quarta-feira, 23 de abril de 2014

A UE E O MERCOSUL


(Hoje em Dia) - O governo argentino anunciou, na semana passada, que está disposto a entregar uma lista que contempla o corte de tarifas de 90% dos produtos que importa da União Europeia, no âmbito do acordo que está sendo negociado entre a UE e o Mercosul. O Brasil já teria feito o mesmo e as próximas reuniões entre os dois blocos se dariam em maio e junho deste ano.

Na base do morde-e-assopra, no entanto,  ao mesmo tempo em que negocia conosco um acordo de livre comércio, a Europa está dando início a processos contra o Brasil na Organização Mundial do Comércio.

Cinicamente – são os primeiros a levantar a bandeira da defesa da natureza amazônica – eles questionam os incentivos tributários dados à Zona Franca de Manaus, uma opção alternativa de desenvolvimento não predatório para a região.

E querem acabar com incentivos tributários e tarifas de importação para eletrônicos, celulares e automóveis, que beneficiam, principalmente, empresas europeias que operam em nosso país e daqui mandam, todos os anos, bilhões de dólares em lucro para o território europeu.

Nos últimos dez anos, o Brasil teve 50 bilhões de dólares em lucro no comércio com o Mercosul. A única esperança que tínhamos, residia, no futuro, no estabelecimento, como fez a Alemanha, na Europa, ou os EUA, no continente norte-americano, de um mercado cativo para “nossas” indústrias, capaz de alavancar e sustentar nossa posição estratégica e geopolítica no mundo.
  
No lugar disso, estamos entregando aos outros um mercado de mais de 400 milhões de pessoas, em acordo que deverá ser rapidamente assinado, mais por razões políticas e eleitorais do que por conveniência ou defesa dos reais interesses da Nação.

Não contente de estabelecer sobretaxas contra produtos brasileiros e de subsidiar suas exportações de alimentos, destruindo e sabotando nossos mercados lá fora, a União Europeia pretende deixar de ter que instalar fábricas aqui dentro para produzir manufaturas, mesmo que seja para atender o mercado brasileiro.

Eles querem regredir três séculos para um modelo mercantilista que exige acesso  completo a nossos portos para suas exportações industriais, em troca de aumentar– teoricamente – a importação  de nossos produtos agrícolas.

Com o baixo custo da energia paraguaia, o gás argentino e boliviano, o petróleo brasileiro, venezuelano, equatoriano, as exportações agrícolas e minerais, unidos e fechados, teríamos toda a condição de atrair e gerar capitais e indústrias.

Se abrirmos em 90% nosso mercado para economias altamente subsidiadas e desleais no comércio, estaremos, aí, sim, condenados ao subdesenvolvimento.
  
A China, do alto de seus quase quatro trilhões de dólares em reservas internacionais, e prestes a alcançar o posto de maior economia do mundo, não tem acordos de livre comércio nem com a Europa nem com os Estados Unidos.


sexta-feira, 18 de abril de 2014

O G-20, OS BRICS E A REFORMA DO FMI.


(Jornal do Brasil) – Em seu comunicado final, ao fim da reunião da semana passada, os ministros das finanças e presidentes dos bancos centrais da maioria dos países do G-20, mandaram um recado a Washington, declarando-se “profundamente decepcionados” com os Estados Unidos pela demora na ratificação dos acordos de reforma do FMI, aprovados em 2010.

A reforma do Fundo Monetário internacional pretende dar maior peso aos países emergentes na instituição, diminuindo a importância, as cotas e o poder de decisão de nações europeias cuja economia perdeu importância relativa nos últimos anos.

A reforma, nos moldes em que está, precisa ser aprovada pelo legislativo dos países membros, e se encontra  travada no Congresso dos Estados Unidos, há quatro anos, embora já tenha recebido o aval de 144 países, ou 76% do total de votos da organização.

Por causa disso, autoridades como o Presidente do G-20 financeiro, o ministro australiano do Tesouro, Joe Hockey, e o próprio ministro brasileiro da Fazenda, Guido Mantega, disseram que, se nos próximos meses, não se superar o impasse, “alternativas” seriam buscadas, juridicamente, para superar o bloqueio do Congresso dos EUA.

Não é apenas a paciência do G-20 que se está esgotando com a posição norte-americana quanto ao FMI, mas, principalmente a do BRICS, cujos países serão beneficiados com um aumento em seu poder de voto equivalente a 6% das cotas da instituição, fazendo com que chegue a 14,1%, se aproximando do peso dos próprios EUA.

Nos dias 15 e 16 de junho, logo após a Copa, os líderes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, se reunirão, no Brasil, em Fortaleza, no Ceará, para sua cúpula presidencial de 2014.

No encontro devem ser discutidos dois temas: a criação de um Banco de Desenvolvimento para o BRICS, com um capital inicial de 50 bilhões de dólares; e de um fundo de reservas, que, na verdade, funcionaria como um embrião de um futuro FMI comandado pelos países emergentes, com capital também inicial de 100 bilhões de dólares.

Embora o fim dos BRICS esteja sendo cantado, há anos, em verso e prosa, pela imprensa ocidental - e por países que não tem nenhuma condição de  entrar para o grupo, como o México - o fato é que Brasil, Rússia, Índia e África do Sul, crescem na média, mais que os EUA e a Europa; têm, juntos, um PIB de 16,2 trilhões de dólares, superior ao da Zona do Euro; e até 2018, segundo o próprio FMI, a renda per capita de seus 3 bilhões de habitantes deve crescer 37%.    
    
Começando como uma sigla econômica, imaginada por um economista da Goldman Sachs, Jim O´Neill, o BRICS é, hoje, por mais que isso não agrade a alguns, uma aliança estratégica de alcance global, que mudará a história do mundo nos próximos anos. 

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http://www.dirigida.com.br/news/pt_br/mauro_santayana_o_g_20_o_brics_ea_reforma_do_fmi_vermelho/redirect_17243019.html 

    

terça-feira, 15 de abril de 2014

A MULHER DE CÉSAR


(Jornal do Brasil) - Depois de pedir licença de seu mandato, o Deputado André Vargas renunciou à Primeira Vice-Presidência da Câmara dos Deputados, após instauração de processo no Conselho de ética da Casa, para apurar denúncias contra ele, a propósito de suas relações com o doleiro Alberto Youssef, detido pela Polícia Federal em uma operação que investiga lavagem de dinheiro.

O envolvimento de André Vargas com o doleiro teria vindo à tona a partir do pedido de  “empréstimo”, feito pelo deputado, de um jatinho, para viajar de férias a Youssef.

Nos últimos tempos, já houve casos de quem viajasse em avião público por questões estéticas; de quem pegasse carona em aeronaves destinadas a atendimento médico; de quem tivesse a própria aeronave apreendida com substâncias proibidas.

Há grandes e pequenos escândalos, e episódios que são vistos, por alguns, como “pecadilhos”, que atingem, infelizmente, de forma indiscriminada, partidos das mais variadas legendas, tendências e orientação política.
Embora quase todo mundo tenha um lado, e nem sempre os fatos sejam abordados com o rigor, a honestidade e a isonomia que merecem – há assuntos que são  rapidamente julgados enquanto outros passam anos sem ser sequer investigados - a verdade é que leis como a da “ficha limpa” e a do voto aberto para o julgamento e a cassação de parlamentares já deveriam ter sido vistas,  por todos, como sinal de alerta e mudança nos  riscos e cuidados da vida pública.

Para gregos e troianos da odisseia política brasileira, talvez nunca seja demais lembrar a frase atribuída por Plutarco a certo prócer romano, ao repudiar sua mulher, filha de Quintus Pompeius Rufus: “à mulher de César, não basta ser honesta, é preciso parecer honesta”.

Embora a expressão, para alguns, coloque as aparências na frente da verdade, ela reflete a necessidade do rito; da manutenção de regras básicas de convívio e de respeito entre pares e por seus eleitores; e até por si mesmos, no exercício da atividade pública, no sentido de que todos deveriam se dedicar ao objetivo de mantê-la, sempre que possível fosse, ao abrigo de qualquer suspeita.

Ao colocar seu comportamento em dúvida, estendendo o opróbio e a desconfiança da população sobre a atividade política e a instituição de que toma parte, o homem público não macula apenas a si mesmo.

Ele agride e arrasta na lama a imagem da Democracia que, como à mulher de César, não deveria bastar que fosse – majoritariamente - honesta, mas também que assim transparecesse aos olhos da Nação. 

Há lugares, como o Uruguai, em que o Presidente anda de fusca.

No Brasil, escancarar o convívio, até em festas e redes sociais, com bicheiros, lobistas e doleiros, está ficando mais comum, nos últimos anos, do que o prosaico gesto de passar pelo check-in e embarcar em um avião de carreira. 

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sábado, 12 de abril de 2014

A VEZ DE DONETSK


(Jornal do Brasil) - Manifestantes que ocupam, há dias, instalações públicas em Donetsk, na Ucrânia, proclamaram, unilateralmente, uma “República Popular”, na província em que se fala russo. E falam em convocar um referendo para sua anexação à Rússia, para o próximo dia 11 de maio, nos moldes do que foi feito na Crimeia no mês passado.

As autoridades policiais não resistiram nem tentaram conter os manifestantes.

Em outra cidade, Lugansk, manifestantes favoráveis à Rússia ocuparam a sede dos órgãos de segurança, e fizeram o chefe de polícia - que também não resistiu - libertar dezenas de prisioneiros favoráveis a Moscou que estavam detidos há alguns dias.

Em Kharkov, segunda maior cidade ucraniana, e centro industrial do país, houve enfrentamento entre habitantes de língua russa, que ocuparam a sede do governo local, e manifestantes fiéis ao golpe desfechado contra o Presidente Yanukovitch em março.

Embora as novas “autoridades” ucranianas estejam acusando o serviço secreto russo pelos tumultos, a verdade é que o apoio ao governo golpista é cada vez menor, e boa parte do território ucraniano é ocupado por habitantes de origem russa, que se recusam a se aproximar do Ocidente e se sentem ameaçados pelos golpistas de extrema direita que estão no poder em Kiev.

Eles viram que, ao contrário do que ocorreu na “libertação“ do Iraque, do Egito, da Líbia, do Afeganistão, pela OTAN, onde morreram - e continuam perdendo a vida - centenas de milhares de pessoas, a “russianização” da Crimeia foi feita em poucos dias, e quase sem violência.

O fato é que, assim como fez, em muitos outros lugares, supostamente em nome da “democracia”, o Ocidente desestruturou completamente uma Nação que se encontrava institucionalmente unificada, funcionava razoavelmente dentro da lei, com um Presidente eleito diretamente pela população, e aguardava pacificamente as próximas eleições, porque não queria que a Ucrânia “caísse” sob influência de Moscou.  


Como demonstra a situação em Donestk e em Kharkov, a influência russa na Ucrânia, do ponto de vista político, econômico, cultural, já existia, é muito maior do que se pensa na Europa e nos EUA, e permeia vastas regiões e milhões de habitantes, que se sentem russos.

A Rússia está em seus corações e mentes. Eles vivem, como russos, há séculos. E caso não haja um processo efetivo de federalização, é mais fácil que a Ucrânia se divida - a partir da fragmentação irresponsavelmente iniciada em Maidan - do que eles virem a se inclinar para o lado contrário, o dos golpistas neofascistas que tomaram o poder de assalto, em Kiev, há poucas semanas.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

A CANIBALIZAÇÃO DOS PORCOS E A ALIMENTAÇÃO DOS HOMENS


(Jornal do Brasil) - Os suinocultores brasileiros estão pedindo ao Ministério da Agricultura – que está “estudando” o assunto - a adoção da suspensão da importação de plasma, material genético, e animais reprodutores dos EUA. 

Os Estados Unidos estão enfrentando, neste momento, uma epidemia do vírus da DES - Diarréia Epidêmica Suína, que chegou aos EUA no ano passado, e já atingiu outros países americanos, como o México, Canadá, República Dominicana, Colômbia e Peru, nos dois  últimos casos, países que fazem fronteira com o Brasil.




Mais que com animais vivos, e com material genético, a preocupação de técnicos e veterinários está voltada para o plasma de sangue de suínos importado dos EUA para completar a ração que é dada aos nossos suínos, o que lembra a velha expressão de que “ do porco só não se aproveita o berro”, e nos revela a existência de práticas de vampirismo dignas de um romance como “Crepúsculo” estreado por porcos, como símbolo do ponto a que chegou o capitalismo na canibalização das espécies em prol da busca desenfreada do lucro.
   
O uso de proteína derivada da carne, sangue e ossos de mamíferos para a alimentação de animais que não precisam necessariamente disso em sua dieta - principalmente quando derivada da própria espécie - não é boa conselheira.




Primeiro, porque se o plasma fosse bom, os Estados Unidos o estariam usando para completar a  alimentação de seus próprios suínos, e não enviando-o para outros países.  




E, em segundo lugar, por causa do impactante exemplo da “vaca louca”, doença que levou ao abate de milhões de reses e trouxe centenas de bilhões de dólares em prejuízo a pecuaristas do dito Primeiro Mundo, justamente por causa da utilização de farinha de carne e ossos de mamíferos contaminados com Encefalopatia Espongiforme Bovina, para completar a ração normal de animais da mesma espécie.




A “vaca louca” levou à proibição, na Inglaterra, a partir de 1996, de qualquer proteína animal na alimentação de ruminantes. A essa altura, a doença já havia se espalhado - por meio da exportação de animais para reprodução e de farinha de ossos e carne pela Inglaterra - para várias partes do mundo, causando enorme prejuízo econômico e colocando em risco milhares de vidas, já que ficou provada depois a sua relação com o aparecimento em humanos de uma nova variante da  doença de Creutzfeldt-Jakob, que é provocada pelo consumo de produtos bovinos contaminados.




Considerando-se a íntima relação mercadológica e regulatória entre os Estados Unidos e a Inglaterra, é preciso saber se, devido à “vaca louca”, estendeu-se  a proibição do uso de proteína de mamíferos vigente na Grã-Bretanha aos EUA, e se a mesma lei vale para suínos. Assim, descobriríamos porque os EUA nos exportam - e não consomem em sua própria ração - o plasma que retiram do sangue de seus porcos.    

A vinda à luz desses aspectos, no mínimo, controversos, da Guerra dos Porcos, no contexto da batalha mundial da produção e consumo de proteína animal pelo mercado humano, exige, da parte do Governo Federal, duas atitudes:




Proibir imediatamente - por meio da ANVISA e do Ministério da Agricultura -  o uso de proteína animal - ou, ao menos, de mamíferos - na alimentação de porcos, aves e bovinos.




Aceitar o pedido do setor, de imediata imposição de barreiras à entrada de suínos vivos e de seus subprodutos - principalmente o plasma - de fora do país.




Isso tem que ser feito não apenas por uma questão sanitária, mas também de marketing e de geopolítica. O Brasil não pode, justamente agora, que está a ponto de substituir - devido à questão da Crimeia  - os Estados Unidos como fornecedor de carne suína, bovina e de aves, para a Rússia, permitir que surja o mínimo empecilho no aproveitamento dessa oportunidade.




Isso, sem falar da possibilidade, que não se deve descartar, do aparecimento - devido à importação de “insumos protéicos” de outros países - de graves doenças que podem afetar a saúde da população brasileira.    

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domingo, 6 de abril de 2014

A VALE E SIMANDOU – PODER E MATÉRIAS-PRIMAS NO SÉCULO XXI.



(Jornal do Brasil) - O advento de novas tecnologias não foi suficiente pra diminuir o apetite do mundo pelas matérias-primas, que continuam, hoje, tão estratégicas como eram no final do século XIX e no início do século XX.

Como ocorria nos anos da Belle Époque, e da divisão da África pelas potências coloniais europeias, na Conferência de Berlim de 1884, a disputa de países e empresas por minério de ferro e outros insumos é ferrenha, e envolve lances, obstáculos e desafios que lembram, em tabuleiro gigantesco, uma complicada partida de xadrez.
  
Na última semana, após longas negociações, a Vale reconheceu, finalmente, que pode vir a ter que assumir um prejuízo de 507 milhões de dólares, aplicados na compra de parte dos direitos de exploração da jazida de minério de ferro de Simandou, na Guiné, uma das maiores do mundo.

O imbróglio envolve a anglo-australiana Rio Tinto, a Vale e a BSGR, pertencente ao israelense Benny Steinmetz.  A Rio Tinto, segunda maior produtora global de minério de ferro, adquiriu os direitos de exploração de Simandou em 1997.

Em 2008, o governo guineense alegou que a empresa estava atrasando o desenvolvimento do projeto e passou metade desses direitos ao empresário israelense  Benny Steinmetz.

Steinmetz, por sua vez, vendeu metade do negócio à Vale, em 2010, pelo valor de pouco mais de 2.5 bilhões de dólares, dos quais 507 milhões já foram pagos.  Para tocar o negócio, as duas partes montaram uma joint venture chamada VBG, com 51% de capital brasileiro e 49% da contraparte israelense.

No final de 2010, um novo governo, o de Alpha Condé, assumiu o poder na Guiné, e surgiram denúncias de corrupção no processo de concessão dos direitos minerários à BSGR, que levaram um comitê investigativo a recomendar ao governo a suspensão dos direitos de exploração concedidos a Steinmetz, e, por extensão, aos seus sócios brasileiros, que, agora,  provavelmente terão que arcar com o prejuízo.

A instabilidade política na África afeta investidores de todos os quadrantes. Até mesmo a China, cujo apetite por recursos naturais no continente foi extremamente aguçado nos últimos anos está revendo sua estratégia na região.

O Presidente do Conselho de Administração da China National Petroleum Corporation, Zhou Jiping, anunciou em entrevista, recentemente, o fim da era dos investimentos pesados.

Em 2012, a CNPC – uma estatal pertencente ao governo chinês - aplicou mais de 50 bilhões de dólares no exterior, e essa quantia deve cair, paulatinamente, nos próximos anos.

Para isso, foram determinantes os percalços sofridos por Pequim no continente africano. Se a Vale se arrisca a perder 507 milhões de dólares em Simandou, os chineses perderam 20 bilhões de dólares em projetos de exploração de petróleo  na fronteira entre o Sudão do Sul e o Sudão, que tiveram que ser abandonados devido a combates na região.

Isso, sem falar de bilhões de dólares perdidos no Irã, e em projetos de exploração de petróleo na Líbia, que se esfumaçaram com a destruição do país após a intervenção ocidental e a derrubada de Khadaffi, em 2011.

A relutância chinesa em continuar a expansão da compra de ativos em algumas regiões, diminuindo sua exposição na África, pode ajudar exportadores de minério mais tradicionais, como a Austrália e o Brasil. Por um lado, os chineses podem vir a adquirir participações por aqui. Por outro, a interrupção de vários projetos em andamento, garante a continuidade da aquisição de minério de ferro no exterior. Nos dois casos, ajudaria se a participação do governo na Vale fosse maior, e seu lucro ajudasse não apenas a seus acionistas, mas a todos os brasileiros. As ações da empresa estão subvalorizadas, e o BNDES poderia aproveitar para comprar parte delas agora, para ajudar a recuperar seu valor em bolsa, e, eventualmente, vender parte delas mais tarde, quando a “crise” passar. 

A verdade é eu, apesar de tudo, ainda há quem aposte na África. O gigante anglo-suiço Glencore Xtrata, anunciou nesta semana importantes avanços na sua negociação com a estatal SNIM – Societé Nationale Industriélle et Miniére, da Mauritânia, para ter acesso a ferrovias e portos que permitirão  o transporte e a exportação do minério de ferro das jazidas de Askaf, extraídas em parceria com o governo mauritano.    

As commodities, no entanto, não bastam para assegurar o desenvolvimento.
O corte, pela ALCOA, de 147 mil toneladas na produção de alumínio primário em suas usinas de Poços de Caldas, Minas Gerais, e São Luís, no Maranhão, anunciada também esta semana, mostra que existem certos setores que não podem ficar apenas em mãos da iniciativa privada, principalmente quando se trata de capital estrangeiro.

Países podem adotar medidas que tenham a ver com os interesses de seus povos. Empresas fazem a mesma coisa, levando em conta, prioritariamente, os interesses de seus acionistas.       

Com a decisão tomada pela ALCOA, mesmo sendo o terceiro maior produtor de bauxita do mundo, o Brasil voltará a importar alumínio, produzindo, neste ano, apenas 1.1 milhão de toneladas das 1.5 milhões de toneladas que consome. 

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terça-feira, 1 de abril de 2014

O MUNDO PÓS-CRIMEIA


(Jornal do Brasil) - O G-8, que agora volta a ser G-7, “expulsou” na semana passada, a Rússia, depois de suspender a reunião que haveria em Sochi. A reação do chanceler Serguei Lavrov foi a de declarar que, como grupo informal, o G-8 não pode expulsar ninguém, além de lembrar que, para Moscou, comparecer ou não a essas reuniões não muda absolutamente nada.

Pertencer ou não ao G-8 é uma questão irrelevante para os russos, que se sentem muito mais à vontade com os BRICS- justamente o grupo que fomentou a criação do G-20, em contraposição ao clubinho que tradicionalmente reunia as maiores – e agora não tão poderosas - economias do Ocidente.

Tanto isso é verdade que os BRICS, reunidos a margem da Cúpula de Desarmamento Nuclear, em Haia, declararam apoio à Rússia, com relação às sanções unilaterais impostas - sem aprovação da ONU - pelos países ocidentais.

Além disso, o Grupo também deixou claro, no comunicado conjunto emitido ao final da reunião, que não aceitará a suspensão – anunciada pela Ministra das Relações Exteriores da Austrália, Julie Bishop – da  participação russa na próxima Conferência do G-20, que será realizada no mês de novembro, em Brisbane.

Os BRICS controlam um quarto dos votos do G-20, no qual costumam votar juntos, assim como no Conselho de Segurança da ONU.

Com a “expulsão” da Rússia do G-8, o que muda no mundo pós-anexação da Crimeia?

Longe de isolar Moscou, os EUA e a UE estão conseguindo apenas reforçar os laços que a unem ao resto do mundo, começando por Pequim, Nova Delhi, Brasília e e Johannesburgo.

No dia 18 de março, Dimitri Peskov, o porta-voz do Kremlin, já anunciou o que vem por aí, ao afirmar que, se a UE e os Estados Unidos insistirem nas sanções, a Rússia irá cortar as importações de produtos europeus e norte-americanos.

Com 177 bilhões de dólares em superávit no ano passado, e quase 600 bilhões de dólares em reservas internacionais, a Rússia é um dos maiores importadores de alimentos dos EUA e passaria a comprar os grãos, a carne e o frango de que necessita do Brasil.

Com relação à questão geopolítica, a reação do Ocidente à ocupação, pelos russos, de um território que historicamente lhes pertenceu até a década de 1950, e que só deixou de estar associado à URSS há coisa de 30 anos, alertou e está aproximando Pequim, Moscou e Nova Delhi.

Os três tem interesse em estabelecer uma zona de estabilidade no espaço euroasiático – Rússia e China já fazem parte do Acordo de Xangai – e em manter os países   que estão em suas fronteiras longe da interferência ocidental.

A Alemanha - que conhece melhor os russos que os norte-americanos - já entendeu isso.

Der Spiegel divulgou, na semana passada, que a Rússia e a China “se preparam para assinar um acordo de cooperação político-militar” que poderia estabelecer uma plataforma de defesa necessária à geração de um “novo reequilíbrio de forças no âmbito mundial”.

Os chineses se abstiveram oficialmente na votação a propósito da Resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre o referendum da Crimeia. Mas o jornal do Comitê Central do Partido Comunista Chinês, o Renmin Ribao – Diário do Povo, não deixou dúvidas sobre qual é a posição de Pequim, ao afirmar, em editorial, que: “o espírito da Guerra Fria está se debruçando sobre a Ucrânia”, o que transforma “a aproximação estratégica entre a China e a Rússia em um fator-âncora para a estabilidade global” – e que “a Rússia, conduzida por Vladimir Putin, deixou claro para o Ocidente, que em uma Guerra Fria, não há vencedores”. 

O que pode mudar nesse novo mundo pós- anexação da Crimeia, para o Brasil?

Segundo maior exportador de commodities agrícolas e o primeiro em carnes, o Brasil tem que aproveitar o momento para se posicionar como um sócio estratégico para o abastecimento dos russos, nesse quesito, mostrando também a chineses e indianos, grandes clientes do agronegócio brasileiro, que é um fornecedor confiável, que pode substituir os Estados Unidos no atendimento ao BRICS, enquanto estes não puderem alimentar seus cidadãos com produção própria.

Fora isso, é preciso também aproveitar a era pós-Criméia para renegociar as parcerias, do ponto de vista tecnológico e comercial, com relação a esse Grupo, que domina mais de 40% da população e da extensão territorial e um quarto do PIB mundial.

Ao contrário do que ocorre com a UE e os EUA, fortemente protecionistas e intervencionistas, que sobretaxam as importações e gastam, em áreas como a agricultura e a defesa, centenas de bilhões de dólares em subsídios, o Brasil tem conseguido aumentar seu superávit com os outros BRICS nos últimos anos, mesmo que ainda não tenha se inserido na cadeia de produção e consumo de bens de maior valor agregado desses grandes mercados.

Parte disso decorre, também, da falta de  estratégia e de sobrados preconceitos de parte ponderável de nosso empresariado.

Quantos shoppings centers brasileiros existem na China?  E em Moscou ou São Petersburgo? E em regiões de altíssimo poder aquisitivo dessas cidades? Quais são as marcas brasileiras de excelência, nos ramos  têxtil, de calçados, de perfumaria, que os chineses e os russos conhecem? Que restaurantes, que franquias?

Pródigo em emprestar bilhões de dólares a multinacionais que operam aqui dentro, o BNDES precisa reunir a APEX e o pessoal da área de varejo de luxo, para estabelecer uma estratégia de inserção do Brasil nos BRICS – e de resto na África e na América Latina - que vá além da realização de feiras e do café, do açúcar, do couro, do minério de ferro, da soja e do suco de laranja. 

Precisamos – e o momento é propício para isso - começar a incentivar e dar decidido apoio à internacionalização de empresas brasileiras, para que comecemos a receber algum dinheiro do exterior - ou em breve nos converteremos apenas em uma reserva de mercado para investidores estrangeiros, que sugaram do país, no ano passado, em remessas de lucro, quase 30 bilhões de dólares em reservas internacionais.

O fortalecimento da Rússia, da China e da Índia interessa ao Brasil, não apenas do ponto de vista econômico, mas, principalmente, do geopolítico.

Essas são as únicas nações que podem impedir, em um futuro próximo, a consolidação do projeto anglo-saxão de domínio que promoveu um verdadeiro assalto ao resto do mundo, nos últimos 200 anos.

Os BRICS – incluindo o Brasil – não podem derrotar os Estados Unidos e a União Europeia.

Mas os EUA e a UE também não podem derrotar os BRICS. E para o futuro do mundo, é isso o que importa. 

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http://www.vadcnete.com/2014/03/o-mundo-pos-crimeia.html