quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

CARTEL E NAÇÃO




(HD) - Desde a instituição, em 1536, pelo Rei Dom João III, de Portugal, das Capitanias Hereditárias, o Brasil sofre com a maldição dos monopólios e da cartelização.


Dentro das capitanias, o senhor explorava seus prepostos, nas sesmarias, exercendo a exclusividade da compra e da venda e da fixação de preços das mercadorias, da mesma forma que a Coroa Portuguesa fazia com ele.


O que, antes, era imposto pelo sistema colonial português, transformou-se, com o passar dos anos, em traço marcante da cultura nacional e do estilo “empreendedor” brasileiro. Criamos um país de barões, tabeliães e coronéis, interventores nomeados e pequenos comerciantes, sempre empenhados em ver o público em geral mais como objeto de exploração pura e simples do que como clientes ou consumidores.  


Entre-se em uma feira qualquer, e em poucos minutos, se descobrirá que existe uma espécie de “acordão” entre comerciantes locais. Se a picanha, no “seu” José, está um real mais cara que no “ seu” Manuel, pode ter certeza de que a chã de dentro vai estar um real mais cara no segundo açougue, para compensar. O mesmo se dará com o peixe, a banana, o tomate, a alface, etc, etc, etc.


Quem se der ao trabalho de calcular, vai ver que não faz a menor diferença parar em uma ou outra banca. Só muda a cara ou a forma da pessoa atender. Sempre se ajeita tudo para que ninguém saia perdendo, desde que ele não seja consumidor.

Se isso ocorre no comércio de bairro, imagine-se nos grandes negócios. Monopólios, cartéis formados para burlar licitações, ou para divisão de mercado, são a coisa mais normal no Brasil.

Na telefonia, por exemplo, depois da criminosa desnacionalização do setor nos anos noventa, a concentração em mãos estrangeiras da parte do leão das telecomunicações faz com que estejamos pagando das mais altas tarifas do mundo, em uma área que é campeã de reclamações.

O último episódio nessa longa série de escárnios ao cidadão brasileiro foi a suspensão, na semana passada, pela enésima vez, da tentativa de se proceder a licitação de linhas interestaduais de passageiros, que continuam, na prática, nas mãos das mesmas empresas, desde o regime militar.

No setor, a concorrência é tão grande, que as quatro viações que fazem a ligação entre o Rio de Janeiro e São Paulo, a rota de maior movimento do país, cobram rigorosamente o mesmo preço pela passagem de ônibus convencional. 

O decreto que previa a licitação é de 1993, a escolha das vencedoras já deveria ter sido feita em 2008, mas a licitação tem sido sucessivamente adiada e não saiu até hoje.

E mesmo assim, quando isso ocorrer, só poderão participar dela – pasmem! - empresas que já operam nesse mercado.  Os “concorrentes” continuarão sendo os mesmos “conhecidos” de sempre. Só haverá algumas mudanças, como a que obrigará empresas mais rentáveis a atender trechos de menor retorno financeiro

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

OS PORTAIS DA IMORTALIDADE


(JB) - O fim de 2013, e o início do novo ano de 2014 têm sido pródigos em notícias revolucionárias no campo da saúde.

Cientistas da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, criaram nano-partículas anticancerígenas que “grudam” em glóbulos brancos, e, espalhadas pelo sangue, identificam e matam células tumorais, impedindo que o câncer, por meio de metástase, se espalhe pelo corpo, eliminando essas células do sangue de ratos e de humanos, em laboratório, em apenas duas horas.
  
Na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, uma equipe, comandada pelo professor Douglas Fearon, descobriu como funciona a barreira protetora que envolve certos tumores e desenvolveu uma substância que conseguiu rompê-la, permitindo que o sistema imunológico mate suas células, curando o câncer de pâncreas – altamente letal – em ratos, em apenas seis dias.
E, na Universidade de Harvard, outro grupo de cientistas, liderados pelo australiano David Sinclair, conseguiu reverter o envelhecimento muscular em ratos “velhos”, com idade equivalente a 60 anos, permitindo que sua condição física voltasse a uma idade de aproximadamente vinte “anos”, em apenas uma semana.

O tratamento baseou-se na descoberta de uma nova causa do envelhecimento, principalmente muscular, que é a perda da comunicação entre os cromossomas do ADN do núcleo da célula e os do ADN das mitocôndrias, responsáveis pelo fornecimento da maior parte da energia necessária à atividade celular.    

Para resolver o problema, os pesquisadores usaram uma molécula que elevou, nos ratos, os níveis de nicotinamida adenina dinucletídeo, (NAD), que se mantêm mais alta na juventude, e cai para a metade em idosos.

Naturalmente, esses tratamentos não estarão disponíveis em pouco tempo, e, em uma sociedade baseada no lucro, dificilmente chegarão tão cedo ao homem comum.

De qualquer forma, os avanços científicos que se multiplicam em todos os campos de atividade, nos fazem refletir sobre a importância, talvez ainda não adequadamente avaliada, do extraordinário período que estamos vivendo agora.   

É tentador pensar que, se considerarmos o Universo como informação, o conhecimento do Cosmo e de nós mesmos nos permitirá mudar o mundo e a nós mesmos, da forma que nos for mais conveniente.

É claro que, para muitos, essa parecerá uma visão herética da aventura humana. 

Se o infinito conhecimento é infinito poder, ele só pode pertencer a Deus e não ao homem e deveríamos ser punidos por buscar esse conhecimento, como nos alertaram os antigos gregos com o mito de Prometeu, ou Mary Shelley, com “Frankenstein”.

Outros acreditam que o homem só deveria ter acesso a conhecimento limitado, com propósito previamente determinado e especial permissão do Criador.

No conto “Os Nove bilhões de nomes de Deus”, de 1953, o escritor norte-americano Arthur C. Clarke, autor também de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” brinca com o tema.

Ele imagina o lama de um monastério Tibetano comprando um supercomputador Mark-V para realizar um trabalho, que, normalmente, seus monges levariam 15.000 anos: calcular todos os possíveis nomes de Deus, em palavras com 9 caracteres, usando um alfabeto especialmente inventado, sem que nenhuma letra figure mais de 3 vezes consecutivas em cada vocábulo.

Já instalados no Tibet, entre os muros da cidadela do templo, os dois engenheiros encarregados de montar e operar a máquina, descobrem - pouco antes do final dos cem dias de trabalho - que os monges acreditam que, uma vez finalizados os cálculos, a humanidade perderá sua razão de existir, e tudo acabará para sempre.

Preocupados com a reação dos monges caso as coisas não transcorram como eles esperam, os dois resolvem adiantar sua partida, e começam a descer a montanha onde está instalado o monastério, a caminho do aeródromo, no qual um DC-3 os aguarda, duas horas antes do horário previsto para que o computador imprima o ultimo nome. 

É noite, e eles estão, sobre suas montarias, em um dos pontos mais altos da trilha, quando chega o momento da máquina parar de trabalhar. Instintivamente, seus olhos se voltam para a silhueta do monastério, ao longe, recortando-se contra o horizonte. E descobrem, perplexos, que as estrelas, estão, uma a uma, começando a se apagar.

Não sabemos se o homem, algum dia, vencerá definitivamente a morte, ou se estaremos entre as últimas gerações a viver estes modestos oitenta, noventa, cem anos, que nos cabem, agora, como limites quase que definitivos.

Navegantes do tempo, temos singrado, por milhares de gerações, as águas do receio e da ignorância, abraçados uns aos outros, no início e fim de nossas vidas, frágeis e impactados por imensa vulnerabilidade, tremendo ante a perspectiva da dor e a proximidade da morte.

O certo é que, mesmo à deriva, parece que estamos prestes a conseguir atravessar o vasto oceano. 

Finalmente, vislumbramos, ao longe, para além da bruma que nos cerca, quase como miragens, das quais nos aproximamos lentamente - graças ao estudo do genoma humano e de novas ciências como a engenharia genética e a nanotecnologia – os pilares que nos darão passagem para uma nova era. Eles estão à nossa frente. 

Os fabulosos e indefinidos portais da imortalidade.  Este texto foi publicado tambémnos seguintes blogs:





















  

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A BALANÇA E A CHIBATA


(HD) - Nos últimos dias, pela enésima vez - quem não se lembra do massacre do Carandiru? - a situação das prisões brasileiras foi manchete na internet e nos mais importantes jornais do mundo.
Junto aos textos, as imagens dos cadáveres decapitados de Pedrinhas, no Maranhão, e a informação de que a cada dois dias - sob a guarda do Estado - um prisioneiro é assassinado no Brasil.
Os números não se referem aos que são espancados por outros presos ou agentes e policiais. Ou aos que falecem devido a enfermidades - muitas delas contagiosas - que se espalham como peste nas celas superlotadas. Ou aos que são feridos quando detidos e morrem por falta de assistência médica ou remédios.


Em boa parte do mundo, a primeira preocupação de um condenado é contar quantos dias, meses e anos faltam para a sua liberdade.


No Brasil, a não ser que seja o “xerife” ou faça parte de alguma facção - o que não é garantia de nada, como se viu no Maranhão - a primeira preocupação de um preso é evitar, minuto a minuto, ser espancado, estuprado ou assassinado por seus colegas de cela.

Ele não poderá jamais, mesmo se tivesse espaço para isso, dormir tranqüilo. E da sua relação com os agentes penitenciários, dependerá, a cada momento, seu futuro.

Uma simples transferência de cela ou de galeria feita, a qualquer instante, pelo carcereiro de plantão, pode representar a diferença entre vida e morte, relativa integridade física e uma surra de criar bicho, ou algo muito pior.


Isso, considerando-se que esse indivíduo tem grande chance de ser preso provisório, que, sem culpa oficialmente formada, está aguardando julgamento, às vezes por meses ou  anos.


Que crime ele cometeu, para cumprir cadeia nessas condições? O crime de ter nascido em um país em que se prende, e se condena, pelo furto de dois pacotes de biscoitos ou um xampu, e se envia o suspeito, em poucas horas, para uma cela cheia de traficantes assassinos.

Ter nascido em um país no qual o suspeito é tratado, na prática, como culpado até prova em contrário, e em que, segundo certa jurisprudência, cabe ao réu provar que foi torturado quando o acusado pela tortura for agente do estado.
Um país em que boa parte da população acha que a violência deve ser combatida na base do “olho por olho, dente por dente”. E acredita que diminuindo a maioridade, aumentando as sentenças e adotando a pena de morte resolveremos o problema, embora tenhamos a polícia que mais mata no mundo e a quarta população carcerária do planeta, e a criminalidade e a violência continuem aumentando a cada ano.
O crime de ter nascido em um país em que a polícia e a justiça se originaram na Santa Inquisição e nos Capitães do Mato.
Em uma Nação na qual alguns juízes, continuam agindo como se, entre nós, a Justiça trouxesse a balança em uma mão, e na outra, uma chibata.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

DE SAPOS E DE PRINCESAS


(HD) - Era uma vez um reino, que já tinha sido rico e poderoso, em um passado distante. E, que, depois, pobre e miserável, foi governado por um monstro feroz e sanguinário, por muito tempo.
Esse monstro havia derrotado o povo daquele reino em uma guerra terrível. Anos depois, quando estava ficando velho, mandou que viesse de fora do reino um príncipe, e o educou com esmero, para substituí-lo. Com o passar do tempo, esse príncipe  transformou-se em um rei de opereta, que vivia à custa das arcas do reino, e sentia nostalgia do poder de seus antepassados e das idéias que o monstro lhe havia ensinado.
Mas mais tempo passou, e o povo se esqueceu das lições que havia aprendido na luta contra o monstro.
Com inveja dos povos vizinhos, muito mais ricos, o povo se submeteu a eles, e, graças à ajuda alheia e a pesadas dívidas, todos compraram muitas coisas e acharam que estavam igualmente ricos, e que, a partir daí, seriam tratados como iguais pelos seus antigos senhores.
Passaram então, a tratar os povos mais pobres, como antes eram tratados pelos mais ricos.
Desprezavam e expulsavam os estrangeiros, os mendigos e os peregrinos. Com o dinheiro alheio, construíram suntuosas pontes e castelos, e o Rei, de nariz em pé, viajava por selvas e desertos distantes, para caçar elefantes. 
Sua filha, a Princesa, conheceu um plebeu, que, como um sapo encantado, praticamente transformou em príncipe, o que permitiu que ele fizesse bons e duvidosos negócios nos mais altos círculos do reino.
Um dia, no entanto, a crise varreu, como um tufão,  as paragens em que ficava o Reino. Um em cada quatro de seus cidadãos ficou sem trabalho. Descobriu-se que o Tesouro devia quase o dobro do que arrecadava em impostos para os reinos vizinhos; e muito mais para os seus bancos; que cada aldeão ou cidadão devia ainda mais, em média, do que poderia ganhar em um ano; e que alguns de seus homens mais ricos também eram responsáveis por algumas das mais altas dívidas do mundo.
Embora muita gente acredite que certas estórias só ocorram em suas próprias e encantadas terras, o reino de que falamos fica do outro lado do oceano.
O monstro da história chamava-se Francisco Franco. O nome do Rei é Juan Carlos. A Princesa é a Infanta Cristina, indiciada agora por delito fiscal e lavagem de dinheiro, por um juiz espanhol.  O plebeu, seu marido, chama-se Iñaki Undangarin e foi acusado de corrupção e desvio de dinheiro público, no chamado caso Nóos.  
Ex-jogador de handebol, transformado pelo casamento em Duque de Palma de Mallorca, Undangarin já serviu a diversas empresas ibéricas, que operam em vários países, incluindo certo “reino” tropical.
Um lugar no qual muita gente fica embasbacada, e se deixa enganar pelas estórias – essas sim da Carochinha - contadas por malandros e oportunistas de ternos finos e fala macia, principalmente quando eles vêm de fora.  

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sábado, 11 de janeiro de 2014

A MÃO E AS VESPAS


(JB) - Vez ou outra, os jornalistas vêm-se obrigados a tocar, repetidas vezes, nos mesmos assuntos, não pela razão — como dizia o poeta — de querer fazer um samba de uma nota só mas porque a realidade do país nos impõe, infelizmente, os mesmos implacáveis fatos, dia a dia, mês a mês, ano a ano, quase sem interrupção.
A situação do presídio de Pedrinhas, no Maranhão, com a morte de dezenas de detentos, no ano passado, e a decapitação de alguns, com direito a gravação em vídeo, seguida de macabra divulgação na internet, retrata resistente e trágica mazela que a sociedade brasileira não consegue vencer nem enfrentar.
Muda o nome do presídio, da cidade, do estado, mas a situação, o roteiro — como acontece com os blockbusters de Hollywood — é quase o mesmo.
E o pior, para a ONU e a Comissão de Direitos Humanos da OEA, o nome do país, também é quase sempre o mesmo, só muda o mês, o ano e o  filme que está em cartaz.  
Tudo isso ocorre porque, por trás da situação do Sistema Carcerário Brasileiro, existe outro “sistema”, paralelo, anônimo, ilegal e suboficial. Esse “sistema” está envolvido com atividades ilegais, que vão de cartéis para o fornecimento de comida e outros insumos para os presos à introdução de drogas, armas e celulares nos presídios. Um “sistema” que se sente confortável como um peixe dentro de lago profundo, escuro  e estanque com o estado atual das nossas prisões. 
Talvez seja essa a razão para que, nos últimos anos — incluídos os de FHC, Lula e Dilma— pouca coisa tenha mudado em nossas cadeias, e, de modo geral, para  os milhares de detentos que se encontram atrás das grades, cerca de 40% deles ilegalmente, já que sem terem tido culpa formada ou reconhecida pela Justiça.
Está faltando um debate mais amplo para discutir o descalabro e as perspectivas do panorama carcerário no Brasil
Acossados pelo conservadorismo, tanto o PSDB como o PT, no entanto, evitam aprofundar-se no assunto, embora o tema devesse constar com destaque em qualquer programa de governo, e esteja faltando um debate mais amplo, e mais sério, para discutir o presente descalabro, e as perspectivas futuras, do panorama carcerário no Brasil.
Em Minas, o governo Anastasia inaugurou, no início de 2013, a primeira prisão “privada” do país, erguida e administrada por investidores, por meio de PPP, com celas para quatro presos em regime fechado, ou seis em regime semiaberto.
O complexo, com previsão para cerca de 3 mil presos, é gerido por um agente público, e por um conselho com participação das áreas de corregedoria, de direitos humanos e da própria comunidade, além do grupo responsável pela sua construção.
O senhor Fernando Henrique Cardoso já se manifestou publicamente — mas o PSDB não assumiu essa bandeira — a favor da descriminalização, assunto que está na ordem do dia com a regulação da produção e consumo da maconha no Uruguai, prestes a se transformar na primeira potência cannábica do planeta, inclusive com a exportação do produto para outros países, para a produção de medicamentos.
O que não pode continuar ocorrendo, nem no Maranhão, nem em qualquer outro estado, ou em prisões federais, é que se tente imputar aos presos a culpa pela situação.
Preso é preso, e Estado é Estado, assim como seus policiais, funcionários e agentes carcerários.
Querer culpar o detento por ter acesso a desafetos, celulares, drogas, armas, dentro da cadeia, quando se sabe que nada entra na cela sem o interesse ou a cumplicidade de alguém, é o mesmo que insultar a inteligência da nação.
Afinal, quem pode mais, pode menos. Quando os agentes do Estado querem — às vezes até mesmo à revelia das lideranças legalmente constituídas — invadem arbitrariamente prisões, espancam e torturam presos, massacram indiscriminadamente detentos como aconteceu no Carandiru.
Sejamos francos, a morte dos presos de Pedrinhas  só chamou a atenção porque o presídio foi visitado por uma comissão externa ligada ao Ministério Público, determinada  a verificar a situação da população prisional. E por causa de ataques, fora de seus muros, que atingiram covardemente a população local.
Se não fosse isso, a repercussão dos assassinatos de detentos em Pedrinhas seria zero. A morte de cinquenta ou sessenta presos por ano em um presídio qualquer não atrapalha em nada o “sistema”.  Pelo contrário, ela é vista, por muitos, dentro e fora dele, como desejável e normal.
Resta saber se essas mortes, assim como os ataques a inocentes, como a menina de três anos, queimada dentro de um ônibus, não estão sendo incentivadas,  direta ou indiretamente, e se existe mais alguém, além dos detentos, interessado em incendiar o Maranhão.
Isso já ocorreu em São Paulo, não faz muito tempo, com as chacinas — que mataram dezenas de pessoas — detonadas no rastro dos ataques do PCC, em 2012.
Sempre que se tenta mudar a vergonhosa situação prisional do Brasil — que volta a estarrecer o mundo inteiro, neste momento — se está metendo a mão em perigoso vespeiro, forjado por anos e anos de impunidade e omissão.
E as vespas não conhecem outro caminho, para responder a quem mexe com elas, do que disseminar ao máximo seus enxames e ferrões, espalhando o medo e o terror.

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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A BATALHA DA COPA



(HD) - O Governo Federal informou, nesta semana, que cerca de 10.000 soldados e policiais deverão ser treinados em técnicas de segurança e contenção de distúrbios para a proteção de torcedores, turistas e instalações de infra-estrutura durante a Copa.
A repressão, no entanto, como já se viu antes, não pode nem consegue resolver tudo. Tão importante quanto se preparar para o pior, seria que o Governo Federal, os estaduais, e municipais, das cidades-sede, começassem, desde já, a mapear e a negociar com os movimentos que pretendem se manifestar durante o evento.
Tal medida – talvez no molde de audiências e convocatórias públicas – poderia ajudar a preservar o direito à livre manifestação, garantindo, ao mesmo tempo, um nível mínimo de organização para os protestos.
Dessa forma, seria possível evitar, ou diminuir, a sua “contaminação” por sabotadores de diferentes tipos, que se infiltram na multidão para promover o caos.
Basta acompanhar seu discurso e opiniões na internet, para saber quem eles são. Estão mais interessados em combater o regime democrático e incendiar o país, do que em lutar pela melhoria das condições de vida da população.
Iniciativas conjuntas como “Comitês Populares da Copa”, os coletivos “ninjas” de mídia alternativa, o próprio Movimento Passe Livre, podem monitorar e controlar as manifestações, identificando e combatendo os vândalos, infiltrados e sabotadores.     
Muitos esquecem que, para o bem e para o mal, a Copa do Mundo não pertence nem ao PT, nem à oposição. Embora nem os que ficam em casa nem a maioria dos manifestantes tenham parado para pensar, ela pertence ao país como um todo.  
O vandalismo, quando dirigido para a destruição do patrimônio público e privado - como estádios, lojas, aeroportos e caríssimos equipamentos de mobilidade urbana como as novas estações do BRT, construídas com recursos federais, estaduais, municipais -  prejudica igualmente a todos os brasileiros,  qualquer seja sua posição política.     
Os sabotadores de extrema direita, abrigados nos vídeos do Youtube e nas páginas de apologia ao golpismo, da violência e da tortura nas redes sociais – que o Governo e o Judiciário parecem fazer questão de continuar a ignorar – não irão para as ruas a favor de certo partido ou candidato nas eleições deste ano.
Seu objetivo é destruir a democracia brasileira e fazer tudo o que estiver ao seu alcance, para promover e incentivar a quebra do Estado de Direito, aproveitando o palco gerado pela visibilidade do país em 2014.
Precisamos lembrar que a Copa passa e a Nação fica.
É, portanto, também contra os inimigos da democracia, que as instituições, os governos de situação e de oposição, e os movimentos sociais terão que se organizar e tomar posição, nos próximos meses.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O HOMEM E O TEMPO



(JB - Primeiro de Janeiro) - Sem poder dominar o tempo, e o inevitável ciclo da vida, o homem passou a medi-lo, e tentar compreendê-lo, a partir da observação da natureza. O primeiro relógio foi o Sol - e disso nos deixaram testemunho os arabescos rabiscados nas paredes das cavernas e as civilizações antigas. Separados, na imaginação humana, os dias e as noites - ou melhor, feita a luz, no gesto primevo de que  fala o Genesis - passamos a dividir a existência pelas estações, as chuvas e as secas - que ganharam importância com o advento da agricultura - pelo movimento dos astros, os relógios de sombra, de água e de areia,  os solstícios e as festas da colheita. O fascínio pelo tempo levou-nos ao pêndulo e às engrenagens, à vibração dos átomos, à matemática e à física, à computação, às teorias, como a da Relatividade, ao microcosmo que se mede em nanômetros, ao universo quântico.
Neste terça,  completamos, pelo Calendário Gregoriano, mais um ano, o de  2013. Isso nos faz lembrar que sem os algarismos e a noção de tempo, a História, provavelmente, não existiria. Não teríamos como datar o passado da nossa espécie. Nem como compreender o presente fugaz e complexo que nos cerca. E nossas visões de futuro estariam relegadas - como no passado - à leitura das vísceras dos pássaros e à interpretação das profecias dos xamãs e das sacerdotisas.
Guardadas as devidas proporções, a história humana continua sendo a de um frágil conjunto de átomos, organizado em células e neurônios, perplexo diante do milagre da vida, e dedicado a postergar ou trapacear o fim inexorável.
Há aqueles, como Alexandre o Grande, Átila, ou César, que  conquistam ilhas, montanhas, continentes, e constroem pirâmides e cidades para permanecer além do tempo. Há os que buscam o poder para exercê-lo sobre quem o cerca, valendo-se de seus bens ou de sua posição, como se cada instante de controle sobre outro ser humano, dilatasse os seus próprios momentos neste mundo.
Há, ainda, como Homero, Caravaggio, Lorca, Michelangelo, Picasso, Violeta Parra, Chaplin, Aleijadinho, quem prefira legar ao mundo o seu talento e o seu espanto, a beleza dos versos e das formas, das cores, dos gestos e do sonho.
E há, finalmente, aqueles, entre os quais se incluem também certos artistas e poetas, que preferem enfrentar a morte, olhando-a nos olhos e combatendo tudo que a representa. A miséria e a injustiça, a fome, a desigualdade. O racismo e o ódio, o egoísmo, a violência, a brutalidade.
Esses são os que curam os pobres e humildes, os que ensinam a ler e a pensar a quem não sabe; que desvendam os males dos vírus e bactérias; os que forjam novas idéias e movimentos. E criam vacinas, alimentos e fontes de energia mais baratas, não com a intenção do lucro, mas para mostrar que é possível. Que a vida pode ser vitoriosa,