domingo, 10 de fevereiro de 2013

COMO SE MATAM OS POETAS


A justiça chilena determinou a exumação dos restos mortais do cidadão chileno Neftaly Ricardo Reyes, o poeta Pablo Neruda. Suspeita-se que Neruda tenha sido envenenado pelos esbirros de Pinochet, dias depois da morte de Allende, no golpe de 11 de setembro de 1973 – há quase 40 anos. Neruda, que se preparava para asilar-se no México - em uma concessão dos golpistas, sob pressão internacional - foi internado em uma clínica, com uma crise prostática. Ali, segundo denúncia de seu motorista, recebeu a falsa medicação que o matou.
                Os poetas – e poucos que redigem poemas conseguem ser realmente poetas – pertencem a outra espécie de seres humanos. Encontram-se na vanguarda das emoções e dos sentimentos. Isso leva a maioria deles a desfazer-se dos escolhos das circunstâncias e exilar-se em geografia e tempo alheios, mas sem perder a bússola da realidade, sem perder sua paisagem e sem perder o seu povo.
               O Chile teve dois prêmios Nobel de Literatura. O primeiro foi outorgado, em 1945, a Lucila de Maria del Perpétuo Socorro Godoy Alcayaga, que usou o nome de Gabriela Mistral. Pablo e Gabriela foram amigos. Quando Gabriela fez 15 anos, em 1904, Neruda nasceu. Gabriela, com seu nome literário, homenageou dois grandes poetas de seu tempo, o italiano Gabriele d’Annunzio e o francês da Provença, Fréderic Mistral.
              Pablo Neruda, com seu pseudônimo, prestou  homenagem ao grande poeta tcheco  do século 19, Jan Neruda – que denomina à mais bela das ruas de Praga e uma das mais bonitas do mundo, a que saí de Mala Strana e sobe ao castelo de Hradcany. Os quatro, ícones e discípulos, tiveram a marcá-los o sentimento nacionalista.  
               Matar poetas tem sido o grande prazer dos fascistas contemporâneos e dos tiranos de todos os tempos. O assassinato de Federico Garcia Lorca é conhecido. O autor de Romancero Gitano, traído, por medo, pelo amigo que o escondera, foi fuzilado nos primeiros dias da insurreição de Franco, por ordem do general Queipo de Llano. Neruda - que foi um dos melhores amigos do povo brasileiro - pretendia, do exílio, lutar contra Pinochet.  É o que parece ter ocorrido contra Pablo Neruda. Matar de forma dissimulada é uma prática também dos serviços norte-americanos, como a CIA reconhece.
             Há várias formas de matar os poetas. O fascismo, sendo o avesso do humanismo, é o assassinato permanente da poesia – e dos poetas. O franquismo, além de fuzilar  Lorca, matou de tifo e tuberculose, na prisão, Miguel Hernández, aos 31 anos; e alguns outros, como Antonio Machado, de tristeza, solidão e angústia, no exílio, como Antonio Machado. 

sábado, 9 de fevereiro de 2013

UM MUNDO SEM LEI



          (HD) -    Cinqüenta e quatro países – mais de um quarto dos membros das Nações Unidas – ajudaram os Estados Unidos a seqüestrar cidadãos no mundo inteiro (entre eles, alguns nascidos em seus próprios territórios), confina-los em prisões secretas, tortura-los e, em alguns casos, executa-los, sem qualquer simulacro de julgamento.           A denúncia foi feita por uma organização civil de defesa dos direitos humanos, a Open Society Justice Iniciative, com sede em Nova Iorque.
     Esses atos de violência foram cometidos contra as leis norte-americanas e as leis dos paises cúmplices. Destacaram-se, nessa sórdida vassalagem a Washington, os governos de direita de Portugal e Espanha, de Durão Barroso e José Maria Aznar - os mesmo que promoveram o Encontro dos Açores, em março de 2003. Naquela reunião, Bush e Blair decidiram invadir o Iraque, sob o  pretexto de que Saddam Hussein dispunha de armas de destruição em massa.
           A civilização ocidental vem enfrentando uma crise de identidade ética coincidente com o processo de acumulação brutal do capitalismo,  contraposto aos ideais do Iluminismo e da Revolução Francesa. A crise chegou ao auge com o nacional socialismo. A derrota de Hitler trouxe a esperança, que a Guerra Fria adiou. Os Estados Unidos, como sempre, tomaram a vanguarda da insensatez, mediante a caça “às bruxas” do macartismo.
      Os americanos, que haviam sido, no fim dos setecentos, exemplo para o mundo do primado das instituições políticas e do poder da lei, passaram a violar os seus próprios valores e princípios. Essas violações atingiram o clímax com Bush, mas continuam no governo Obama, com suas decisões mais recentes, entre elas a do direito imperial de  continuar a matar quem quiser, em qualquer lugar do mundo, continuando a guerra infinita.
      A idéia do Ocidente, com seus momentos de avanço e de recuo, se funda no princípio basilar do humanismo - o respeito aos direitos humanos elementares. No plano internacional, os direitos humanos se expressam no respeito à autodeterminação nacional dos povos. Ao esvaziar-se dessa diretriz milenar, o Ocidente passa a ser  conceito abstrato.
      Todas as instituições milenares da nossa civilização se encontram em crise, como é o caso da Igreja Católica - enredada em seus compromissos temporais e seus próprios pecados - e os estados nacionais, incapazes de assegurar aos seus cidadãos o mínimo: emprego, moradia, saúde, educação ou de salvaguardá–los da violência.
      Como todos os movimentos históricos, o Ocidente - como idéia e prática do humanismo e da solidariedade - sempre foi contestado. Mas nunca esteve tão ameaçado de dissolução, mediante a violação de suas próprias idéias e leis.
       Enquadrilham-se banqueiros, fabricantes de armas e  líderes medíocres, para subjugar os débeis e extinguir os que ousam resistir.
     

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

ESPANHA PARECE QUERER QUE BRASIL PRESTE VASSALAGEM AO SEU REI EM MOEDAS COMEMORATIVAS DA COPA DE 2014












A insistência da Espanha de associar sua imagem à do Brasil em condições neocoloniais não tem limites. Quebrado, com cerca de 30 bilhões de euros em reservas internacionais, contra quase 400 bilhões de dólares das nossas, e uma dívida total e per capita astronômica, o Reino da Espanha anunciou que está cunhando 14.000 moedas de ouro e de prata de cem e de dez euros, com a menção á Copa do Mundo do Brasil e à conquista da Copa da África do Sul pela Espanha. 

Nas moedas de ouro e prata, onde se lê "2012 - Rei Juan Carlos I de España - Copa del Mundo de la Fifa - Brasil 2014" de um lado aparecem, na moeda de prata, o mapa do Brasil e os territórios da África do Sul e da Espanha, assinalado por uma enorme bandeira espanhola, e uma ligação entre a África do Sul e o Brasil, sugerindo a transferência das sedes (e a transposição da vitória da Espanha) de 2010 para 2014, e, na de ouro, o mapa e uma bandeira estilizada do Brasil,tendo, a duas, na outra face, a efígie do Rei Juan Carlos da Espanha.

Como perguntar não ofende, cabe que as autoridades brasileiras responsáveis pela Copa do Mundo, começando pelo Ministério dos Esportes, esclareçam quem deu licença de colocar símbolos de nossa bandeira e a menção à Copa do Mundo do Brasil, 2014, em uma moeda que carrega o perfil do Rei Juan Carlos, cunhada pela “Real Casa da Moeda da Espanha”.

Se o caso é de uma homenagem, ou associação, meramente esportiva, entre uma coisa e outra, cabe colocar nessa moeda apenas a marca da FIFA, e a menção ás Copas de 2010 e 2014. Se a intenção, que está clara, é comemorar a vitória espanhola na Copa da áfrica do Sul, que a Espanha se limite a abordar, em suas moedas, a Copa de 2010. Se entrar a cara do Rei, como a dos antigos césares que afirmavam a sua autoridade sobre os territórios que controlavam com a circulação de moedas com a sua efígie, a questão torna-se política, e é preciso saber se esse absurdo é fruto da irresponsabilidade de alguém que autorizou a cunhagem dessa moeda, no Brasil, ou arrogante provocação, no caso da decisão ter se originado na Espanha, sem autorização brasileira.

País escolhido para a realização do evento é prerrogativa do Brasil ou, quando muito, da FIFA, cunhar moedas relativas à Copa do Mundo de 2014. Não somos vassalos do Rei Juan Carlos e a memória de “nossa” Copa não pode estar associada (e eternizada em ouro e prata) a uma monarquia ridícula, envolvida com nepotismo, corrupção, e, em pleno século XXI, com a caça de elefantes. 

Este texto foi publicado também nos seguintes sites:



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

UM PARLAMENTO IMUTÁVEL



(JB) - Os argumentos dos que contestam a eleição dos presidentes do Senado Federal e da Câmara dos Deputados podem ser outros – e não nos cabe analisa-los. O que incomoda à consciência dos mais bem informados é a permanência dos mesmos atores políticos no poder ao longo dos lustres e dos decênios. Como lamentava o jornalista José Aparecido durante o período da Ditadura, o único consolo é que podemos contar com a inexorável sucessão biológica.

Dois fatores, um mais antigo, e outro mais recente, contribuíram para a situação atual: a Ditadura, que impediu, mediante todos os artifícios do poder, a renovação dos quadros políticos, e o instituto da reeleição para os cargos executivos. A Ministra Carmem Lúcia disse, com acuidade, que a reeleição quebra o equilíbrio que deve haver, nas disputas políticas, entre o governo e a oposição. Podemos entender, no sentido lato, dentro de nossa língua e da nossa visão de Estado, que, como governo, compreende-se o poder executivo e a maioria parlamentar que o apóia. Com a reeleição, a vantagem dos que se encontram no poder esmorece e dificulta a ação dos opositores.

Entre 1926, quando houve a última eleição regular da República Velha, com a vitória de Washington Luís (a de 1930 foi politicamente espúria com a quebra das regras federativas e a fraude explícita) e a morte de Getúlio, em 1954, passaram-se 28 anos, sendo que oito deles sob o Estado Novo. Não obstante isso, houve notável renovação dos quadros políticos, conforme a composição do Congresso e da Assembléia Nacional Constituinte de 1946. Se examinarmos a história dos últimos 30 anos – de 1983, com a posse dos governadores eleitos no ano anterior, e este início de ano de 2013, podemos verificar que o comando do poder legislativo sofreu poucas alterações. É certo que novos partidos surgiram, como o PT, mas o controle efetivo continua com as velhas oligarquias, em uma aliança entre os senhores de engenho, os capitães do agronegócio, os controladores do capital financeiro e os grandes empresários, nacionais e estrangeiros, com seus escritórios em São Paulo. Repete-se, de alguma forma, o que havia no Império, com a aliança entre os exportadores de açúcar do Nordeste e os comerciantes da praça do Rio de Janeiro.

Contribui também para isso a deformação do sistema representativo, com o superdimensionamento das bancadas dos pequenos estados e a redução das bancadas dos maiores. Deveríamos obedecer à lógica federativa, que determina a representação proporcional legítima dos Estados na Câmara dos Deputados, conforme sua população e eleitorado, e a representação paritária dos Estados no Senado. A essa deformação se acrescenta outra, ainda mais teratológica – os suplentes dos senadores.

Outros males, como a corrupção, existem em todos os países do mundo, mas esses aleijões republicanos são peculiares ao nosso sistema e só deixarão de existir quando a Nação exigir e obtiver a convocação de uma assembléia nacional constituinte originária, com o mandato único para redigir nova Carta, sem a intervenção dos atuais partidos.

Para isso, é preciso que os cidadãos honrados deixem de protestar, arregacem as mangas, organizem-se e participem diretamente da luta política.

Este texto foi publicado também nos seguintes sites:



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

STALINGRADO - A CIDADE QUE SALVOU O MUNDO.


        (Carta Maior) -       Há setenta anos, depois de mais de dois milhões de mortos nos dois campos (a União Soviética perdeu mais de um milhão e cem mil combatentes e civis, só nesse combate) terminou a mais sangrenta de todas as batalhas da História – a de Stalingrado. 
             Com a capitulação de von Paulus e mais 22 generais de Hitler, e 91.000 de seus soldados remanescentes, a Segunda Guerra Mundial foi decidida ali. Até então, o Fuehrer  e suas tropas pareciam invencíveis. Em julho de 1942, quando se iniciou a batalha na cidade, Hitler e Mussolini dominavam todo o território continental europeu e parte da Escandinávia - com a exceção dos paises neutros, como a Suíça e a Suécia. A Noruega, apesar de sua declaração de neutralidade, foi invadida pelos alemães e resistiu com bravura à superioridade bélica dos agressores durante 60 dias, sendo obrigada a capitular.
           As Ilhas Britânicas resistiram, com estoicismo, depois da dramática retirada de Dunquerque, aos bombardeios quase cotidianos de Londres e de seus centros industriais pelas bombas voadoras, e pelos aviões da Luftwaffe. Os americanos, que lutavam no Pacífico, adiaram por muitos meses o envio de tropas ao teatro europeu. O seu desembarque, na Sicília, só ocorreu em julho de 1943, quando, com a virada de Stalingrado, os soviéticos já haviam iniciado a contra-ofensiva, com a marcha sobre Berlim. Se Hitler vencesse a guerra na Europa, seus simpatizantes norte-americanos, entre eles o seu maior industrial, Henry Ford, e o seu herói nacional, Charles Lindbergh, seriam provavelmente estimulados a liderar um movimento fascista na América.
          O mais pesado dos tributos de sangue e bravura no confronto com a Alemanha Nazista coube aos soviéticos e à resistência dos guerrilheiros, entre eles os comandados por Tito, na Iugoslávia.  No inventário dos sacrifícios, o maior foi o do povo de Stalingrado e dos soldados soviéticos que ali combateram e morreram.
              Ainda que tenham sido comunistas os comandantes da resistência à invasão alemã de junho de 1941, eles tiveram a inteligência de não atribuir só ao regime os louros do triunfo. Assim,  deram à sua luta o título de A Grande Guerra Pátria.
             Hitler e seus ideólogos, ao planejar a Operação Barbarossa, supuseram que os eslavos iriam saudar as suas tropas como libertadoras. Embora isso tenha ocorrido em certas cidades polonesas e, é claro, em antigos enclaves germânicos perdidos na Primeira Guerra Mundial, os russos imediatamente formaram seus grupos de guerrilheiros, com homens e mulheres, trabalhadores das cidades e dos meios rurais, sob o comando dos comunistas, mas também dos líderes nascidos  no clamor da urgência, muitos deles bem jovens.
            Não era só o regime socialista que se via ameaçado; era a Pátria que estava sendo agredida por tropas estrangeiras. Stalingrado era um ponto estratégico para a ofensiva de Hitler.  Lutou-se naquela cidade, durante seis meses e quinze dias, minuto a minuto, de bairro em bairro, de casa em casa, até a derrota dos alemães. Ao heroísmo dos resistentes de Stalingrado, civis e soldados soviéticos,  cabe a parcela mais significativa dos sacrifícios da Europa Oriental,  que perdeu mais de vinte milhões de seus habitantes durante o conflito.
           No tempo em que surgem, em nome da cínica “isenção” dos historiadores, os que tentam, na Alemanha e em outros países, rever os fatos e desculpar Hitler e os seus seguidores, é bom relembrar a Batalha de Stalingrado e reverenciar os que ali morreram. Graças à sua bravura, conseguimos preservar alguns dos grandes valores do humanismo. 

Este texto foi publicado também nos seguintes sites:


domingo, 3 de fevereiro de 2013

NÃO HÁ DEMOCRACIA SEM PARLAMENTO


            (HD) -  O melhor da história política da Humanidade se deve à ação parlamentar – e o pior, também. Nestes dias lembramos os oitenta anos da ascensão de Hitler ao poder. Essa tragédia do século 20 ocorreu por obra e graça do parlamento alemão, o Reichstag, que se submeteu ao fascínio diabólico do líder do nazismo, mediante coligação de direita (com o apoio decidido da Igreja Católica), e aprovou seu nome como chanceler do Reich, ou seja,  Chefe do Governo. Poucas semanas depois, em março, Hitler obtinha, desse mesmo parlamento, todos os poderes do Estado.
           Foi assim que ele logo dissolveu o parlamento e os partidos políticos, menos o seu; negociou uma concordata com o Vaticano e, ensandecido, iniciou o caminho rumo à guerra total, que teria fim doze anos depois, em uma pira feita de molambos - em que seu corpo de suicida foi parcialmente queimado.                      
           A ação parlamentar dos Comuns, na Inglaterra do século 17, contra a dinastia dos Stuart, mergulhada no charcoque da corrupção e do deboche, levou à Revolução comandada por Cromwell, à decapitação de Carlos I, e – mesmo com a restauração da monarquia – deu alicerces à democracia moderna.
           A eleição para a direção da Câmara e do Senado está provocando protestos dos cidadãos, que propõem o fechamento do Congresso. Sem entrar no acerto ou desacerto na escolha dos candidatos, é preciso entender que os senadores e deputados não são indicados pelos deuses, mas, sim, nomeados pelos eleitores. Se os representantes desmerecem os votos recebidos, só resta negar-lhes o sufrágio na eleição seguinte.
       O Parlamento é a nação reunida, com seus vícios e virtudes – e não temos outra nação, senão a nossa.  Ela poderá ser outra, e tem sido outra, ao longo do tempo, graças à nossa vontade política, quando temos essa vontade. Foi assim que nos reunimos nas ruas, em 1983 e em 1984, para recuperar os ritos democráticos perdidos em 1964.
        A História se faz em movimento pendular, porque os homens procuram, sempre, o equilíbrio  entre o ideal e o possível. Mas o que é ideal para uma parcela das sociedades políticas, não é para a outra. Em suma, uns querem mudar para melhor, com mais justiça e igualdade, os outros pretendem conservar o que existe. O Parlamento reflete esses momentos históricos, e o momento histórico, não só no Brasil, como no mundo, é  de resistência. A mal chamada “racionalidade econômica”, como a definia Severo Gomes, chegou ao paroxismo, e muitos políticos, em lugar de assumir a sua responsabilidade, capitulam diante dos banqueiros, como ocorre no mundo inteiro e, para o nosso desalento, também em nosso país.
       

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A MONSANTO, ALÉM DA JUSTIÇA.


(JB) - Agricultores brasileiros estão em litígio contra a Monsanto, que lhes cobrou royalties pelo uso de uma tecnologia cuja patente expirou em 2010, de acordo com a legislação brasileira. As leis nacionais estabelecem que o início da vigência de uma patente é a data de  seu primeiro registro. A Monsanto invoca a legislação norte-americana, pela qual a patente passa a vigorar a partir de seu último registro. Como sempre há maquiagem dos processos tecnológicos, a patente não expira jamais.
Os lobistas da Monsanto não tiveram dificuldades em negociar acordo vantajoso, para a empresa, com os senhores do grande agronegócio, reunidos em várias federações estaduais de agropecuária, e com a poderosa Confederação Nacional da Agricultura, comandada pela senadora Kátia Abreu. Pelo cambalacho, a Monsanto suspenderia a cobrança dos royalties até 2014, e os demandantes desistiriam dos processos judiciais.
"Uma das maldições do homem é a tentativa de criar uma natureza protética"
Uma das maldições do homem é a tentativa de criar uma natureza protética, substituindo o mundo natural por outro que, sendo por ele criado, poderá, na insolência da razão técnica, ser mais perfeito.  Essa busca, iniciada ainda na antiguidade, continuou com os alquimistas, e se intensificou com as descobertas da química, a partir do século 18. O conluio entre a ciência, mediante a tecnologia e o sistema capitalista que engendrou a Revolução Industrial, amparada pelo laissez-faire, exacerbou esse movimento, que hoje ameaça a vida no planeta.
A Alemanha se tornaria, no século 19, o centro mais importante das pesquisas e da produção industrial de novos elementos a fim de substituir a matéria natural, construída nos milênios de vida no planeta, por outra, criada com vantagens para o sistema de produção industrial moderno.
Não há exemplo mais evidente desse movimento suicida do que a Monsanto. A empresa foi fundada em 1901 a fim de produzir sacarina, o primeiro adoçante sintético então só fabricado na Alemanha. Da sacarina, a empresa foi ampliando seus negócios com outros produtos sintéticos, como a vanilina e corantes, muitos deles cancerígenos. Não deixa de ser emblemático que o primeiro grande cliente da Monsanto tenha sido exatamente a Coca-Cola. É uma coincidência que faz refletir.
Não é só a Monsanto que anda envenenando as terras e as águas com seus produtos químicos. Outras empresas gigantes da química com ela competem na produção de agrotóxicos mortais. Com o controle da engenharia genética aplicada aos vegetais de consumo humano e de consumo animal, no entanto, ela tem sido a principal responsável pelos danos irreparáveis à natureza e à saúde dos animais e dos seres humanos.
Vários países do mundo têm proibido a utilização das sementes transgênicas da Monsanto, entre eles a França, que interditou o uso das sementes alteradas. No Brasil, ela tem vencido tudo, com a conivência das autoridades responsáveis, ou irresponsáveis. A Comissão Técnica de Biossegurança e o Conselho Nacional de Biossegurança  vêm dando sinal verde aos crimes cometidos pela Monsanto e outras congêneres no Brasil.
Essa devia ser uma preocupação prioritária do Parlamento, que só se movimenta com entusiasmo quando se trata das articulações internas para a eleição bianual de suas mesas diretoras.

Este texto foi publicado também nos seguintes sites: