segunda-feira, 18 de julho de 2011

O DESALENTO DA PRESIDENTE

Ao falar a emissoras do Paraná, a Presidente Dilma Roussef foi sincera e humana: há muitas coisas no governo que a entristecem. Pode estar certa a chefe de Estado que os brasileiros em sua imensa maioria comungam do mesmo desalento. Os cidadãos entendem que o ato de governar é difícil, e que reclama habilidade e paciência, mas não aceitam - salvo os interessados na instabilidade política - as pressões que se fazem à presidente. Depois de ouvir um correligionário irado, que se queixava do tratamento privilegiado a um aliado do governo, Juscelino gastou meia hora tranqüilizando-o. Quando o reclamante saiu, desabafou-se com seu chefe da Casa Civil, Vítor Nunes Leal:

- Aqui, na Presidência, suporto insolência que não agüentaria, se fosse simples prefeito de Diamantina.

Ele não foi prefeito de Diamantina, mas, os que o conheceram prefeito de Belo Horizonte e governador de Minas, se lembram de que ele era rigoroso com seus subordinados, e sabia cobrar as tarefas com energia.

Podemos entender as dificuldades da presidente e não podemos negar-lhe solidariedade e apoio. Não lhe serve de consolo, mas de estímulo, saber que os governantes dos principais países do mundo não se sentem tampouco em plena felicidade nestes últimos meses e anos. Estamos em um daqueles momentos históricos em que a ruptura se anuncia, mas pede líderes sensatos, capazes de criar instrumentos políticos hábeis para vencer a conjuntura perigosa.

Não é seguro que a História se repita, embora os seus movimentos de impaciência sempre se pareçam. O grande fermento das mudanças é a informação, que amplia o entendimento dos homens e suscita idéias novas, nas artes, na filosofia e na política. Isso explica que o Renascimento tenha sido contemporâneo da imprensa, e o Iluminismo, sua continuidade, haja trazido ebulição intelectual que não só deflagraria a Revolução Francesa, mas também estabeleceria os fundamentos científicos da tecnologia contemporânea.

A química de Lavoisier abriu a imensa perspectiva da produção de sucedâneos das matérias naturais e sem ela seria impensável a nanotecnologia, entre outras conquistas da ciência de hoje. Mas o excepcional cientista deixou-se seduzir pela corrupção, ao participar de uma empresa concessionária da cobrança de impostos, que lesou as finanças revolucionárias, e foi guilhotinado. Não são raros os casos de corrupção de homens geniais.

O que está ocorrendo em algumas áreas do governo felizmente não chega a anunciar horas tão trágicas como as vividas na França de há 220 anos – mas incomoda principalmente os que têm muito a elogiar na política econômica e social dos últimos oito anos e seis meses. Não se pode perder uma experiência que reduziu drasticamente a desigualdade e promoveu o desenvolvimento do país, de forma tão marcante, em conseqüência dessa promiscuidade entre setores do governo e do parlamento com empreendedores privados.

Um dos mais audaciosos criminosos dos anos 70, o assaltante Lúcio Flávio, ficou famoso por uma sentença óbvia, ao explicar por que não se envolvia com policiais: polícia é polícia, bandido é bandido. A máxima - reduzida a crueza de sua origem e circunstância - pode ser ampliada: governo é governo, empresas privadas são empresas privadas. A realidade – aqui e em todos os países ocidentais, registre-se – mostra que já não há fronteiras nítidas entre a administração pública e os grandes negócios. Os pequenos empresários se candidatam ao poder municipal, e começam a crescer fazendo negócios com a prefeitura. Em seguida se elegem para os parlamentos estaduais e para o Congresso - onde ampliam sua participação nos recursos públicos: mediante suas próprias empresas, ou se associando a grupos nacionais e internacionais. Em alguns casos, preferem ser apenas intermediários. São lobistas privilegiados, com acesso a todos os níveis de poder.

Estamos chegando aos limites da paciência dos povos. Nos Estados Unidos, Obama não consegue taxar os ricos em favor dos pobres, porque a maioria dos congressistas representa ali os grandes interesses financeiros e industriais, entre eles os dos fabricantes de armas. Na Europa, para salvar o dinheiro dos grandes bancos, os estados nacionais estão indo à falência. A razão é simples: são os ricos que financiam as eleições e a eles os governos prestam obediência.

É interessante relembrar que, na França de 1789, o povo foi às ruas e derrubou a Bastilha em favor de um banqueiro que, na administração das finanças nacionais, corroídas pela ladroagem dos nobres, defendia reformas moralizadoras. Necker teve a lucidez que falta aos banqueiros de hoje – e, por isso mesmo, não perdeu a cabeça naquelas jornadas sangrentas.

A presidente está diante de arriscada oportunidade: a de iniciar o processo de saneamento da administração do Estado. Os observadores sensatos contam com sua paciência diante da protérvia e sua firmeza estratégica. É certo que enfrentará inimigos poderosos, internos e externos, mas, se assim agir, a maioria do povo brasileiro estará ao seu lado, como esteve nas eleições do ano passado.

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A IMPRENSA E SEUS LIMITES

Não coube a Murdoch inventar o jornalismo corrosivo dos tablóides britânicos. Para o bem e para o mal, a Inglaterra tem uma tradição de papéis impressos sem qualquer limite ético. Houve momentos em que a acidez da linguagem serviu a bom propósito político, como ocorreu com o North Star, durante o reinado de George III. O jornal era editado por John Wilkes, tido como o mais arrojado demagogo da Grã Bretanha. Wilkes, libertino e libertário, foi parlamentar, cassado duas vezes, prefeito de Londres e iconoclasta ousado. Chegou a escrever em seu jornal que o soberano era traído pela mulher, e publicou o nome do provável amante da rainha.

Wilkes é tido como o pai da liberdade de imprensa moderna. Foi um ídolo tão popular que, no século 19, um jovem ator, a quem o pai dera o nome de John Wilkes Booth, foi o assassino de Lincoln. No caso do fanático norte-americano há ainda uma curiosidade: seu pai, um bom ator shakespeareano, chamava-se Junius Brutus Booth – em homenagem ao fundador da República Romana.

A virulência dos jornais populares britânicos, que contrastam com os matutinos tradicionais, todos sérios e graves, é assim, anterior à chegada de Murdoch ao mercado londrino. É mesmo provável que o australiano tenha encontrado inspiração nos tablóides ingleses ao iniciar seu império jornalístico. O governo britânico, no entanto, está ameaçando a liberdade de imprensa, com medidas legais que podem ir além da proteção à privacidade dos cidadãos e se tornarem escudo dos políticos corruptos.

A liberdade de imprensa não pode significar a licença para a calúnia, a infâmia e a injúria. É preciso que o jornalista use seu texto com a consciência de que o que escreve pode significar a ruína moral de um inocente, se denúncia que faz é falsa. Um elogio a alguém dura alguns dias e, hoje, na velocidade das informações, talvez só algumas horas. Mas uma acusação caluniosa nunca é apagada de todo. Conhecemos histórias terríveis, de pessoas que carregaram nas costas o fardo de uma calúnia pela vida inteira. Como advertia Voltaire, da calúnia sempre sobra alguma coisa.

Não podemos reclamar tratamento privilegiado da lei. Os crimes de calúnia, difamação e injúria estão previstos no Código Penal. A ele devemos estar sujeitos todos, jornalistas ou não jornalistas. A liberdade de imprensa não é salvo conduto para a impunidade de ninguém. Por isso devemos dispensar privilégios, como jornalistas, mas exigir direitos, como cidadãos. Essa cautela diante da honra alheia não pode castrar os jornalistas, principalmente quando se trata do interesse público. Espantamo-nos com as revelações de atos criminosos cometidos por altos servidores do Estado, eleitos e não eleitos. Em alguns casos, a Justiça os pune; em outros a opinião pública os despreza e, infelizmente, como a memória do povo é curta, muitos retornam, lépidos e fagueiros, às posições das quais foram afastados. Quando a imprensa é amordaçada pela violência da lei e das ditaduras, a corrupção é bem maior e crimes brutais são cometidos, sem o conhecimento público, quando os culpados pertencem às nomenclaturas do poder.

No caso do News of World, e de outros jornais, britânicos ou não, não há jornalismo, mas sordidez. Na busca de leitores interessados no que há de pior na natureza humana, eles são capazes não só de exercer pérfida ficção, como de se associar a bandidos e a policiais, de ocultar informações importantes, e, com isso arriscar a vida de pessoas inocentes, como ocorreu com o jornal de Murdoch.

O australiano começou a encontrar limites para o seu poder, que parecia fadado a dominar o mundo. É importante que a indústria da informação e do entretenimento não esteja em poucas mãos e dominadas por um pensamento único e totalitário.

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SEM LÍDERES E SEM BANDEIRAS

A presidente está diante de escolhas penosas, herdeira que é de uma história política que, com o desatino dos fidalgos aos quais a Coroa entregou o Brasil, teve poucos períodos de governo submetido ao rigor da ética. Compreendemos a postura cautelosa e apaziguadora com que está administrando as crises políticas surgidas de demissões necessárias em seu Ministério. Provavelmente ela terá que tomar novas e graves decisões nas semanas e meses próximos, nas relações com a base aliada.

A leitura de ácidos críticos das falcatruas dos tempos coloniais, como foram Gregório de Mattos Guerra, Padre Antonio Vieira e Tomás Antonio Gonzaga, é bastante para demonstrar que, em nossa terra, a tendência ao saque contra o patrimônio comum é constante. Disso não se conclua que somos um povo de larápios. Os que roubam da comunidade nacional são ínfima minoria, em uma população que trabalha honradamente, é solidária com os que sofrem, e ama realmente esse conjunto de sentimentos e compromissos a que chamamos pátria.

Temos uma estrutura jurídico-constitucional que favorece os desvios. Desde os seus primeiros tempos, a República, em seus princípios democráticos, foi minada pela ação dos privilegiados do Império: as oligarquias familiares que mantiveram – e ainda mantêm, em certas regiões, domínio quase feudal. A autonomia dos Estados, conferida pela Constituição de 1891, foi sendo corroída pela aliança dos senhores de engenho do Nordeste com os comerciantes do Rio de Janeiro, sob o patrocínio dos bacharéis mineiros e militares gaúchos. As comissões parlamentares de “verificação de poderes” se encarregavam de expurgar os “indesejáveis” da representação política – já de si viciada pela votação a bico de pena e as atas falsas.

Foi assim que um movimento revolucionário, como o de 30, que se fazia em nome da legitimação do processo republicano, em lugar de fortalecer as franquias estaduais, reduziu-as sob o império das circunstâncias mundiais, que recomendavam a centralização do poder. A República de 1946 não foi capaz de reafirmar o compromisso federativo de 1891, que só se fez sentir, de fato, na segunda metade do mandato de Juscelino, mais pela sua índole democrática, do que pelos instrumentos jurídicos. A partir de Jânio, a federação exauriu-se nas pressões internacionais sobre o governo Jango, para sucumbir, de vez, com o governo militar e sua intervenção descarada nos estados e o fim das eleições. Foi nesse período que a concentração tributária reduziu drasticamente a ação dos Estados. Ao obrigar as unidades da Federação a privatizar suas instituições financeiras e ao proibi-los de emitir títulos próprios da dívida interna, o governo de Fernando Henrique acabou de incinerar o pacto federativo.

O sistema de cooptação de parlamentares, a fim de garantir os votos para as emendas da privatização e da reeleição, infeccionou mais ainda o Congresso. Hoje, os partidos, além de vazio ideológico (com a exceção de pequenos núcleos de esquerda) representam grupos econômicos e corporativos, em nome dos quais atuam, e suas bancadas só cuidam das coisas de seus estados com o fim de atender às bases eleitorais.

Durante os 18 anos, entre 18 de setembro de 1946, quando se promulgou a melhor de nossas constituições, e o golpe de 1º de abril de 1964, seria inimaginável que um parlamentar mantivesse negócios com o Estado - embora houvesse, como houve, os que recebessem dinheiro estrangeiro, via IBAD para conspirar contra o país.

Hoje, negociar com os governos se tornou prática comum. Os beneficiados por essa situação esdrúxula se valem da desculpa de que se licenciam da administração de suas empresas, como se alguém pudesse acreditar nessa fábula infantil. Senadores e deputados fazem negócios com a União, os Estados e os Municípios, sem qualquer constrangimento moral. Apanhado por denúncias de superfaturamento de obras, o ministro Alfredo Nascimento deixou governo.

Voltamos a uma questão que já se tornou lugar comum neste espaço: a confusão entre o poder legislativo e o poder executivo em nosso país. Os políticos brasileiros (e alguns dos que se autodefinem como “cientistas políticos”) não compreendem que, nos sistemas presidencialistas, o Parlamento existe como contraponto ao poder executivo. Trata-se da representação direta do povo, a fim de dar, mediante a legislação, as tarefas de governo ao Presidente e fiscalizar o seu trabalho. A razão elementar – e isso desde Montesquieu – é a de que quem faz as leis não deve executá-las. Por isso mesmo os fundadores dos Estados Unidos impuseram essa regra pétrea à Constituição de 1787: os parlamentares não podem aceitar cargos no poder executivo, a menos que renunciem a seus mandatos. ´

Os interessados na continuação desse sistema danoso ameaçam prejudicar a governabilidade, ao negar apoio parlamentar à Presidente da República. Alguns dirigentes partidários não perceberam os tempos novos que se anunciam pela instantaneidade das informações e as mobilizações populares, mediante a internet.

Não obstante a dignidade de numerosos parlamentares, a credibilidade do Congresso é escassa junto aos cidadãos – e isso é o maior perigo. Se as coisas assim continuam, é provável a rebelião anárquica e incontrolável das massas, sem líderes e sem bandeiras.

sábado, 9 de julho de 2011

OS BANCOS E A REVOLUÇÃO

A Europa se insurge contra as famosas e prepotentes “agências de classificação de riscos”, todas americanas, com a decisão da Moody’s (uma das três grandes) de rebaixar as dívidas de Portugal em quatro pontos, reduzindo-as a uma situação de “lixo”. Essas agências, se pensarmos bem, não têm razão de existir. Elas jamais foram capazes de prever, com prazo prudencial, os riscos dos créditos das grandes instituições financeiras e dos governos nacionais. Não previram as crises recentes do sistema financeiro internacional, nem foram capazes de descobrir as falcatruas das grandes instituições empresariais e financeiras, como as da Enron, dos bancos de investimentos, como o Lehman Brothers e de instituições de larápios, como a de Madoff. Elas só denunciam os erros, depois de consumadas as crises. De nada servem para alertar os investidores e as autoridades governamentais a tempo de que tomem providências acauteladoras. Mas os governos são também responsáveis, ao lhes dar crédito, e também por não fiscalizar o comportamento das instituições financeiras, nem examinar a lisura de sua contabilidade.

A questão retorna ao mais inquietante confronto da civilização ocidental - qual deve ser a diretriz da vida em comum: a economia ou a política? O dinheiro pode controlar e dirigir a ação política, ou a política tem que dirigir e controlar as finanças? O sistema financeiro, no interior dos Estados e no plano internacional, é a mais poderosa das instituições corporativistas. Ninguém é mais solidário com um banqueiro do que outro banqueiro, embora disputem entre eles, e sem escrúpulos, os grandes negócios. Nos últimos trinta anos, o sistema financeiro internacional vem cavalgando os estados nacionais e, assim, governando, sem legitimidade, os povos do mundo. Retornaram, sem qualquer pudor, ao saqueio neocolonialista dos recursos naturais dos povos mais débeis, também mediante as guerras de conquista. Trata-se de nova forma de acumulação selvagem de capital e de destruição do “estado de bem estar social”, cujo embrião podemos encontrar ainda na Inglaterra vitoriana, com as preocupações do conservador Disraeli.

A política, sob a corrupção do dinheiro, e a violência repressiva, desfigura-se e se desnatura, mas costuma reagir, ao recuperar-se em processos revolucionários conhecidos na História. De qualquer forma, para que ocorram as revoluções, é necessário que intervenha a razão. Os sinais dessa reação saneadora podem ser vistos nos atuais movimentos de massa em vários países do mundo, muçulmanos ou cristãos, xintoístas ou animistas. O que lhes estava faltando é a teoria revolucionária, uma tarefa dos intelectuais. Há indícios de que já começam a surgir núcleos de discussão que podem suprir essa dificuldade. Com a orientação da inteligência, os movimentos serão capazes de vencer a repressão.

A crise na Europa coloca também em discussão o problema da autonomia dos estados e da soberania compartilhada dentro da Europa continental, da qual a moeda única é a marca maior. Há poucos dias, o Prêmio Nobel de Economia (1998) o indiano e professor em Harvard, Amartya Sen, publicou instigante artigo sobre o tema. Ele fala da ameaça à democracia que representa a insidiosa prevalência dos interesses financeiros sobre a ação política no continente, e dá como exemplo a excessiva importância atribuída às agências de classificação, que determinam a ação dos bancos centrais e dos governos, a serviço das grandes instituições financeiras internacionais.

Sen afirma que a liberdade dessas agências terá que ser enquadrada pelo poder da legitimidade política, isto é, pelos governos eleitos, mas, por enquanto, esse enquadramento não existe. As agências, remuneradas pelo “imperativo financeiro”, só a ele obedecem.

Ao discutir o problema do euro, que ele considera danoso à necessária soberania dos estados e à sua autonomia de ação econômica, lembrou a proposta da federação européia, surgida no movimento socialista italiano, em 1941, chefiado pelos jovens Altiero Spinelli, Eugenio Colorni e Ernesto Rossi.

É importante voltar a esses pioneiros da idéia de uma Europa Unida, os signatários do Manifesto Ventontene, da Itália, que se encontrava, então sob o domínio do fascismo. O documento, que circulou clandestinamente, fazia reflexão profunda sobre a situação européia de então, sob o avanço do poder dos nazistas. “O homem civilizado – diz o Manifesto – é um produto complicado e frágil. Os mais grandiosos frutos da civilização se devem à férrea disciplina que ela impõe ao ânimo selvagem dos homens. Mas quando os homens se encontram diante de problemas cuja solução é de importância vital e não são capazes de encontrá-la - em razão da resistência oposta e da ausência de instrumentos aptos para resolvê-los de forma pacífica - aquela disciplina pode romper-se e deixar emergirem as forças primitivas, que tendem a resolver a dificuldade com a violenta imposição de sua vontade”. A isso chamamos explosão revolucionária das massas.

Sen – como outros eminentes economistas de hoje – parte da idéia que os déficits públicos, quando financiam o desenvolvimento, tendem a ser absorvidos pelo aumento rápido da receita tributária. Vale a pena transcrever um trecho de seu artigo: O laço que une o crescimento e as receitas públicas é amplamente observado em numerosos países, da China ao Brasil, passando pelos Estados Unidos e a Índia. E aí ainda há lições a tirar da História. Numerosos países acumularam ao fim da segunda guerra mundial pesadas e preocupantes dívidas públicas, mas um crescimento econômico sustentado permitiu aliviar rapidamente o fardo. Da mesma forma, os déficits colossais que Clinton encontrou, ao assumir o poder, há quase vinte anos, reduziram-se sob sua presidência, em grande parte pelo efeito da rapidez do crescimento”.

Em suma: não é o arrocho salarial, ou a “flexibilidade” das leis do trabalho, nem o desemprego, que promovem a queda dos déficits, mas, sim, o contrário. O que importa é o crescimento da economia, com melhor distribuição de renda e redução das desigualdades. Nisso, a lição brasileira é eloqüente.


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EM PLENO COMBATE

Itamar Franco morreu em sua hora mais forte, ao retornar ao Senado em plena maturidade, para uma vigorosa batalha na resistência nacionalista. Ele tinha a consciência de que essa seria a sua última missão política. Desde a campanha eleitoral, ele me confiara o seu projeto obstinado, desde a emenda da reeleição: fazer Minas voltar à direção da República. Sua convicção era a de que os mineiros têm uma posição nacionalista mais arraigada do que os brasileiros de outros estados, a partir de uma constatação elementar: “nós fomos muito mais roubados do que os outros”. Menos otimista, eu lhe lembrava que nascer em Minas não basta para garantir o patriotismo nem a ética de ninguém. Ele concordava, embora dissesse que, pelo menos entre os governantes mineiros, os entreguistas foram ínfima minoria. Seu otimismo o levava a sonhar que o retorno de Minas ao governo da União significaria a reestatização da Vale do Rio Doce e de outras empresas públicas, privatizadas durante o governo de seu sucessor.

No caso da Vale do Rio Doce, Itamar se somou ao grande pernambucano Barbosa Lima Sobrinho, na campanha contra a privatização, reunindo, em seu escritório de Juiz de Fora, representantes dos movimentos nacionalistas para redigir e divulgar um manifesto à nação. Infelizmente as forças contrárias, nutridas pelo poder econômico e pela avassaladora pressão internacional em favor do Consenso de Washington e da globalização financeira, foram mais poderosas.

Sua experiência diplomática reafirmou-lhe a idéia de que todos os povos levam a sério a sua própria soberania, e que as nações mais fortes têm como norma desdenhar a soberania alheia. Embora as circunstâncias da vida política, em país de partidos ocos de idéias e de programas, o tenham conduzido a mudar de legendas e a firmar alianças eleitorais exigidas pelas circunstâncias, ele manteve, em sua atuação pessoal, no poder legislativo e no poder executivo, intransigente coerência ética e doutrinária.

Ao contrário do que muitos supunham, Itamar confiava mais do que talvez lhe conviesse. “Ninguém me engana, se olhar nos meus olhos”, era uma de suas frases prediletas. Quando descobriu que o haviam enganado de forma pesada, sorriu, e colocou a culpa nos óculos.

Ele tinha real admiração pelos intelectuais, mas preferia ouvir, antes de tomar decisões fortes, seu grupo de amigos de Juiz de Fora, que o acompanhavam desde moço, alguns de sua mesma idade e outros um pouco mais jovens. Entre eles nem sempre havia unanimidade. Itamar pesava os argumentos e resolvia agir de uma ou outra forma, muitas vezes contra a opinião de todos.

Seu grande orgulho foi o de haver impedido, de forma corajosa, a privatização do complexo hidrelétrico de Furnas. A desestatização da grande empresa já estava decidida, quando Itamar reuniu o alto comando da Polícia Militar de Minas e deixou claro que iria resistir - com a força de que dispunha - à alienação das usinas instaladas em Minas. Ele sabia como agir: a cota da represa só fora alcançada mediante um dique, que continha as suas águas na divisa entre a bacia do Rio Grande – tributário do Paraná – e a do São Francisco. Se o dique se rompesse, mediante uma carga de explosivos, as águas da represa verteriam no São Francisco, e não moveriam as turbinas da usina principal à jusante. A fama de que ele era louco, difundida pelos jornais, quando ele decretou a moratória das dívidas de Minas, conteve seus adversários.

A organização francesa ATTAC e o jornal Le Monde Diplomatique convidaram-no a participar de reunião internacional na França, contra a globalização financeira. Ele foi o único governante estrangeiro a participar do encontro, em razão de sua resistência à ditadura do novo capitalismo liberal.

Outra medida que tomou, e que o fez merecedor da gratidão dos mineiros, foi recuperar o controle sobre a Cemig. A Cemig é a primeira e grande realização de Juscelino, e início da grande tarefa de modernização do Brasil nos anos que se seguiram. Mais do que uma empresa, a Cemig significa, para os mineiros, um ato de inteligência técnica e autonomia política. O governo anterior, submisso ao Planalto, entregara um terço da empresa aos norte-americanos, mediante a intervenção do Banco Opportunity. Dantas, com 3% do capital, e mediante um acordo de acionistas, tinha o poder de veto sobre as decisões da empresa. Como só lhes interessassem os lucros, esses acionistas minoritários imobilizavam a empresa e impediam o reinvestimento em novas hidrelétricas. Itamar foi à Justiça, ao mesmo tempo em que tomava outras providências de caráter político.

Itamar e Tancredo tinham, em comum, a convicção de que governar é vigiar. É uma idéia de que participaram, outros governadores de Minas, homens como João Pinheiro, Artur Bernardes, Raul Soares, Benedicto Valadares e Aureliano Chaves. Todos eles rigorosos na defesa do erário, e todos nacionalistas, como Itamar. Como se recorda, ele criou uma Comissão de alto nível, externa ao serviço público, a fim de investigar denúncias contra a administração federal – que seu sucessor dissolveu como um de seus primeiros atos.

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quinta-feira, 7 de julho de 2011

A REBELIÃO DOS HOMENS

Imagine o leitor que em fevereiro de 1848 já houvesse a rede mundial de computadores. Vamos supor que, em lugar de imprimir os primeiros e poucos exemplares do Manifesto Comunista, Marx e Engels tivessem usado a internet, de forma a que todos os trabalhadores europeus e norte-americanos pudessem ler o texto. Qual teria sido o desenvolvimento do processo? Como sabemos, o ano de 1848 foi de rebeliões operárias na Europa, reprimidas com toda a violência.

O capitalismo selvagem de então, um dos filhos bastardos da Revolução Francesa, sentiu-se animado pela derrota dos trabalhadores. Na França a burguesia tomou conta do poder e, derrotada a monarquia, assumiu-o sem disfarces e sem intermediários, em um período que os historiadores denominam de “A República dos homens de negócios”. Os trabalhadores e intelectuais tentaram, mais tarde, em 1871, logo depois de a França ser derrotada pelos alemães, criar um governo autônomo e igualitário em Paris. Com a ajuda dos invasores, o Exército de Thiers executou 20.000 parisienses nas ruas.

As manifestações populares dos países árabes, que os governos e a imprensa dos Estados Unidos e da Europa saudaram como o fim dos tiranos e o início da democratização do mundo islâmico, entram em nova etapa, ao atingir os países ricos. Os analistas apressados são conduzidos a rever suas conclusões. O mal-estar que levou os povos às ruas não se limita ao norte da África: é fenômeno mundial. Uma das contradições do capitalismo, principalmente nessa nova etapa, a do imperialismo desembuçado, no qual os governos nacionais não passam de meros servidores dos donos do dinheiro, é a de sua incapacidade em estabelecer limites. Hoje, nos Estados Unidos – que foram, em um tempo, o espaço para a realização de milhões de pessoas mediante o trabalho – a diferença entre os ricos e os pobres é maior do que durante toda a sua História, incluído o tempo da escravidão. Um por cento da população norte-americana detém 40% de toda a riqueza nacional. A mesma situação se repete em quase todos os paises nórdicos.

Quando redigíamos este texto, milhares de pessoas se encontravam acampadas no centro de Madri, em continuidade ao movimento Democracia Real, Já, que se iniciou em 15 de maio, com protestos em todas as grandes cidades espanholas. A Espanha hoje está dominada pelos grandes banqueiros e companhias multinacionais, que não só exploram o trabalho nacional, como vivem de explorar os paises latino-americanos. Bancos como o Santander – cujos resultados mais expressivos ele os obtém no Brasil – dividem com os dois partidos que se revezam no poder (os socialistas e os conservadores) o resultado do assalto à economia do país. É contra esse sistema odioso que os espanhóis foram às ruas, e nas ruas continuam.

Não são apenas os jovens desempregados que se indignam. São principalmente as mulheres e homens maduros, os que estimulam o movimento. Eles sentem que seus filhos e netos estarão condenados a um futuro a cada dia mais tenebroso e mais violento, se os cidadãos não reagirem imediatamente. Os espanhóis estão promovendo a articulação internacional de movimentos semelhantes, que ocorrem em outros países, como a Islândia, a França, a Inglaterra e mesmo os Estados Unidos. Se o sistema financeiro se articulou, com o Consenso de Washington e os encontros periódicos entre os homens mais ricos do planeta, a fim de dominar e explorar globalmente os povos, é preciso que os cidadãos do mundo inteiro reajam.

Marx queria a união de todos os proletários do mundo. O movimento de hoje é mais amplo e seu lema poderia ser: Seres humanos do mundo inteiro, uni-vos.

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domingo, 3 de julho de 2011

ITAMAR FRANCO: UM HONRADO PATRIOTA

O homem que morreu neste sábado não pertencia às elites políticas ou empresariais de Minas. Engenheiro, filho de descendentes de imigrantes (o pai, de alemães, e a mãe, de italianos) Itamar teve uma infância de classe média modesta. Não chegou a conhecer o pai, que morreu pouco antes que nascesse. Formado, com as dificuldades da situação familiar, em engenharia, aos 24 anos, trabalhou no saneamento básico na periferia de Juiz de Fora, antes de integrar os quadros do DNOCS. Esse contato com o povo o levou à vida pública.

Itamar não foi um político definido pelos estereótipos. Destacaram-se em sua personalidade e ação política os dois sentimentos que orientam os grandes homens públicos de Minas: o do nacionalismo – que vem da Inconfidência - e o da justiça social. Não há como negar a Itamar o alinhamento ideológico à esquerda. Um de seus ídolos desde a adolescência foi o gaúcho Alberto Pasqualini, dos mais importantes pensadores políticos brasileiros e conselheiro de Getúlio.

Como é de conhecimento público, prestei assessoria informal ao Presidente, e, mais tarde, ao governador. Pude acompanhar, de perto, seu empenho na defesa dos interesses nacionais e da moralidade no governo. Acompanhei, de perto, as suas preocupações, quando decidiu adotar, a conselho de membros da equipe econômica, o expediente antiinflacionário da Alemanha dos anos 20 – o Plano Schacht. Era a segunda vez que se tentava, no continente, a mesma estratégia contra a hiperinflação, bem conhecida como matéria de estudos financeiros. A primeira fora a do Plano Austral, da Argentina. Também o Plano Cruzado, de Sarney, contemplava algumas de suas medidas.

Conhecedor de matemática, Itamar reviu o plano, ponto a ponto, fez correções que lhe pareceram apropriadas e, só depois disso, assinou a medida provisória que o implantou.

Poucos dias antes de sua internação, estive em seu gabinete, em companhia do Embaixador Jerônimo Moscardo, que foi seu Ministro da Cultura. Ao nos cumprimentar, visivelmente gripado, Itamar reclamou do ambiente frio do Senado. “Esse ar acondicionado é de matar”. E disse que estava com uma gripe que não cedia.

Convidou-nos para uma visita ao gabinete do presidente José Sarney, ao lado do seu. Conversamos os quatro, alguns minutos, sobre a situação do país e do mundo. Relembramos a personalidade de Tancredo Neves e episódios menos conhecidos do processo de transição democrática que, pelas circunstâncias do tempo, Sarney e este jornalista haviam vivido mais de perto.

Itamar estava preocupado com a situação do país, e a necessidade de que se formassem líderes capazes de enfrentar as dificuldades internacionais do futuro próximo. Naquele mesmo dia, ele solicitara da Mesa do Senado a transcrição de um artigo meu, publicado neste jornal, de reparos ao seu sucessor.

O grande êxito de Itamar pode ser explicado pela renúncia pessoal às glórias e pompas do poder. Não foi açodado em assumir o governo, depois do impeachment de Collor. Coube a Simon instá-lo a isso, sob o argumento da razão de Estado: o poder não admite o vazio. Logo que assumiu a Presidência, reuniu todos os dirigentes partidários e líderes no Congresso, sem excluir ninguém, nem mesmo o folclórico Enéas Cardoso. Disse-lhes que estava disposto a convocar eleições imediatas para a Presidência e Vice-Presidência, se estivessem de acordo. Silenciou-se, à espera da resposta – e ninguém concordou. Por duas ou três vezes, ele me disse que, apesar daquela recusa unânime, talvez tivesse sido melhor consultar o povo, naquela difícil circunstância.

Quando se pôs o problema de sua sucessão, tendo em vista a sua altíssima popularidade – de mais de 80% - alguns líderes políticos lhe propuseram a apresentação de emenda constitucional permitindo a sua reeleição. Itamar recusou, com veemência, a proposta. O democrata não poderia admitir o golpe que seu sucessor desfecharia.

Mais do que sanear a moeda, Itamar ficará na História por haver recuperado a credibilidade da Presidência da República junto ao povo brasileiro. Poucos, muito poucos, dos que exerceram o alto cargo ao longo da História, ficarão na memória da Nação com a mesma e sólida presença de Itamar Franco, modesto homem do povo, intransigente patriota, severo guardião do bem público.

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