender antes de se iniciar o julgamento, a atuação dos convencionais, disse: “não se trata de um processo, mas medida de segurança pública, ato de providência nacional a ser exercido. Luis deve morrer, para que a pátria viva”.

A Revolução Francesa foi um dos momentos mais fortes do homem. Nele houve de tudo, na grandeza e na traição, na força demolidora e construtora das idéias, no avanço republicano da liberdade, com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão – e na contra-revolução termidoriana, no surgimento de Napoleão, na Santa Aliança, na derrota de Waterloo, na restauração monárquica.

A direita sempre a desdenha. Em 1934, pouco antes que Hitler o matasse, a fim de eliminar um provável inimigo, Ernst Roehm diria que a nova ordem do nazismo iria eliminar os efeitos da Revolução Francesa na História.

As grandes revoluções iludem os que dela são contemporâneos. Elas só são avaliadas muito depois. Uma tese histórica coerente é a de que estamos sempre em uma revolução, com momentos mais agudos e menos agudos e eventuais pausas de pasmaceira. Nem todos nos damos conta de que vivemos, nestes dias, no Brasil e no mundo, uma situação revolucionária, mas desprovida de grandes líderes. Os estados nacionais minguam. O poder financeiro, astuto, passou a dirigi-los, mediante o controle dos parlamentos – mas como foi com muita sede ao pote, encontrou a resistência, ainda desorganizada, dos cidadãos. É nesse quadro que, no Brasil, se iniciam os trabalhos da CPI destinada a desemaranhar a teia enovelada do governo paralelo do empresário Carlos Cachoeira.

O Parlamento se encontra em situação parecida à da Convenção Nacional nos últimos meses de 1792. Para que a Revolução se salvasse, em seus efeitos históricos, era necessário que o rei morresse. Para que a República se salve e, com ela, o povo brasileiro, é necessário que a CPI vá às últimas conseqüências. A nação está clamando por uma devassa, não para que se erga, em alguma praça, a máquina do doutor Guillotin. Ao contrário do que muitos pensam, não é preciso que o sangue lave a honra das nações. Mas os ladrões do Erário, que roubam dos que trabalham e produzem, devem ser conhecidos e levados aos tribunais. Não se trata de conflito ideológico, mas de ato de legítima defesa nacional. Os que roubam, ao subtrair os bens comuns, contribuem para que o estado republicano desmorone e, com ele, a nação. Desmorone nos hospitais precários, que não salvam vidas e, frequentemente, apressam a morte; desmorone nas escolas públicas em que as crianças não aprendem, mas se expõem aos perigos, que vão das humilhações à tortura, cometidas pelos fortes contra os fracos, quando não aos massacres; desmorone nos serviços de segurança, dos quais surgem esquadrões da morte e milicianos quadrilheiros.

Nesta visão, correta e ampla, dos efeitos da corrupção, os corruptos não são apenas larápios: são, da mesma forma, bandidos e assassinos. Uma coisa é o financiamento de campanhas políticas pelos empresários, outra o enriquecimento de agentes públicos, mediante as promíscuas relações, nas quais se superfaturam obras públicas e serviços, para a divisão do butim entre os parceiros. O que todos os cidadãos conscientes exigem é o financiamento público das campanhas, a fim de evitar essa poluição do sistema democrático.

O rigor nas investigações, atinja a quem atingir, é ato de legítima defesa do sistema republicano e, particularmente, do poder legislativo. Há, crescente, na opinião pública – a partir das informações que recebe - o equivocado juízo de que os senadores e deputados são inúteis. Se essa CPI se frustrar, os cidadãos podem supor que os parlamentares não são apenas inúteis, mas também complacentes com os seus pares aquadrilhados, como os representantes de Goiás fisgados pela língua, entre eles esse comediante menor, o senador Demóstenes Torres, que fez, durante tanto tempo, o papel de Catão.

Devemos entender que a maioria parlamentar não é feita de bandoleiros, embora possa ter sua parcela de incompetentes. Espera-se que, na CPI, os homens de bem sejam tão ousados como costumam ser os canalhas - e os vencer - para lembrar a constatação de Disraeli sobre a Inglaterra de seu tempo. Hoje, provavelmente, o grande conservador não teria o mesmo juízo dos homens de bem ingleses, acoelhados diante do atrevimento dos camerons e blaires contemporâneos.


quarta-feira, 2 de maio de 2012

O TRABALHO E OS POBRES QUE FAZEM A HISTÓRIA



(JB) - Até recentemente os historiadores desdenhavam os pobres. A crônica do passado se fazia em torno de reis efeminados, alguns; corajosos, outros; e efeminados e corajosos, poucos deles, como Ricardo Coração de Leão. Fazia-se também de santos, mas os santos da Igreja, em sua maioria, foram recrutados entre os membros da classe dominante na Idade Média, ainda que renunciassem à riqueza, como Francisco de Assis, ou se fizessem mártires nas guerras que, de santas nada tinham, como as cruzadas. Os santos modernos, com raras exceções, são militantes políticos contra os pobres, como o fundador da Opus dei. E, é claro, os intelectuais, cientistas e artistas sempre estiveram na comissão de frente do desfile da assim chamada civilização.

Hoje cresce entre os acadêmicos a preocupação com a História vista “de baixo”, embora a razão recomende não estabelecer o que seja alto ou baixo na construção do homem. É bom olhar o trabalho dos pobres, e sua luta por justiça, como o sumo da História. Não foram os faraós que construíram as pirâmides, mas, sim, os escravos; as grandes cidades modernas podem ter sido imaginadas pelos arquitetos geniais, mas não sairiam das pranchetas sem as mãos ásperas dos pedreiros, armadores e carpinteiros. O mundo virtual, abstrato, dos pensadores, pode prescindir do trabalho pesado, mas a doma da natureza, com a agricultura e o pastoreio, e sua transformação em objetos tangíveis, são conquistas do trabalho penoso.

Dos trabalhadores que hoje estão comemorando o primeiro de maio, poucos sabem exatamente como surgiu essa tradição. Ela se deve a uma das primeiras greves organizadas nos Estados Unidos, em 1886. No dia 3 de maio, em greve havia algum tempo, os trabalhadores de uma indústria de máquinas colheitadeiras, a McCormick Harvesting Machine Company, formaram piquetes diante dos portões da fábrica e foram dissolvidos por fura-greves e policiais, com a morte de vários operários e a prisão de dezenas. Como protesto, eles se reuniram no dia seguinte, na praça do Heymarket, no centro da cidade.

Entre outras reivindicações, os grevistas exigiam a fixação da jornada do trabalho em oito horas diárias. Os patrões, como fazem até hoje, organizaram pelotões de fura-greves, garantidos e protegidos pela polícia. Houve o conflito, com os grevistas se defendendo como podiam, e uma bomba explodiu, matando sete policiais. A polícia atirou, matou muitos trabalhadores e buscou suspeitos. Um líder dos trabalhadores, August Spies, embora provasse não estar no local, foi, com três outros, também vistos como inocentes, condenados à forca, e executados em 11 de novembro do ano seguinte. Um dos presos matou-se. Os três que conseguiram escapar do cadafalso foram perdoados, em 1893, pelo governador de Illinois, John P. Altgeld. O movimento sindical, que existia, de forma dispersa e débil, desde a presidência de Andrew Jackson, tomou corpo, a partir do episódio, com a reorganização da American Federation of Labor.

O século 20 começou com a criação de sindicatos de trabalhadores, com mais vigor nos Estados Unidos e na Inglaterra (com o incentivo do conservador Disraeli), e na Alemanha. Foram as lutas dos trabalhadores que moderaram, um pouco, a avidez dos capitalistas liberais. Essas lutas se iniciaram em 1848, tiveram impulso com a Comuna de Paris, em 1871, e tiveram a sua grande data no massacre do Haymarket e suas conseqüências, em 1886.

Na luta contra a Depressão dos anos 30, os países ocidentais (na União Soviética a situação era outra) procuraram incentivar o sindicalismo e contar com seu apoio. Hitler decretou, no dia 1º de maio de 1933, que a data seria festejada sob o nazismo como o Dia do Trabalho. No dia seguinte, fechou todos os sindicatos, prendeu seus líderes e iniciou a perseguição aos socialistas e comunistas. Nos Estados Unidos e no Canadá, a fim de desvincular a comemoração do massacre de maio, a data escolhida foi a da primeira segunda feira de setembro.

O movimento sindical, para ser autêntico, não deve atrelar-se aos governos, ainda que, na defesa do interesse dos trabalhadores, possa apoiar essa ou aquela medida dos estados nacionais. Foi a luta dos trabalhadores ingleses que criou o Labour Party na Inglaterra, em 1906, e conseguiu as reformas legais que permitiram o grande desenvolvimento econômico e político da Grã Bretanha, e a levaram ao grande desempenho bélico na Primeira e na Segunda Guerra Mundial.

Os historiadores começam a deixar os papéis dos gabinetes oficiais e as alcovas da nobreza, a fim de encontrar os verdadeiros agentes da civilização, no que ela tem de melhor, no estudo da vida e da resistência dos pobres contra a opressão. É hora de que se faça o mesmo em nosso país. É mais importante estudar a resistência dos brancos miseráveis do Brasil Colônia, que valiam menos do que os escravos, posto que os últimos, como bens de produção, tinham valor de mercado, e dos próprios cativos, do que imaginar como eram os encontros galantes de Pedro I com a Marquesa de Santos. Foi o suor dos desprezados que deu liga à argamassa de nossa nação – e de todas as outras nações.

terça-feira, 1 de maio de 2012

OS BANCOS, A DESIGUALDADE E O OCASO DA VELHA EUROPA


Pode ser um bom sinal: chamado às falas pelo Parlamento Europeu e pela Comissão Européia, o fiel funcionário do Banco Goldman Sachs, que preside ao Banco Central Europeu, Mário Draghi, gaguejou. Não pôde explicar aonde foram parar o trilhão de euros que os países centrais da Europa emitiram e entregaram ao BCE, a fim de recuperar a economia do bloco. De acordo com Michel Barnier, Comissário da União Européia encarregado do mercado interno do grupo, que inclui os serviços financeiros, e de Durão Barroso, o presidente da Comissão Européia, os bancos beneficiados com os recursos, repassados pelo BCE a juros inferiores a 1%, não os usaram no estímulo à economia. Ao contrário, continuaram emprestando aos estados em dificuldades, a juros que vão de 6 a 10%. Quanto mais dificuldades enfrentam, mais altos são os juros, em uma espiral de arrocho, desemprego e miséria de seus povos.

Mesmo com os imensos recursos de caixa, os bancos privados – encabeçados pelo famigerado Goldman Sachs – reduziram seus financiamentos às empresas em 30% e os empréstimos aos correntistas privados em 43%. As condições para a concessão de créditos à economia real se tornaram ainda mais duras. E os empréstimos aos Estados se fazem sob exigências draconianas.

O Banco Central Europeu não pode emprestar diretamente aos Estados. Como todos os bancos centrais, eles são servidores dos banqueiros, e, de modo geral, operam com autonomia.

Os bancos, na confidência de um banqueiro europeu anônimo, usam os empréstimos do BCE para refinanciar seus balanços, e soltam o dinheiro a filete de água para o financiamento da produção, do comércio e dos serviços. Esse procedimento faz com que a Europa siga o desastre americano e inglês, que se iniciou em 1980, com Madame Thatcher e Reagan. Nestes últimos trinta anos, nos Estados Unidos, o famoso um por cento dos americanos mais ricos viram sua renda multiplicar 300 vezes. Os americanos mais pobres tiveram um aumento de 40% em seus rendimentos, mas em conseqüência da participação intensiva das mulheres no trabalho. Essa participação, exigida pela crescente dificuldade dos lares, fez com que houvesse uma melhoria na renda familiar. Sem isso, só com o trabalho dos homens, não teria havido nenhuma melhoria.

A economia moderna – na avaliação de John Plender, um dos mais lúcidos analistas do Financial Times – parece ter duas pistas: uma de altíssima velocidade para os ricos, e outra, vagarosa, para os pobres. Segundo o próprio Financial Times, em matéria de janeiro deste ano, os conselhos de administração das grandes empresas, notadamente as do setor financeiro, têm fixado a remuneração de seus presidentes-diretores gerais em 400 vezes o salário de seus empregados de base. Há três décadas, essa diferença, já extremamente injusta, era de 40 vezes.

O sistema financeiro se tornou incontrolável, nos quadros legais de hoje, na medida em que se tornou grosseiramente obeso, na observação do mesmo jornal britânico.

Os estados nacionais abdicaram do senhorio da moeda, em favor do BCE (leia-se, do Goldman Sachs) mediante o Mecanismo Europeu de Estabilização. Os gestores desse “Mecanismo”, entre outros absurdos, não podem ser processados pela justiça. São invioláveis e impunes, cometam as irregularidades que possam cometer. Por essas razões, começa a crescer, nos meios políticos europeus, a idéia de que é preciso estatizar logo os bancos, antes que a impaciência popular leve a soluções radicais, mediante a articulação revolucionária, ou a ascensão da extrema-direita, que tampouco ama os banqueiros.

O controle mais efetivo da moeda pelos Estados, e sua intervenção direta no processo econômico são o caminho natural para impedir o fim do sistema democrático, ao reduzir a brutal desigualdade entre ricos e pobres e entre países marginalizados pela pobreza e as economias mais desenvolvidas.

Mário Draghi reconheceu que os bancos não atuam como seria de esperar. E prometeu dar explicações mais detalhadas das providências que pretende tomar. Vamos ver o que dirá o fiel servidor do Goldman Sachs.

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http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=182207&id_secao=2

http://contextolivre.blogspot.com.br/2012/04/os-bancos-desigualdade-e-o-ocaso-da.html

http://httpvaldecybeserrablogspotcom.dihitt.com.br/noticia/os-bancos-a-desigualdade-e-o-ocaso-da-velha-europa

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