sábado, 7 de maio de 2011

ESTUDOS SOBRE A GANÂNCIA

Em 1899, o jovem Frank Norris escreveu cortante romance sobre a ganância. Não era a primeira vez que se ocupava do capitalismo selvagem e audacioso, que crescia no território americano. Já escrevera sobre o conflito entre as empresas ferroviárias e os agricultores, cujas terras eram invadidas pelos trilhos, sem indenização justa. E em Octopus fizera o libelo contra os trustes e monopólios empresariais que se formavam naquelas décadas. Jornalista, educado em Londres e em Paris, tendo sido correspondente na África do Sul, Norris era um desses homens que combinavam a inquietação intelectual com a ação prática da vida. Entre outros, de seu mesmo nível e da mesma época, foram Jack London e Theodore Dreiser. Norris morreu aos 32 anos, em 1902.

O livro, McTeague, narra a história de dois amigos gananciosos. Um deles, falso dentista, rouba a noiva do companheiro, apropria-se do dinheiro da mulher e a mata. Perseguido pelo outro, os dois entram em luta, no Vale da Morte, e ambos morrem. A obra foi tão importante que Erich Von Stroheim a filmou, em 1924, com o título de Greed e, com tal interesse, que a versão original era de dez horas de projeção. Von Stroheim não escondeu a relação da obra com o capitalismo dos anos 20, também feito de fraudes bancárias, especulação criminosa nas bolsas, de brutal desigualdade social, economia globalizada, causas da Grande Depressão dos anos 30.

Durante as três últimas décadas, sem o eufemismo dos teóricos antigos, a máxima de Wall Street é a de que “greed is good”. A ganância é, em suma, a lei do maior lucro. Há, sem embargo, diferença considerável entre o capitalismo industrial do passado e o capitalismo financeiro de nossos dias. A eficiência do sistema exigiu, em determinado momento, que as famílias confiassem a administração de seus negócios aos profissionais. Ainda assim, manteve-se a cultura de empresa familiar, da qual o fordismo foi o grande exemplo, ao vincular o trabalhador à indústria. Em nosso tempo, as grandes empresas, os conglomerados “industriais” já nada produzem, salvo poucas exceções. São apenas instituições proprietárias de marcas e, eventualmente, de patentes, controladas pelo capital financeiro, que terceirizam tudo e praticamente não têm empregados próprios, a não ser privilegiados executivos, da mesma forma intercambiáveis e descartáveis. A pesquisa tecnológica, o design dos artigos, a ação de marketing, a produção, a distribuição - tudo é terceirizado. Da mesma forma, essas empresas terceirizadas, terceirizam as operações menores. O pessoal de limpeza e de vigilância procede desses fornecedores de mão de obra, que se assemelham aos donos de escravos de ganho, conhecidos no Brasil do passado.

Ao fragmentar-se a operação, o trabalho deixa de ser socializado, o trabalhador perde a capacidade de resistência: não há mais o companheirismo, base essencial a um sindicalismo sólido e aguerrido. Isso agrava ainda mais a alienação denunciada por Marx, principalmente em sua melhor e mais concisa obra, os Manuscritos Econômicos-Filosóficos de 1844. Nesse texto, Marx encontra a chave do sistema: “As únicas forças propulsoras reconhecidas pela Economia Política são a avareza e a guerra entre os gananciosos, enfim, a competição”.

Norris fora influenciado por Émile Zola, com seus romances naturalistas e sociais, e serviria de inspiração a três ou quatro gerações de escritores, fiéis às denúncias contra as injustiças sociais. Depois de Faulkner e Steinbeck, coincidindo com o fim da guerra, o capitalismo administraria também a literatura, mediante as grandes editoras, que publicam best-sellers, mas raramente obras comprometidas com a realidade do mundo e o humanismo. Isso explica, em parte, a impunidade dos criminosos de colarinho branco.

Henry Ford desprezava as cotações das ações em bolsa. Seu argumento era o de que o valor real de seus ativos não se alterava com a especulação dos indolentes, que viviam de negociar papéis. Ele sabia o valor de cada um de seus negócios – valor real e concreto. Aconselhava a outros empresários que não perdessem o sono com a oscilação do mercado. Suas empresas, talvez mesmo em razão disso, foram das que menos sofreram com a grande depressão dos anos 30. O grande fabricante de automóveis, não obstante as suas posições políticas discutíveis, percebeu a importância do trabalho na prosperidade dos negócios. Para ele, a sua mercadoria – o automóvel – devia estar ao alcance de seus operários. Como não podia baixar mais ainda o preço dos carros, elevou o salário dos trabalhadores, e lhes vendeu automóveis a prestações alongadas.

Anteontem, o New York Times noticiou que, não obstante a crise bancária, que ainda continua, os executivos financeiros tiveram, em 2010, substancial aumento em seus ganhos. Jammie Dimon, do JP Morgan, que havia recebido US$1.300.000 em 2009, teve sua remuneração aumentada para US$ 20.800.000 no ano passado – apesar de o grande banco continuar perdendo dinheiro. TIM Armstrong, da AOL, recebeu US$ 15,300.000 (40%) de aumento, e sua empresa continua operando no vermelho. A lista é grande. Enquanto isso, os Estados Unidos enfrentam uma dívida de quase 15 trilhões de dólares, com o déficit anual de mais de um trilhão, e o desemprego chegou a 9%, o que é um exagero para os padrões norte-americanos.

A ganância cega os homens. O que pode fazer Jammie Dimon com mais de vinte milhões de dólares por ano? Mais alguns milhões de dólares, é certo. Rico com sua arte, Chaplin, em sua autobiografia, despreza os grandes ganhos, com o argumento de que, a partir de certas cifras, o dinheiro perde a sua relação com a realidade: um homem não pode vestir dois ternos, nem calçar dois pares de sapatos, nem viver ao mesmo tempo em duas casas.

Aumentam as advertências contra a insânia da economia mundial, ditada pelos banqueiros aos governos, que eles financiam e comandam. Não são apenas os pensadores de esquerda. Paul B. Farrell, reputado economista e ex-diretor do banco de investimentos Stanley Morgan, é hoje colunista do Wall Street Journal, o diário do mercado de capitais dos Estados Unidos. Em artigo recente, que El Pais reproduziu ontem, Farrell adverte que se os ricos não pagarem os impostos necessários, que sirvam para financiar a retomada da produção e o pleno emprego, com salários justos – isso no mundo inteiro – uma revolução será inevitável. A desigualdade, nos Estados Unidos, é hoje mais grave do que em 1929 – e o fosso entre um por cento dos grandes ricos e os 99% restantes da população se tornou insuportável. Os ricos, no entanto, se movem no plano da ilusão. Eles vivem em ambientes seguros, guardados por mercenários; têm os melhores médicos e hospitais, freqüentam os melhores restaurantes, vivem em outro mundo. Vivem – diz Farrell – como os opulentos dirigentes dos países árabes, sem qualquer preocupação: bem seguros em seus palácios, com a família vivendo no fausto, felizes e distantes da realidade. Mas, tal como ocorreu no Egito, bastará uma pequena fagulha, para o incêndio revolucionário. Farrell relembra os anos loucos, os twenties, que levaram Fitzgerald a redigir o romance-inventário daquela época, The Great Gatsby. Farrell termina de forma profética, ao dirigir-se aos 99% dos outros americanos: não digam que não foram advertidos. Preparem-se para a revolução, ou para outra Grande Depressão. E, desta vez, sem Roosevelt, acrescentamos nós.

Em seu excelente estudo sobre a falta de sentido da economia moderna, baseada na ganância, Greg e Paul Davidson (pai e filho) fazem inquietante pergunta: o que difere o amor da prostituição? E respondem: o amor não tem valor de mercado. Se o amor tiver valor de mercado, podemos concluir que não se trata bem daquele sentimento que une homens e mulheres, por exigência da vida.

A sociedade não pode impedir o lucro, ou seja, a vantagem relativa obtida na troca de bens, com ou sem a intermediação da moeda, esta invenção engenhosa, que “torna iguais as coisas desiguais”, de acordo com Aristóteles (ou o pseudo-Aristóteles, de acordo com alguns autores). A sociedade organizada em estados políticos não só pode, como deve, opor limites à ganância do mercado. Entre outras razões para que os homens criassem o Estado, destacou-se a necessidade de que se impusesse a justiça. Não havendo a consciência de solidariedade, por parte de alguns, as primeiras comunidades criaram sistemas de coerção, que se desenvolveram até chegarem às complexas formas constitucionais modernas.

Um ano antes da Revolução Francesa, o abade Sieyès publicou incitante estudo – “Essai sur les privilèges”, com algumas idéias que seriam o grande motor teórico da Assembléia Constituinte. Nesse estudo, Sieyès vai ao ponto, ao afirmar que as leis garantem os privilégios que deveriam extinguir. A razão é que os legisladores, quase sempre ricos, tratam de se proteger, de assegurar suas vantagens. O controle da moeda é o principal instrumento para promover a justiça ou servir à opressão. Durante séculos seguidos, a moeda vinha sendo emitida pelos estados, qualquer fosse seu sistema, garantida por bens imperecíveis, como os metais. Mesmo assim, a moeda se funda na confiança atribuída aos que a emitem. É uma questão de fé.

O grande homem público dos Estados Unidos, no processo da independência, Roger Sherman, é autor de estudo contra o uso do papel moeda – ou de documentos nele baseados – como meio de pagamento. Ele só admitia um único meio, o metálico, em ouro ou seu equivalente em prata. Sabiamente, ele não confiava nos banqueiros. Sua lucidez, em todos os assuntos de que tratou, foi reconhecida por Jefferson, com o juízo definitivo: Mr. Sherman, de Connetticut, é um homem que jamais disse alguma coisa tola, em toda a sua vida.

Os Estados Unidos se tornaram o único país que emite meios internacionais de pagamento, desde 1944, com o encontro de Bretton Woods, quando o dólar foi reconhecido como moeda internacional – teoricamente garantido por ouro ou prata. Em 1972, Nixon mudou as regras do jogo. Com a crise do petróleo, e a fácil previsão de que o FED emitiria bilhões a fim de compensar, com a inflação, a alta do preço do combustível, houve pressão dos portadores de créditos em dólares para receber em ouro, e os Estados Unidos declararam que não mais honrariam seus bilhetes com os metais, mas sim, com os ativos nacionais, que são, como qualquer um pode concluir, intransferíveis.

Calcula-se que circulem, hoje, no mundo, mais de 600 trilhões de dólares, em moeda e em títulos norte-americanos (a maior parte deles, nos famosos “derivativos”, que trocam de dono centenas de vezes por dia, nas especulações cambiais): quarenta vezes o PIB dos Estados Unidos. Quem ganha com isso é o sistema financeiro internacional, dominado pelos estelionatários de Wall Street, de que é modelo Mr. Madoff.

Greg e Paul Davidson, em seu livro, dão o exemplo de economia solidária na reação dos homens diante das grandes catástrofes - como as inundações, os terremotos, as epidemias. O sistema financeiro internacional é mais do que terremoto, tsunami ou epidemia. Seus interesses movem as guerras, determinam o desenvolvimento tecnológico que lhes serve, destroem a natureza e pervertem os homens. Até que o instinto de sobrevivência da espécie nos salve.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

MEMÓRIAS DE ABRIL

O golpe de 1964 iniciou uma série de intervenções militares patrocinadas pelos EUA na América Latina, na África e na Ásia – guiadas pelo apetite colonialista ainda presente nos conflitos do mundo

O Brasil chegara ao fim do governo Juscelino Kubitschek em pleno processo de desenvolvimento econômico, que exigia novos passos a fim de consolidar o realizado e avançar com o mesmo ímpeto. Estávamos, para lembrar Celso Furtado, em plena construção nacional, que se iniciara com o projeto de soberania de Vargas, levado ao suicídio pelos mesmos golpistas de 1964. No plano internacional, o avanço tecnológico soviético, com os êxitos na exploração do espaço, atemorizava os Estados Unidos e seus aliados europeus. Na América Latina, a Revolução Cubana trazia nova oportunidade para os oprimidos e explorados de sempre. Como observou então o jornalista e escritor Franklin de Oliveira, não é o desespero, mas sim a esperança que faz as revoluções.

Eleito presidente, Jânio Quadros provou sua imaturidade logo nos primeiros meses. Faltava-lhe o caráter dos verdadeiros estadistas. Fraquejou diante de outro insensato de mais talento político, que foi Carlos Lacerda, e tentou o golpe com a renúncia. Naquele momento – agosto de 1961 –, estivemos a pouca distância de uma guerra civil. Como se sabe, os ministros militares vetaram a posse de João Goulart, o vice-presidente, substituto constitucional e legítimo. Imediatamente surgiu, em todo o país, a resistência civil à violação dos princípios constitucionais. Essa resistência encontrou a adesão militar do 3º Exército, de maior poder de fogo, sediado no Rio Grande do Sul, do governador Leonel Brizola. Com isso, houve certo equilíbrio de forças, o que favoreceu as negociações de Tancredo Neves, cuja habilidade impediu o desfecho sangrento.

Entre 1961 e 1964 houve a articulação da direita, com a atuação descarada dos Estados Unidos, mediante o financiamento do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), organização empresarial anticomunista, e a cooptação de deputados, senadores, oficiais das Forças Armadas e governadores. Também foram subornados jornalistas e veículos de comunicação, que – tal como ocorrera no cerco a Vargas, em 1954 – entoavam a mesma cantilena contra a “comunização do Brasil”. Os norte-americanos tinham como aliados as oligarquias rurais, organizadas contra a reforma agrária, os banqueiros, atemorizados diante de anunciada reforma bancária, a hierarquia católica, sob o comando de arcebispos ultramontanos, que se opunham, in pectore, aos rumos preconizados por João XXIII e, de certa forma, também inspiradores de Paulo VI, que o sucedeu em 1963.

O núcleo da reação empresarial foi o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), organizado em São Paulo, que se tornou o centro civil da conspiração, financiado por grandes empresas estrangeiras no Brasil e algumas nacionais, posto sob o comando do general Golbery do Couto e Silva.

A esquerda também teve sua culpa, no açodamento de alguns grupos que subestimavam a influência da classe média alienada e temerosa – envenenada pelos meios de comunicação – de ter de dividir a moradia, de perder o emprego público e até da dissolução dos costumes. Acrescente-se que as organizações de esquerda estavam infiltradas por agentes provocadores, como o cabo Anselmo, entre outros.

Foi assim que, sob a orientação direta do general norte-americano Vernon Walters, adido militar no Brasil, alguns altos oficiais, sob a direção do general Humberto Castello Branco – que fora companheiro do ianque na Itália –, passaram a preparar o golpe, para ser desferido em maio. Sabendo da conspiração, e pretendendo dela retirar proveito pessoal­, o governador de Minas, Magalhães Pinto, associou-se aos generais Olympio Mourão Filho e Carlos Luís Guedes para antecipar a operação. O êxito dos golpistas ocorreu na madrugada de 1º de abril.

A intervenção militar de 1964 iniciou uma série de outras na América Latina, na África e na Ásia, sempre sob o comando dos Estados Unidos, por intermédio da CIA. O mais cruel ocorreu na Indonésia, no ano seguinte, com quase 2 milhões de assassinados.

JADER E O JORNALISMO

A morte, há dias, de Jáder de Oliveira me leva a meditar sobre a brevidade da vida, o valor da amizade e a natureza do ofício de jornalista. O jornalista é um homem comum, que consegue ver o mundo e escrever sobre seu dia-a-dia. Não é escritor, na identificação que a sociedade dá ao homem de letras. Não é especialista em nada; flutua sobre os assuntos, como uma libélula recenseia as lagunas de águas estanhadas, com sua vegetação estranha. Sua notoriedade é efêmera. Mas, de alguma forma, os bons jornalistas têm a sua atuação gravada no tempo, e queiram ou não queiram, ao influir sobre o cotidiano, influem na História.

Jáder e eu fomos, no início dos anos 50 – mais precisamente em 1952 – os dois mais jovens integrantes da redação do “Diário de Minas”, que se editava em Belo Horizonte. O jornal pertencia a Otacílio Negrão de Lima, irmão de Francisco Negrão de Lima, embaixador, ministro da Justiça de Getúlio e futuro governador da Guanabara. Era um matutino ligado ao PSD, logo, a Juscelino. Jáder era um adolescente de 17 anos, e eu mal passara dos 19. Como éramos os mais jovens, passamos a ser, necessariamente, os mais próximos. Recordo-me que a sua juventude era tão ostensiva, que José Calazans Filho (que tinha 34 anos apenas, mas, para nós, era um velho) costumava aborrecê-lo, perguntando sempre a sua idade. Jáder, respeitosamente, respondia corretamente e Calazans resmungava um forte palavrão, depois do intróito canalha: “vai ser novo assim...”

Uma semana antes de sua morte, conversamos longamente pelo telefone. Ele, com a dignidade de sempre, e bom humor, relembrava os nossos tempos jovens, falava dos companheiros que já se haviam ido, como se ainda estivessem vivos.

Jáder era repórter esportivo então. Sempre escreveu com elegância e correção. Ao mesmo tempo se dedicava à música popular brasileira e ao rádio. Bem dotado para as línguas estrangeiras, cantava baixinho as canções norte-americanas de Jerome Kern e Oscar Hammerstein, e, mediante elas, aprendeu rapidamente o inglês. Em Londres, ao mesmo tempo em que trabalhava na BBC, foi correspondente da imprensa brasileira, trabalhando em Veja, em sua primeira fase, e em outros jornais. Sempre que podíamos, nos víamos. Visitou-me em Bonn, onde morei, e estive muitas vezes com ele e Nely, a dedicada esposa que ele buscou na Argentina, em Londres. Jáder vinha ao Brasil pelo menos uma vez por ano. Seus dois maiores amigos, bem mais velhos, aos quais ele tinha um afeto de filho – ele que ficara órfão de pai muito cedo – eram os advogados José Cabral e José Ramos Filho. Com ambos – atleticanos lendários - conversava sempre sobre futebol. E com José Ramos, a música popular brasileira era o tema de todos os encontros. Passavam horas lembrando os grandes compositores do passado, cantarolando seus sucessos. Ele sabia, de cor, todas as composições de Noel Rosa, e conhecia as circunstâncias da criação de cada uma delas.

Na última vez que visitou Belo Horizonte, já não os encontrou: Cabral morreu aos 98 anos e José Ramos era pouco mais moço quando se foi.

Jáder já estava enfermo e tinha a consciência de que dificilmente venceria a doença. Mas nada derrubava o seu bom humor. “Fiz tudo o que podia fazer”, me disse em nossa última conversa. “Agora, é esperar”. E, em seguida, lembrou um episódio de nossa mocidade, fustigando certo colega pedante que tivemos, e seu riso intenso foi cortado pela tosse. “O canalha está se vingando”, voltou a rir. O médico interrompeu a nossa conversa, explicando-me que ele estava cansado.

Quando penso em alguns companheiros de jornal, e não foram poucos, construídos com a dignidade, a modéstia e a competência de Jáder de Oliveira, sinto que vale a pena o nosso ofício.

LIL ABNER E O SUPER-HOMEM

Até mesmo por uma estratégia da natureza humana, evitamos pensar na decadência e na morte. A vida, apesar de todas as especulações transcendentais, ocorre aqui e agora, no mundo que conhecemos. E esse mundo, propriedade ideal de cada um de nós, enquanto vivemos, é a única realidade de que dispomos. Por mais pobres que sejamos, o normal é que busquemos viver com esperança. Como no belo poema musical de Chico Buarque, Pedro Pedreiro, estamos sempre esperando o melhor.

A esperança é positiva, e seu lado oposto é a ambição, que faz da felicidade um saqueio sobre a felicidade alheia. Sentimentos negativos constituem o impulso de algumas sociedades políticas. É da orientação dessas comunidades a expansão do poder sobre o espaço alheio e a coesão interna a qualquer custo. Isso ocorreu em toda a História e, nos últimos cem anos, com ferocidade crescente. Nas duas grandes guerras, movidas pela ambição expansionista, morreram dezenas de milhões de pessoas. Há aqueles que defendem as guerras, como fator de progresso, e apontam, entre outras vantagens da matança, o surgimento de remédios poderosos, como a penicilina, ou o desenvolvimento da tecnologia dos transportes aéreos.

O nacionalismo é uma ideologia positiva, quando cuida da afirmação de soberania de um povo sobre seu território, seus recursos naturais, sua cultura, sua história e suas decisões políticas. E é a mais perigosa das idéias, quando busca o domínio de outros povos. Encontrar o equilíbrio entre a auto-estima e o respeito aos outros, tanto na vida pessoal, quanto na vida das nações, é desafio permanente da razão. O mesmo desafio da razão é posto, quando se trata de identificar o momento do declínio, e administra-lo com honra. Uma das dificuldades, tanto para as pessoas, quanto para as nações, é aceitar a derrota e buscar supera-la mediante os recursos da inteligência. Os Estados Unidos, diante das sucessivas derrotas militares, entre elas, de forma constrangedora, no Sudeste Asiático, não conseguiram encontrar outro caminho para a manutenção de seu orgulho nacional que não seja o da violência e da ameaça. É certo que nenhum outro povo dispõe de armas capazes de destruir o mundo, como eles dispõem. Mas é ilusório imaginar que disponham de meios para dominar o mundo para sempre. Depois de fragmentada a União Soviética, a História, que rejeita as hegemonias definitivas, favoreceu o crescimento econômico e bélico da China, que, há cem anos era ainda uma nação humilhada pelo domínio colonial, quando proclamou sua república. Os norte-americanos terão que encontrar um modus-vivendi com os chineses, ou partir para a guerra total contra Pequim. Para isso, os norte-americanos terão que se entender com terceiros, e os terceiros são os países emergentes – entre os quais se encontram povos muçulmanos, muitos deles situados na Eurásia. A guerra total contra Pequim poderia ser a guerra total contra o mundo – e essa eles não poderão vencer. Seu único desfecho seria o aniquilamento do planeta, ou sua destruição de forma tão devastadora que o homem levaria séculos para reconstruir a civilização.

O grande líder norte-americano – esperava-se que fosse Obama – será aquele que convença seu povo a renunciar ao nacionalismo expansionista, a reduzir o poder bélico e a admitir a convivência, em igualdade de direitos, com as outras nações. Mas não será fácil renunciar a essa presumida supremacia, embora isso seja necessário à paz comum. É possível que, com o cansaço da invencibilidade do Super-Homem, os norte-americanos aceitem como modelo a modéstia de Lil Abner, que descobriu, no Vale dos Shmoos, a solidariedade que se contrapunha ao capitalismo americano. Seu criador, Al Capp, teve a coragem de, em plena caça às bruxas, criticar duramente o sistema.


OS PILARES DA MENTIRA

Em suas memórias, Known and Unknown, A Memoir, recém publicadas (Nova York, 2011), Donald Rumsfeld conta, nas páginas 208-209, o momento patético da Queda de Saigon. Ele era chefe de gabinete de Gerald Ford, que assumira o governo depois da renúncia de Nixon e devia administrar a humilhante derrota.

Segundo Rumsfeld, Kissinger assegurava, no Salão Oval, que a evacuação de Saigon já se completara, com a saída do Embaixador Graham Martin que - tal como os comandantes dos navios que naufragam - devia ser o último a escapar, quando se soube que não era verdade. O diplomata escapara antes que personalidades do governo títere e derrotado de Saigon invadissem a embaixada e esbaforidas, tentassem ocupar os últimos helicópteros, disputando espaço com os norte-americanos em fuga. Antes da reunião, o fotógrafo da Casa Branca, David Kennerly, veterano do Vietnã, saudara Ford com duas frases: “A boa notícia é que a guerra acabou. A má notícia é que a perdemos”.

Segundo o autor, alguém sugeriu que não se devia corrigir a falsa informação de Kissinger, e se ajustasse nova versão ao pronunciamento do Secretário de Estado. Rumsfeld diz ter sido contra, lembrando que tudo o que havia sido dito ao povo norte-americano não fora simplesmente a verdade. Esta guerra tem sido marcada por muitas mentiras e evasivas, e, assim, não há o direito de terminá-la com uma última mentira” – ele teria dito. Ford mandou o secretário de imprensa, Ron Nessen, dizer a verdade aos jornalistas.

No passado, a mentira podia durar muito, embora sempre tivesse pernas curtas. Em nosso tempo, os segredos podem ser guardados, como os da morte de Kennedy, mas a suspeita da mentira é tão danosa quanto a sua revelação. Os Estados Unidos sempre mentiram, a fim de tentar legitimar sua política agressiva. Todos os golpes de Estado, patrocinados pelos norte-americanos em países estrangeiros, ocorreram sob pretextos falsos. Não é necessário ir muito longe: a guerra contra o Afeganistão e o Iraque foi montada sobre os pilares das mentiras mais reles. Saddam Hussein podia ter sido cruel com os inimigos, mas o seu governo era o mais laico e menos obscurantista da região. Depois da guerra contra o Irã, ele abandonara todas as armas químicas. Não dispunha de recursos técnicos para a produção de bombas atômicas. Fotos foram adulteradas, indicando reatores clandestinos, forjaram-se depoimentos, e essas “provas” arranjadas levaram um homem tido como sério, o general Colin Powell, a mentir diante das Nações Unidas.

Poucas horas depois da morte de Bin Laden, começam a se confirmar suspeitas iniciais e perturbadoras. O saudita foi morto desarmado - e poderia ter sido capturado vivo. No avesso da lógica e da ética, Washington diz que não é preciso que o suspeito esteja armado para resistir à prisão. Osama “resistiu”, de mãos nuas, aos soldados protegidos por uniformes à prova de bala e dotados de armas potentes. O saudita tinha que ser morto, antes que pudesse dizer qualquer coisa ao mundo.

O bom senso internacional, passado o entusiasmo frenético diante da execução, começa a prevalecer, para qualificar o ato como agressão criminosa contra o povo do Paquistão e seu governo. Obama declara que agiu em defesa de seu país – e ponto. Foi como dissesse: “tenho o poder e dele faço o que quiser”.

Conta-se que, em Ialta, Churchill propôs que Hitler fosse executado tão logo reconhecido pelas tropas aliadas. Com ironia, Stalin se opôs: na União Soviética se respeitava o direito a um julgamento, conforme “o devido processo da lei”.

Como se sabe, Hitler se antecipou, matou-se com sua pistola, depois de determinar aos auxiliares que queimassem o cadáver – o que fizeram, em uma pira de molambos embebidos de gasolina.

A SEMENTE DO MEDO

Os Estados Unidos celebram a morte de Bin Laden, e um ex-embaixador brasileiro considerou-a “espetacular”.

É melhor ver a morte de qualquer homem, bom ou mau, como a morte de parte de nós mesmos. Como no belo poema em prosa de Donne, any man’s death diminishes me, because I am involved in mankind, and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee. A morte de qualquer homem me diminui, disse o poeta, porque sou parte da Humanidade, e, por isso, não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por você. Todos nós morremos um pouco, quando as Torres Gêmeas vieram abaixo, e todos nós morremos quase diariamente com os que tombam e tombaram, na Palestina, no Iraque, no Afeganistão, na Costa do Marfim, no Realengo, em Eldorado dos Carajás, na Candelária e nas favelas brasileiras.


Os americanos comemoram nas ruas a morte de bin Laden, enquanto nos países muçulmanos outros oram pelo homem que consideram mártir. Como parte da Humanidade, talvez não nos conviesse a euforia pela execução sumária de bin Laden, nem a consternação por sua morte. Os atentados de Nova Iorque – de resto, nunca assumidos de forma cabal pelo saudita – foram crime brutal contra a Humanidade, bem como todos os atos de terrorismo, ao longo das duas últimas décadas. Mas a vingança exercida pelos comandos norte-americanos não pode ser aplaudida. Foi um ato de guerra, cometido contra a soberania do Paquistão, desde que ao governo de Islamabad não foi solicitada autorização prévia para a operação – segundo informou o diretor da CIA, Leon Panetta.

Isso nos leva a outra leitura de John Donne: não pergunte que povo foi atingido pela intervenção militar norte-americana. Todos nós fomos atingidos, não só por essa operação bélica e pela agressão à Líbia, mas também, no passado, pela intromissão, política, militar, econômica, das elites que controlam o governo de Washington, desde a guerra de anexação de territórios soberanos do México, movida pelo presidente Polk, em 1846. O México perdeu a metade de seu território, e os Estados Unidos ganharam mais de um quarto do que já ocupavam no norte do hemisfério. Essa vitória excitou a voracidade imperialista dos Estados Unidos, mais tarde explícita no fundamentalismo do “Destino Manifesto”.

Devemos ser cautelosos quando procuramos entender o momento atual. Comentaristas internacionais, sob o calor destas horas, tentam pensar nas conseqüências imediatas, e há os que discutem se o homem morto em Abbottab (o nome da cidade é homenagem ao general James Abbott, que serviu nas forças de ocupação da Índia no século 19) é mesmo bin Laden – que começou a sua vida de combatente como aliado dos norte-americanos contra os soviéticos, no Afeganistão dos anos 80. Tenha sido ele, ou não, importa pouco. Osama era apenas um símbolo, na clandestinidade imposta pelas circunstâncias. O que importa, e muito, é o que virá a ocorrer não nos próximos dias, que serão de pausa e perplexidade, mas nos próximos meses e anos.

O perigo maior, e desdenhado, é o de que o conflito atual, iniciado com a ocupação da Palestina por Israel, se transforme realmente em guerra declarada entre os países capitalistas ocidentais, que se identificam como cristãos, e os muçulmanos. Quem definiu a agressão como cruzada foi Bush, ao afirmar que Deus o havia convocado a matar Saddam. E conforme o livro clássico de Essad Bey, todos os movimentos no Oriente Médio, entre eles a ocupação judaica da Palestina, se fazem na busca da posse de seu petróleo. No passado, o saqueio se fazia em nome da “civilização” e, hoje, se faz também em nome da “modernidade”.

No fundo do regozijo, há sementes de medo. Esse medo é muito mais poderoso do que foi o saudita, de 54 anos e, segundo informações não desmentidas, a um tempo amigo e sócio dos Bush nos negócios de petróleo.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

OS NAVIOS DA VALE E O FIM DA HISTÓRIA

A Vale recebeu este mês o VALE BRASIL, primeiro de sete super-navios encomendados ao estaleiro Daewoo Shipbuilding & Marine Engineering Co, da Coréia do Sul. Com 362 metros de comprimento e 65 metros de largura, a embarcação tem capacidade para 400 mil toneladas e é o maior do mundo em sua categoria. Dinheiro que poderia ficar aqui se a Vale tivesse decidido – a exemplo da Petrobras - construir grandes navios no Brasil, contribuindo decisivamente para a recuperação da indústria naval e a geração de empregos em solo brasileiro.

Pode-se alegar que as siderúrgicas da Coréia do Sul – e por extensão, seus estaleiros - são clientes da Vale na compra de minério de ferro. Mas com certeza não foi mandando construir seus navios no Brasil que os sul-coreanos se transformaram em um dos países mais industrializados do mundo ao longo dos últimos 25 anos. Os Tigres Asiáticos, começando pelo Japão, ainda no final do Século XIX, e assim como está acontecendo com a China hoje, só cresceram por causa da decisão política de estabelecer uma indissolúvel e permanente aliança estratégica entre governo e iniciativa privada de capital nacional, para a competente substituição de importações e a conquista de mercados externos, agregando continuamente valor aos seus produtos e exportações. Lá fora, essa é a regra. Aqui, quando o governo tenta fazer a mesma coisa, todo mundo cai de pau no “perigo de reestatização” e no “nacionalismo anacrônico”, como se algum grande país do mundo – como o próprio Japão, os Estados Unidos, a Alemanha, a China – tivesse chegado a algum lugar sem zelar por seus interesses e sem uma postura nacionalista clara por parte da sua população.

Só pode ser ingênuo – ou canalha - quem anuncia que o nacionalismo acabou em um mundo em que os países mais fortes se impõem aos mais fracos pela força das armas. Ou em que, como acontece na Europa, o nacionalismo é tão exacerbado que já se transformou em racismo – pergunte-se aos brasileiros que são rotineiramente revistados, humilhados e enviados de volta ao Brasil dos aeroportos espanhóis, por exemplo, – ou, ainda, no qual, como está acontecendo agora nos Estados Unidos, milhões de pessoas saem para as ruas carregando bandeiras e gritando USA ! USA ! USA ! para comemorar, como se fosse carnaval, a morte de um único homem. O nacionalismo não morreu, como não morreu a História. Ao contrário do que escreveu Francis Fukuyama depois da queda da União Soviética, essa velha senhora está vivíssima - e de vez em quando explode violentamente, como uma bofetada, na cara de quem defende a “pax americana”, a “governança global” e o fim das fronteiras - como aconteceu naquele fatídico 11 de setembro, quando o primeiro avião carregado de passageiros atingiu a Torre Sul do World Trade Center.