terça-feira, 3 de junho de 2014

A EUROPA E A ASCENSÃO CONSERVADORA


(Jornal do Brasil) - Com uma plataforma radical de direita, Marine Le Pen, a filha do líder francês  Jean Marie Le Pen, da Frente Nacional,  foi a grande vitoriosa francesa nas eleições europeias,  ficando com um de cada quatro votos válidos.  

O conservador Grupo do Partido Popular Europeu (PPE) firmou-se como a maior força das eleições europeias.

O bloco reunindo os partidos europeus de centro-direita conquistou mais de 200 assentos no Parlamento Europeu. Os eurocéticos conservadores caíram dos atuais 54 para 44 mandatos, enquanto os eurocéticos radicais, liderados pelo britânico Ukip, subiram de 31 para 36 representantes, e o bloco de deputados sem bancada, entre os quais estão também integrantes da ultra-direita, como da Frente Nacional francesa, cresceu para 38 deputados.

Na Dinamarca, os populistas de direita do Partido do Povo Dinamarquês (DF) venceram as eleições com 26,7%; no Reino Unido, o UK Independence Party (Ukip), liderado pelo carismático Nigel Farage, que defende a saída de seu país da Europa e limitações para a entrada de imigrantes, obteve quase 30% dos votos; e na Aústria a extrema direita do Partido da Liberdade ficou com mais de 20% da preferência dos eleitores.

Tendo sido forjada pelo encontro, promíscuo e fecundo, de dezenas de povos e milhões de seres humanos, de diferentes etnias, culturas e cores, árabes e visigodos, bretões e romanos, celtas e saxões, gregos e eslavos, a Europa se recusa a nova miscigenação, da qual poderia sair, talvez, mais forte e renovada para o futuro.

Enfraquecido e em crise, o continente se deixa contaminar pelo medo do outro, dos diferentes, daqueles que vivem em outras regiões do mundo.

E, como a cada vez que permitiu que o medo suplantasse a razão, a Europa se entrega ao ódio, à xenofobia, e ao populismo.

Acossada pelo fantasma da decadência, e vivendo em um mundo, no qual sua importância decresce a olhos vistos, a Europa tenta sair da crise pela via do fascismo.

Em outros tempos, não tão distantes, em termos históricos, esse caminho só levou à barbárie, ao genocídio, à destruição e à morte.

Hitler – nunca é demais lembrar – chegou ao poder por meio do voto. Pela escolha consciente de milhões de pessoas que odiavam, tanto como Marine Le Pen e seu pai, os judeus, os ciganos, os excluídos, os estrangeiros.

No pós-guerra, os alemães que votaram em Hitler na Alemanha de Weimar, e que o apoiaram esmagadoramente, até a primeira grande derrota em Stalingrado, queriam dar a entender que não o haviam feito voluntariamente, como se todos pudessem, ao mesmo tempo, ter sido enganados e manipulados por um só homem.

Hoje, milhões de europeus estão trilhando o mesmo caminho daqueles que, com seus braços estendidos para o Fascio e a Suástica pavimentaram a rota dos campos de extermínio.


segunda-feira, 2 de junho de 2014

O NEGÓCIO DA CHINA


(Jornal do Brasil) - Em um momento em que os Estados Unidos tentam, inutilmente, isolar a Rússia, atacando-a com sanções, e enfraquecer a unidade dos BRICS, Putin viajou a Pequim e fecha o que pode ser chamado de o maior acordo comercial da história: o fornecimento, pelos russos, de 400 bilhões de dólares em gás, à China, pelos próximos 30 anos.

Aturdidos, “analistas” e observadores “ocidentais” estão fazendo força, nos diários econômicos internacionais, para ressaltar o caráter comercial do acordo. Esquecem-se, ou fingem esquecer-se, por conveniência, que  tudo, ou quase tudo, que a Rússia e a China fazem, neste novo  século, têm, em seu âmago, forte conotação geopolítica.

A decadência econômica da União  Européia, hoje, um projeto fracassado, que os alemães relutam em continuar bancando; a vassalagem européia, do ponto de vista político e militar, aos interesses norte-americanos a que cada vez mais europeus se opõem; a desorientação estratégica dos EUA, em um mundo em que sua hegemonia se esfarela a cada dia, e suas aventuras perigosas e mal sucedidas em lugares como a Síria e a Ucrânia.

São estes os fatores que estão por trás da assinatura do Negócio da China e que atraem Pequim e Moscou como gigantescos imãs, para um novo projeto euro-asiático que pode mudar o mundo.

Nessa aliança, o gasoduto previsto no contrato – classificado, ontem, por Vladimir Putin, como a maior obra do mundo nos próximos quatro anos – é apenas o primeiro passo para a ocupação e o desenvolvimento da vasta fronteira que se estende entre os dois países, e o imenso território da Mongólia, nação que também se beneficiará com o acordo.

Junto com a Ferrovia Transiberiana, e a Transmongólica, que liga São Petersburgo a Pequim, e as novas obras que estão sendo construídas para a interligação terrestre dos dois países, no que já se está chamando de Nova Rota da Seda, o gasoduto unirá, como gigantesca ponte, os países da CEI – Comunidade dos Estados Independentes,  que estão ligados a Moscou pelo passado comum soviético, e os países da OCX – Organização de Cooperação de Xangai, que, junto com a China, já representam o maior mercado do mundo.

Para se desenvolver, o projeto euro-asiático, ao qual poderá se unir, também, depois, a Índia, contará, no coração do maior continente do planeta, com dezenas de milhões de quilômetros quadrados de área e bilhões de habitantes, unindo a maior potência energética do século XXI ao maior consumidor de energia da nossa época.

Historicamente estendida entre o Leste e o Oeste, a Rússia, traz, em seu brasão, uma águia bicéfala dourada sobre campo vermelho.



A partir de agora, uma cabeça vigiará, permanentemente, o Ocidente, enquanto a outra trabalhará, junto com o Urso Chinês, na epopéia da construção da Nova Eurásia, nas vastas estepes do oriente.  

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