segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

AS AMEAÇAS DE MADAME CLINTON


A senhora Clinton fez “duras advertências” aos paises latino-americanos para que não mantenham relações cordiais com o Irã, prevenindo que isso acarretará “sérias conseqüências”. Não se referiu diretamente ao Brasil, mas, sim à Venezuela e à Bolívia. Na realidade, o recado não é para Chávez, nem para Morales: é para Lula. Morales e Chávez, em sua posição diante de Ahmadinejad, repetiram slogans conhecidos, sem conseqüências maiores. Lula foi fundo, ao defender o direito de qualquer país a desenvolver sua tecnologia nuclear, enquanto os paises detentores dos segredos atômicos não se dispuserem a desarmar suas ogivas. Lula foi claro nessa posição de lucidez, no diálogo com a chanceler Ângela Merkel, da Alemanha, sob o olhar do mundo, em direto pela Televisão.

Há uma razão adjetiva para os avisos da Secretária de Estado. O Brasil com o desempenho do chefe de Estado, está ocupando grande espaço no mundo, enquanto - mesmo com Obama - os EUA voltam a ser os agressores de sempre. O jornal El Pais publicou elogioso perfil do presidente, assinado pelo Primeiro Ministro da Espanha, José Luiz Zapatero. Depois de traçar a trajetória humana de Lula, e de examinar os êxitos de sua política econômica, concluiu o Primeiro Ministro: “A mi no me extraña nada que este hombre asombre al mundo”.

domingo, 3 de janeiro de 2010

COPENHAGE E O MITO DE PALAMEDES



Palamedes é das personagens mais instigantes da mitologia grega. Rival de Ulysses e Diomedes na Guerra de Tróia, a ele se atribuem as primeiras idéias sobre o futuro do homem. Sendo visto como homem – e não como o titã Prometeu – ele pode ser considerado o pioneiro do desenvolvimento científico e tecnológico. De acordo com o mito, a ele coube a invenção do alfabeto, do sistema de pesos e medidas, do jogo de dados, do hábito de se comer a horas certas, da técnica de cunhar moedas, da divisão do dia em horas - e outras coisas mais. Platão (República, livro VII, 522) o cita como inventor da Aritmética, e lhe credita a sabedoria tática no cerco de Tróia.
Se houvesse tempo para isso, e a Conferência de Copenhague contasse com a assessoria de filósofos, seria interessante voltar a Palamedes e a Prometeu, para o início das reflexões sobre a Terra e o destino próximo do homem. Os gregos, que descobriram todos os caminhos, foram cautelosos no emprego da tecnologia. Talvez por causa da consciência da efemeridade da vida, que Heródoto resume, ao dizer que “o homem é, em tudo, e por tudo, um objeto do acaso”, e que o saber é resultado do sofrimento.
As grandes conferências internacionais servem – e nisso são importantes – para a discussão dos problemas e a divulgação das idéias e propostas, mas raramente trazem resultados práticos. No caso do meio ambiente há razões para o ceticismo. Há 37 anos houve a Primeira Conferência sobre o Meio Ambiente, promovida pelas Nações Unidas, em Estocolmo – bem perto de Copenhague. As circunstâncias me fizeram presente ao encontro, como correspondente deste jornal. Outras reuniões, entre elas a do Rio, em 1992, e a de Kyoto, trouxeram muitas esperanças, mas as esperanças esmaeceram com o tempo. Agora, ao que parece, os Estados Unidos e a China estão dispostos a assumir compromissos – o que renova a promessa de algumas medidas.
Voltar ao Paraíso, como pensam alguns ecologistas radicais, seria voltar a uma vida só suportável porque não havia alternativa. Hoje, depois que vivemos mais e melhor, graças à ciência e à tecnologia, ninguém de nossa civilização – a não ser alguns fanáticos – estaria disposto a conviver com as serpentes e os mosquitos, o corpo desnudo, comendo raízes e lagartos. Mas tampouco poderemos continuar contaminando os céus, os mares e o solo, a menos que estejamos resignados a morrer envenenados e soterrados pelos detritos. A ciência, que nos trouxe até aqui, poderá nos salvar, desde que deixe de ser mera servidora do sistema capitalista de produção e de apropriação privada dos resultados do trabalho comum.
O problema é essencialmente político. É necessário voltar a Palamedes, a seus pesos e medidas, a seus cálculos aritméticos, à administração das horas de cada dia e dos dias de cada existência humana. Com o respeito que merece a ciência, ela não poderá – como está ocorrendo – ditar a agenda histórica dos homens, a serviço do lucro. Quando - controlada pelo capitalismo industrial e financeiro - se transforma em tecnologia, costuma perder os parâmetros éticos. Talvez o desvio tenha surgido nestes dois últimos séculos, em que a ciência exata se afastou da filosofia e, ao se afastar da filosofia, desamarrou-se do humanismo que lhe dera origem, com a perversão do Iluminismo, denunciada pela Escola de Frankfurt.
A questão maior, e para a qual o conhecimento contemporâneo já oferece soluções, é a da energia. É estranho – e inquietador – que, no mesmo momento histórico em que surgem alternativas limpas ao petróleo, imensas jazidas são descobertas, no Brasil e no mundo. Um paradoxo dessa natureza e outros da atualidade, só serão resolvidos mediante o entendimento entre a ciência e a política. Para esse entendimento é preciso sabedoria, um dos recursos do homem que foi pouco usado e parece exaurido.
O Brasil é espaço crucial dessas discussões. Temos sido pioneiros no uso de recursos energéticos renováveis, como os da geração hidráulica de eletricidade. Mas os radicais, muitas vezes a serviço de interesses externos, querem nos impedir de construir hidrelétricas, como é o caso de uma Ong qualquer que incita os indígenas contra o governo. Os índios de Belo Monte “escreveram” uma carta a Lula, ameaçando um banho de sangue, se a construção da represa prosseguir. Cabe aos responsáveis pela segurança nacional identificar que “índios” foram os redatores do documento e encontrar o texto original, provavelmente em inglês.

UM ESTRANHO COMPORTAMENTO



O homem público não deve fazer negócios, nem o negociante fazer política. Quando o homem de negócios decide entrar para a vida pública, deve separar bem os dois interesses. Os mais prudentes entregam a direção de suas empresas a sócios ou subordinados de sua confiança, a fim de se dedicarem apenas aos assuntos públicos.
Há homens de negócios – e Sílvio Berlusconi é um deles – que acham fácil comprar seus mandatos (e, de forma direta ou indireta, os compram) como adquirem uma mansão residencial, um iate de 100 metros ou uma empresa de petróleo.
Desde que começou a reunir a grande fortuna que tem, Berlusconi é acusado de não ter escrúpulos, e de se associar à Máfia. Uma grande empresa brasileira de comunicações montou, nos anos 80, com transmissores em Mônaco, emissora de televisão que tinha seus estúdios em Roma. Não conseguiu crescer, nem mesmo manter-se no mercado. Sílvio Berlusconi, já poderoso senhor da televisão, parece ter contado com seus amigos de Palermo. Os equipamentos de retransmissão da TV Monte Carlo, como as de outros competidores eram sistematicamente danificados por desconhecidos no interior da Itália.
Há quem suspeite de que, no estranho comportamento de Berlusconi haja manifestação de demência precoce. Não parece normal a atração alucinada por call-girls, o uso de sapatos de solado alto, para aumentar a estatura, o hábito de enfiar o dedo no nariz em público e sugá-lo com a boca, e gestos semelhantes, além das sucessivas gafes políticas. É difícil acreditar em sua plena lucidez.

PAISAGEM SICILIANA



O motorista do pequeno ônibus de turismo parou, a um sinal do rapaz na beira da estrada estreita, no caminho de Ragusa. Pensei que o estranho iria embarcar, mas foi o motorista que, depois de nos pedir um minuto, desceu, ao encontro do outro. Ao voltar, nos disse que uma ponte caíra, à frente, e teríamos que esperar um pouco. O pouco foram duas horas. Só o chofer era da Sicília. Todos os outros vinham do norte da Itália, menos o casal de nossa idade, que era de Nápoles. Ao lado do caminho, na encosta de uma colina, os galhos dos olivais se moviam com o vento. Na margem esquerda ovelhas pastavam. O pastor as vigiava, sentado na carroceria de uma camionete velha. Mais adiante, quase na curva da estrada, que fechava a visão do Sul, havia 4 cruzes. Achei estranho que, em estrada tão estreita, que não permitia correr, tivesse havido um acidente com quatro mortos. Meu companheiro de viagem, napolitano, disse-me, baixinho, que os acidentes tinham sido de lupara (a cartucheira siciliana), não de veículos, e fez, com o indicador, o gesto conhecido de quem preme um gatilho.
Depois de uma hora de espera, começamos a ficar impacientes. A tarde chegava e, com ela, a fome. No carro só havia água. Nada nos indicava um lugar perto onde comprar o que fosse para comer. O motorista disse que esperava um sinal de que poderíamos avançar. A ponte era pequena, de madeira, e seria reparada logo. Mais algum tempo, outro homem apareceu e disse ao motorista que devíamos voltar. O motorista nos disse que aquele percurso da excursão estaria cancelado, a menos que quiséssemos fazer uma volta de 30 quilômetros. Retornamos à estrada principal, a caminho de Agrigento, onde pernoitaríamos.
No hotel, pela televisão, soubemos que houvera um acerto de contas na estrada, com três mortos em emboscada atribuída à máfia – mas ocorrida uma hora depois que mudamos o itinerário. No dia seguinte, o motorista havia sido substituído por outro. De Agrigento, seguimos para Palermo, por outra estrada.

CONFLITOS INTERMINÁVEIS



Uma interessante teoria – de que trata Bárbara Tuchman, em sua “The March of Folly: From Troy to Vietnam” - é a de que a Guerra de Tróia não terminou. A mítica expedição a Tróia, de que alguns arqueólogos encontraram escassos indícios, cresceu em grandeza graças a Homero (ou a rapsodos mais antigos, dos quais se teria valido o poeta).
Nessa tese histórica, as guerras nunca terminam: a exaustão as suspende, em tréguas demoradas, mas elas sempre retornam, porque os conflitos só poderiam ser resolvidos pelo bom senso. E o homem é animal insensato.
O editorial de Le Monde, de ontem, trata da rivalidade entre Paris e Londres, que voltam a disputar (se é que deixaram de disputar um dia) a hegemonia econômico-financeira européia. Os ingleses, conforme o diário francês, acusam a França de agir no propósito de substituir a City como centro financeiro mundial. E os franceses se defendem. Franceses e ingleses – sem contar com confrontos ainda mais antigos – se encontram nesse jogo de distanciamentos e aproximações desde o século 14, quando se iniciou a Guerra dos Cem Anos, que na verdade durou 116 (de 1337 a 1453). Novos confrontos viriam no decorrer dos séculos e, em um deles, Richelieu se revelaria também grande guerreiro, ao estabelecer o cerco ao bastião de La Rochelle, em poder dos huguenotes, sob patrocínio britânico. Em outro, Napoleão perderia seu bastão em Waterloo.
Ingleses e franceses souberam unir-se, no século passado, tanto para o bem, como para o mal. Para o bem, juntaram-se na Primeira Guerra Mundial e na Segunda. No intervalo, vergonhosamente cabisbaixos e amedrontados em Munique, diante de Hitler, traíram seus aliados tchecos.
Os ingleses aderiram à idéia da União Européia sem entusiasmo. Não aceitaram a moeda comum, o euro, o que foi grave restrição. Os observadores europeus mais argutos viram, nessas reservas, a fidelidade de Londres ao nacionalismo anglo-saxão: aderir plenamente à Europa, fortalecê-la, debilitaria a posição imperial dos Estados Unidos. Isso explica a posição de Mme. Thatcher, quando se opôs à reunificação da Alemanha, há vinte anos. Não militaram, para suas restrições, apenas as duas guerras do século passado, em que, unidos aos franceses, os ingleses enfrentaram os alemães. Houve também a intenção de manter a Inglaterra na situação privilegiada de parceira mais íntima de Washington na Europa. Uma Europa continental fortalecida que, eventualmente estará sob a liderança de uma ou outra nação, não interessa à visão de longo prazo do país que, desde a ocupação normanda, no século 11, ainda que historicamente assimilada, olha com desconfiança para além da Mancha.
A Suécia pretende assegurar o estatuto de cidade santa de Jerusalém, e garantir a parte leste da cidade para capital de um futuro Estado da Palestina. Insurge-se o país nórdico contra a “judeização” da cidade em que nasceu o cristianismo. Os palestinos têm sido expulsos sistematicamente de Jerusalém-Leste: no ano passado foram expelidos mais de 4.700. Esta é outra questão histórica que remonta às Cruzadas e a Ricardo Coração de Leão. Mas não deixa de se relacionar também com a Inglaterra moderna, em que surgiu o sionismo, e cujo governo deu apoio político à colonização da Palestina pelos judeus da Europa.
A Argentina busca agora o apoio da Península Ibérica em suas queixas contra a União Européia, que reconheceu a soberania inglesa sobre as Ilhas Malvinas. Isso tem significado econômico importante: os britânicos calculam que haja, no mar em seu entorno, reservas de mais de 60 bilhões de barris de petróleo. A Argentina, senhora das ilhas, foi expulsa do arquipélago em 1833, por tropas britânicas, mas nunca renunciou a seu direito de soberania, reconhecido, entre outras nações, pelo Brasil. As Nações Unidas, a partir de 1965, têm instado os ingleses e argentinos a um acordo sobre as ilhas, até então de pouco valor econômico, de solo gelado e sem árvores, varrido de ventos e só coberto de pastagens para ovelhas. Em 1982, a Argentina cometeu a imprudência de tentar recuperá-las militarmente, e foi delas mais uma vez rechaçada. Na época, o Brasil negou espaço aéreo aos aviões britânicos. Washington – ao esquecer a Doutrina Monroe, contra a presença de colônias européias nas Américas – recusou-se a repor material bélico aos argentinos, não obstante os acordos entre os dois paises.

OS DESPREZADOS SINAIS DE PERIGO


No exame dos processos revolucionários da História, nota-se sempre a falta de consciência das elites políticas. Como os movimentos levam décadas, com avanços e retrocessos, os episódios passam a ser rotineiros, e sempre se espera que o tempo administre a situação. Pouco a pouco, no entanto, como previne a lógica dialética, a quantidade se transforma em qualidade: os fatos, somando-se, exigem uma reação. Nos últimos anos temos assistido, no Brasil e no mundo, a manifestações de inconformismo da cidadania que deviam assustar. Deixando de lado o que se passa em outros países, porque a cada um basta o seu cuidado, a situação em nosso país merece reflexões.
Ontem, manifestantes ocuparam as dependências da Câmara Distrital, em Brasília, impedindo a sessão ordinária da casa. Há algum tempo, a própria Câmara dos Deputados foi invadida e depredada por manifestantes. Por enquanto são grupos pequenos, mas, a cada nova manifestação, os contingentes crescem. No Rio e em São Paulo, as ações armadas lembram confrontos insurrecionais. Não se pode dar conotação política clássica aos atos de violência do crime organizado, mas é sempre política, de uma forma ou de outra, a violência armada contra o Estado. Não adianta menosprezar os capitães do crime. Eles contam com pequenos exércitos, recrutados entre os que não têm futuro, sem estudos, sem afeto, sem esperança, e sem razões ideológicas que possam contê-los.
A corrupção é um crime, como qualquer outro. Quando se rouba do Estado, rouba-se da sociedade. A sociedade não é ente abstrato: é a soma dos indivíduos que trabalham e que, direta ou indiretamente, financiam as atividades públicas. É natural que cada um dos cidadãos se sinta, pessoalmente, roubado. Roubado do dinheiro que falta para cuidar de seus filhos, dar vida mais tranqüila à família, tomar sua cerveja aos domingos com os amigos, enquanto assiste a uma partida de futebol.
O presidente da República voltou a falar em uma assembléia nacional constituinte. Essa poderá ser a saída para dotar o Estado de instrumentos jurídicos que venham a tornar mais legítima a representação popular e a dificultar os atos de corrupção, concussão e peculato. Mas será difícil adotar regras hábeis de convocação da assembléia com o parlamento que temos. Se os cidadãos se decidissem a, mediante o instrumento da iniciativa popular, exigir do Congresso essa convocação, dentro das cautelas necessárias, talvez houvesse uma saída política para a crise ética que tende a agravar-se com o processo eleitoral.
Há, entre os servidores permanentes do Estado, os que se preocupam com a necessidade de reforma das instituições para o aprimoramento ético da administração. Em Salvador se reuniu, no fim de outubro, o XIV Congresso Internacional sobre a Reforma do Estado e da Administração Pública. Entre os representantes brasileiros se encontravam o ex-ministro do STF, Sepúlveda Pertence, e o padre Ernanne Pinheiro, assessor da CNBB, ambos membros da Comissão de Ética Pública do Governo Federal. Pertence, em sua exposição, mostrou os avanços, ainda tímidos, obtidos pela vigilância dos órgãos controladores do Estado, entre eles, a própria comissão de que faz parte. Apesar de tudo isso, nós sabemos que estamos longe de impor a moralidade na prática cotidiana da administração, em todas as esferas de governo.
A convocação de uma assembléia constituinte não traz a segurança de que a situação melhore, se os eleitores não entenderem que o país não é dos banqueiros, dos grandes proprietários rurais, nem das transnacionais, que hoje dominam os parlamentos. Ele é de todos os que trabalham e produzem, e até mesmo daqueles que não conseguem trabalhar.
A melhor forma de combater a podridão está na consciência de responsabilidade dos cidadãos que exercem algum tipo de influência sobre os pouco informados. É necessário criar grupos de discussão entre os vizinhos, examinar o quadro local, levantar o passado dos candidatos, e recomendar os que tenham um passado coerente e sério. Não é difícil saber como se estão comportando os parlamentares de hoje, e identificar os que mereçam a confirmação do mandato. É fácil saber quem defende o povo e a nação e os que vendem o país e seu mandato.
No passado, os corruptos estavam protegidos pelo segredo. Hoje a tecnologia já permite gravar cenas como aquela dos três “fiéis” pedindo a seu Senhor – que não o nosso – que os proteja em suas falcatruas. Chegamos ao limite da tolerância.

QUE SE SUBVERTA O CORAÇÃO


O historiador britânico Arnold Joseph Toynbee foi criticado por ser mais moralista e cristão do que observador objetivo do curso da ascensão e queda das civilizações. Ao contrário de Marx, que subordina a História à economia, e de Spengler, que identifica determinismo na condução dos fatos humanos, no interior de cada sociedade em particular, ele não vê as civilizações isoladas. Elas se comunicam, e cada uma delas tem alguma coisa a ver com as outras. Toynbee morreu certo de que as civilizações crescem com a esperança, quando se nutrem de forças espirituais, e decaem quando seus líderes esmorecem, perdem o elã criativo, desistem da continuidade no tempo.
Quando já passara dos setenta anos, (entre 1961 e 1964), Toynbee fez as suas últimas viagens de trabalho à África. Ele se interessara pela História em Atenas, quando era ainda muito jovem e fora estudar na Grécia. Passado mais de meio século, atravessou o Mediterrâneo para examinar a diferença entre as duas Áfricas, a árabe e a negra. Seu livro, publicado inicialmente na Inglaterra, sob o título de “Between Niger and Nile” (Oxford University Press, 1965), é quase um trabalho jornalístico. Nele analisa o drama dos povos do continente, em seu esforço por livrar-se do colonialismo e, nos paises já independentes, das suas seqüelas.
No prefácio da edição francesa do livro, redigida em 26 de junho de 1972, três anos antes de morrer, Toynbee afirma que “a mais profunda necessidade da África, e, assim, do mundo, é a de que se revolucione totalmente o coração” do homem. Essa advertência, quase uma prece, cabe em situação não prevista por Toynbee naquele texto: o encontro de Copenhague. Os líderes do mundo estão em um daqueles momentos estudados por Toynbee, nos quais a sobrevivência da civilização depende da coragem de conduzir as mudanças capazes de preservar as conquistas do passado e assegurar o melhor da cultura construída. É disso que se trata. Por mais estejam presentes, na velha Dinamarca, os conselhos da ciência, o problema real está no coração dos homens.
Se fôssemos capazes de examinar a civilização atual com olhos estrangeiros, seria difícil nela encontrar alguma lógica. É uma civilização que rompe com o Humanismo que a fez surgir e que a sustentou, seja em nome da fé, seja contra a fé, durante os últimos vinte e cinco séculos. Muitos defendem a sociedade industrial que surgiu, com o refino do petróleo, há um século e meio, como um benefício fabuloso para o homem. Hoje podemos viajar rapidamente de um continente a outro. Não só vivemos mais tempo, com o progresso da medicina, como vivemos mais no tempo. Os instrumentos de comunicação e as máquinas industriais nos permitem produzir em uma hora mais do que em dias, durante o passado. De repente descobrimos que estamos envenenando a nossa casa e não temos outra disponível.
Os cientistas apontam caminhos para salvar o planeta do aquecimento provocado pela atividade humana. Mas esses caminhos, todos a partir da possibilidade de substituir os combustíveis fósseis por fontes limpas de energia, podem resolver um dos problemas, mas não todos. Temos que encontrar outros módulos para a vida, e isso depende da revolução nos sentimentos do homem, na subversão que sobreponha a solidariedade real, o humanismo real, ao egoísmo que se exacerba na ânsia de lucro do capitalismo contemporâneo.