terça-feira, 8 de novembro de 2011

MENSAGEM AOS “HERÓICOS” TRUCIDADORES DE CRIANÇAS

Circula pela internet vídeo de alguns segundos, que mostra duas crianças de Sirte, sendo atendidas em algum lugar que lembra um ambulatório improvisado. São o menino, de cinco ou seis anos, e a menina, de idade parecida. O menino grita de dor, ainda que tenha as duas mandíbulas, o queixo e a garganta dilacerados, provavelmente por estilhaços de bomba. A menina está em silêncio, olhando o nada, como se o nada pudesse explicar-lhe o sofrimento do menino, e o calcanhar arrancado, o pé quase pendente da perna. O leitor Eugênio, enviou-me os links de acesso às imagens:

http://redeliberdade.blogspot.com/2011/11/otan-assassina.html

e

http://www.youtube.com/watch?v=hobDCtmx0xo&feature=player_embedded&oref=http%3A%2F%2Fs.ytimg.com%2Fyt%2Fswfbin%2Fwatch_as3-vflrEm9Nq.swf&skipcontrinter=1

Como veterano jornalista, que cobriu crimes bárbaros e acidentes terríveis, e a dura experiência de guerras civis e invasões militares - mas acima de tudo, como pai e avô - confesso que nada foi tão fundo na minha tristeza do que a imagem das crianças de Sirte. Das ainda vivas, e das mortas da família Khaled. Foi possível imaginar as milhares de outras crianças, mortas e feridas, na Líbia, no Afeganistão, no Iraque, na Palestina. Diante das cenas, revi o Presidente Barack Obama, sua elegante mulher e suas duas filhas, lindas, sorridentes, que o pai presenteou com um cão, para que o fizessem passear pelos jardins da Casa Branca. Revi-as viajando pelo mundo, e visitando escolas na África e na América Latina. E fiquei sabendo da alegria de Monsieur Sarkozy em ser novamente pai. Em sua relativa juventude, marido de uma cantora jovem, famosa e bela, o presidente da França terá, é o que todos esperamos, anos felizes ao lado da filha. Irá conduzi-la pela mão entre os canteiros dos jardins de Paris, e, se as coisas da política lhe permitirem, a ela contará passagens de sua própria infância. Ouvirá a mulher, com sua voz magnífica, cantar-lhe as mais belas berceuses. E quando ela ficar mocinha, se enlevará com as canções de sua mãe, como “Quelqu’un m’a dit”, e seus versos abertos: “Alguém me disse que nossas vidas não valem grande coisa/ Passam em um instante, como fenecem as rosas”.

A idéia que associa a morte das crianças – no caso, uma menina – à brevidade das rosas, é de Malherbe, o grande poeta francês dos séculos 16 e 17, a quem se atribui a invenção do francês literário. Ele escreveu seu famoso poema para consolar um amigo que perdera a filha de seis anos, e resume a homenagem à menina, que se chamava Rose, no verso conhecido: “E, rosa, ela viveu o que vivem as rosas, o espaço de uma manhã”.

Uma criança morta, muçulmana ou judia, negra ou nórdica, de fome, de endemias ou de acidentes, em qualquer parte do mundo, é uma violência insuportável contra a vida. As crianças mortas em guerras são insulto às razões da vida, e uma grande dúvida sobre a existência de Deus – a não ser a do Deus dos Exércitos.

David Cameron, parceiro e competidor de Sarkozy na aventura líbia, é um pai que sofreu a dolorosa perda de um filho, Ivan, também aos seis anos – em fevereiro de 2009, acometido de uma forma rara de epilepsia. Não é possível que, diante das cenas de Sirte, e na lembrança do filho, não sinta, no coração, o peso de sua culpa, ao usar as armas britânicas, nos bombardeios sistemáticos contra as cidades líbias – entre elas, Sirte, a que mais sofreu, e sem trégua, com as bombas e mísseis. A Líbia e as outras nações da região foram bombardeadas e ocupadas pelas nações mais poderosas do Ocidente porque têm suas areias encharcadas de petróleo. O petróleo, na visão dessas nações, é um dos direitos humanos dos ricos e bem armados.

A espécie humana só sobrevive porque ela se renova em cada criança que nasce. Como nas reflexões de Riobaldo, em uma vereda do grande sertão, diante da paupérrima mulher que dá à luz: não chore não, dona senhora; uma criança nasceu, o mundo começou outra vez.

Os doutores em jornalismo atual, que recomendam textos frios, podem ver nessas reflexões o inútil sentimentalismo de um veterano - diante da realidade do mundo. Mas houve um tempo, e não muito distante, em que o jornalismo era solidário com o sofrimento dos mais débeis, com os perseguidos e famintos de pão e de justiça.

Enfim, God bless America. E God save the Queen.

Este texto foi publicado também nos seguintes sites:

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2011/11/08/mensagem-aos-heroicos-trucidadores-de-criancas/

http://www.conversaafiada.com.br/economia/2011/11/08/santayana-sarkozy-e-cameron-olhem-para-essa-crianca/

http://fichacorrida.wordpress.com/2011/11/11/mensagem-aos-hericos-trucidadores-de-crianas/

http://nogueirajr.blogspot.com/2011/11/mensagem-aos-heroicos-trucidadores-de.html

http://carcara-ivab.blogspot.com/

http://pt-br.facebook.com/Conversa.Afiada.Oficial/posts/136997359740124

http://pt-br.facebook.com/Conversa.Afiada.Oficial/posts/136997359740124


CARF PERDOA 4 BILHÕES DE REAIS EM IMPOSTOS DO SANTANDER

A EBA – European Bank Authority - acaba de anunciar que os bancos espanhóis serão os que mais necessitam de capitalização, na Europa - depois dos gregos -, no combate à crise, e terão que levantar mais de 26 bilhões de euros nos próximos meses.

O Santander será o mais afetado, necessitando de quase 15 bilhões de euros. Enquanto isso, o banco provoca, a cada trimestre, verdadeira sangria na economia brasileira. A matriz na Espanha é responsável por apenas 10% do lucro, enquanto o Santander Brasil aporta mais de 25% dos resultados operacionais do grupo.

Ao mesmo tempo, em nosso país, os membros do CARF Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, do Ministério da Fazenda - acabam de isentar, em uma decisão inesperadamente unânime - o Santander de pagar cerca de quatro bilhões de reais à Receita Federal.

O banco, como empresa estrangeira e sem estar instalada no Brasil na época, não teria direito a isenção de impostos nesse valor, incidente sobre o montante que pagou de ágio pela compra do Banespa.

E o Brasil que se preocupe com os problemas de balanço de pagamentos, a fim de enviar essa montanha de dinheiro para a Europa, que se soma aos bilhões remetidos pela Vivo – financiada agora com três bilhões de reais para expansão de infra-estrutura pelo BNDES.

A Espanha só entrou no mercado brasileiro nos anos 1990, graças aos recursos a fundo perdido, e aos juros subsidiados da União Européia, além, é claro, da prestimosa ajuda de “colaboradores” nacionais, como Antônio Carlos Valente.

O funcionário do Ministério das Comunicações, envolvido com as privatizações, e – pasmem – ex-conselheiro da ANATEL, ocupa, já há alguns anos, o cargo de Presidente da Vivo no Brasil.

Como recordar é viver, vale a pena dar uma olhada no que se publicou, sobre Valente, em um documento oficial da ANATEL, em 1999:

“Para Valente, a grande vantagem da ampla discussão que se promoveu anteriormente à privatização e à instalação da Anatel, é que o modelo brasileiro herdou as vantagens de sistemas já instalados em outros países, procurando eliminar os erros, na medida do possível, dentro do princípio básico e fundamental de defender o interesse do usuário,fiscalizando intensamente a ação das prestadoras de serviço.”

Prestadoras de serviço da maior das quais ele viria a se tornar Presidente pouquíssimo tempo depois.

O resto do texto, cujo link reproduzo abaixo, é um primor de defesa do modelo implantado pelo Governo Fernando Henrique durante as privatizações:

http://www.anatel.gov.br/Portal/verificaDocumentos/documento.asp?numeroPublicacao=8973&assuntoPublicacao=Conselheiro%20apresenta

Enfim, Valente tratou do processo de privatização da telefonia, integrou a agência criada para fiscalizar o setor, disse que o órgão existia para defender o interesse do usuário e, mais tarde, se tornou o presidente da principal operadora espanhola de telefonia no Brasil, para fazer exatamente o contrário.

As tarifas brasileiras de telefonia celular e de banda larga, segundo a União Internacional de Telecomunicações, são as mais altas do mundo. E o serviço, o pior do planeta, a julgar pelo número de queixas que abarrotam os PROCONS de todo o país, e a própria ANATEL, que continua praticamente impedida de punir as empresas, devido à generosa Lei Geral das Telecomunicações aprovada no governo FHC, que prevê o acúmulo de um enorme número de queixas, antes que se multe uma operadora.

Este texto foi publicado também nos seguintes sites:

http://correiodobrasil.com.br/carf-perdoa-4-bilhoes-de-reais-em-impostos-do-santander/325899/

http://www.bancariosrio.org.br/artigos1.php?id=339

http://fichacorrida.wordpress.com/category/santander/

http://mariolobato.blogspot.com/2011/11/esquemao-tucano-da-privataria-ativo-e.html#comment-form

http://blogdogilmardarosa.blogspot.com/2011/11/carf-perdoa-4-bilhoes-de-reais-em.html

http://minutonoticias.com.br/carf-perdoa-4-bilhoes-de-reais-em-impostos-do-santander

http://wwwterrordonordeste.blogspot.com/2011/11/carf-perdoa-4-bilhoes-de-reais-em.html

http://gilsonsampaio.blogspot.com/2011/11/carf-perdoa-4-bilhoes-de-reais-em.html

domingo, 6 de novembro de 2011

O IRÃ E A PERIGOSA APOSTA DE ISRAEL

Não se trata mais de hipótese: os falcões americanos e o governo britânico estão dispostos a apoiar ação militar de Israel contra o Irã, embora grande parte da opinião pública israelita advirta que essa aventura é arriscada. Aviões militares de Israel fazem manobras no Mediterrâneo e já se fala no emprego de mísseis de alcance médio contra o suposto inimigo. Seus líderes da extrema-direita, entre eles religiosos radicais, estimulam os cidadãos, com o argumento de que se trata de uma luta de vida ou morte.

Toda cautela é pouca na avaliação política da questão de Israel. Em primeiro lugar há que se separar o povo judaico do sionismo e do Estado de Israel - que parece condenado a sempre fazer guerra. Como disse um de seus grandes pensadores, se todos os estados possuem um exército, em Israel é o exército que possui o estado. É explicável que, com sua história atribulada e as perseguições sofridas, sobretudo no século 20, sob a brutalidade nazista, os judeus se encontrem na defensiva. Isso, no entanto, não autoriza a insânia de sua política agressiva contra os palestinos em particular, e contra os muçulmanos, em geral.

A política belicista de Israel, alimentada pelos fundamentalistas, e estimulada pelos interesses norte-americanos, tem impedido a paz na região. Os palestinos são tão semitas quanto os judeus, embora muitos dos judeus procedentes da Europa não sejam semitas em sua origem étnica, posto que convertidos a partir do século VIII. Os dois povos poderiam viver em paz, se o processo de ocupação da Palestina pelos judeus europeus tivesse seguido outra orientação. Mas o passado não pode ser mudado. Sendo assim, é tempo para o entendimento entre os dois povos – mas para parcelas das elites de Israel e seus patrocinadores americanos, a guerra é um excelente negócio. Sem a guerra, a receita de Israel – um território pobre de petróleo, tão próximo das mais pejadas jazidas do mundo – seria insuficiente para manter seu poderoso e bem remunerado exército e suas elites dirigentes, contra as quais começam a mover-se também os indignados, e com razão.

Israel nasceu sob o ideal de um sistema socialista baseado na solidariedade dos kibbutzim, mas hoje não se distingue mais dos países capitalistas. Os ensandecidos partidários da ação militar contra Teerã talvez imaginem que essa iniciativa tolha o reconhecimento do Estado da Palestina pela ONU, mas deixam de atentar para os grandes riscos da operação, apontados pelos judeus de bom senso. Em primeiro lugar há uma questão ética em jogo, que o mundo já medita há muito tempo: por que Israel pôde desenvolver as suas armas nucleares, e os outros países da região não podem investigar o aproveitamento do conhecimento nuclear para fins pacíficos? Em visão mais radical, mas nem por isso contrária à ética: porque Israel dispõe de 200 ogivas nucleares e os outros países não podem dispor de armas atômicas? O que os faz tão diferentes dos outros? Se o Estado de Israel se sente ameaçado pelos vizinhos, os vizinhos também têm suas razões para se sentirem ameaçados por Israel.

Façamos um rápido exercício lógico sobre as conseqüências de um ataque aéreo – que já não se trata de hipótese, mas de timing – de Israel às instalações nucleares do Irã. Como irão reagir a Rússia e a China e, antes das duas grandes potências, o que fará a Turquia? A Grã Bretanha, segundo informou ontem The Guardian, já está estudando participar de uma expedição contra o Irã e só o governo dos Estados Unidos – exceto alguns falcões - está relutante. Haveria, assim, uma aliança inicial entre Sarkozy, Cameron e Netanyahu contra o Irã. Talvez os europeus e os próprios norte-americanos vejam nesse movimento uma forma de superar o acelerado descontentamento de seus povos contra a submissão dos estados aos banqueiros larápios. O encontro de um bode expiatório, como parece a propósito a antiga Pérsia, poderia ser uma forma de buscar a unidade interna de ingleses, franceses, norte-americanos – e judeus. É ingenuidade imaginar que o provável ataque se concentrará nas instalações de pesquisa nuclear. Uma vez iniciada a agressão, ela não se limitará a nada, e se repetirá o holocausto da Líbia, com seus milhares de mortos e feridos, em nome dos “direitos humanos” dos ricos.

O mapa geopolítico de hoje é um pouco diferente do que era em 1948 e 1967, quando se criou o Estado de Israel e quando ele se ampliou para além das fronteiras estabelecidas pela comunidade internacional.

É assustador pensar em uma Terceira Guerra Mundial, com novos atores em cena, entre eles possuidores das armas apocalípticas, como a China, o Paquistão e a Índia. Diante da insanidade de certos chefes de Estado de nosso tempo, é uma terrível probabilidade – e com todas as conseqüências impensáveis.

Este texto foi publicado também nos seguinte sites:

http://planobrasil.com/2011/11/06/o-ira-e-a-perigosa-aposta-de-israel/

http://bakalarczyk.blogspot.com/

http://contextolivre.blogspot.com/2011/11/o-ira-e-perigosa-aposta-de-israel.html

http://saraiva13.blogspot.com/2011/11/o-ira-e-perigosa-aposta-de-israel.html

http://2012umnovodespertar.blogspot.com/2011/11/artigo-o-ira-e-perigosa-aposta-de.html

http://aguinaldo-contramare.blogspot.com/2011/11/o-ira-e-perigosa-aposta-de-israel.html

http://omeuministerio.blogspot.com/2011/11/o-ira-e-perigosa-aposta-de-israel.html

http://mestreaquiles.blogspot.com/2011/11/os-riscos-de-uma-guerra-contra-o-ira.html

http://antenor-andrade.blogspot.com/2011/11/jornal-do-brasil-coisas-da-politica-o.html

http://familiasalesiananordeste.blogspot.com/2011/11/jornal-do-brasil-coisas-da-politica-o.html

http://rochamarcio.blogspot.com/2011/11/santayana-israel-na-rota-de-um.html

http://luizfelipemuniz.blogspot.com/2011/11/europa-em-crise-abre-brecha-para-o.html

http://blogdomaurelio.wordpress.com/2011/11/06/o-ira-e-a-perigosa-aposta-de-israel/


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

LULA E AS TENSÕES POLÍTICAS

Os médicos ouvidos nestes últimos dias debitam ao fumo e ao álcool a enfermidade que castiga Lula. As terríveis verdades são muitas, como as cabeças da hidra. A enfermidade, desde Hipócrates, tem sido vista como o resultado de um conflito. Em primeiro lugar, há o conflito entre o desenho evolutivo do homem e sua construção individual. As descobertas recentes mostram que esse conflito se inicia na combinação genética. Mas é preciso também ver a doença, como indicam outros estudiosos, no confronto entre o organismo e o ambiente, como atestam as doenças profissionais. O ambiente não é só o físico, com as alterações do clima e a poluição. Mais duro talvez seja o ambiente da vida em comum – a circunstância moral em que os homens se movem.

No caso dos homens públicos, as pressões do dia-a-dia e as noites indormidas, nas duras exigências da política, costumam ser fatais. Essas pressões, quando as saídas se estreitam, podem levar muitos ao suicídio, como ocorreu a Getúlio Vargas, em 1954, a José Manuel Balmaceda, do Chile em 1891, e provavelmente a Allende, em 1973. No caso, essa fatalidade costuma ser indiferente às questões éticas. Tanto podem levar ao suicídio as grandes causas quanto a demência, como ocorreu a Nero, entre outros.

Normalmente, essas tensões são indutoras de enfermidades graves. Em nossa contemporaneidade – à parte casos suspeitos, como os da morte de Jango, Lacerda e Juscelino – assistimos ao sofrimento e ao fim de Teotônio Vilela, Mário Covas, Quércia, José Alencar, e Itamar Franco, todos eles atingidos pelo traiçoeiro, como ao câncer se referiu outra de suas vítimas, José Aparecido de Oliveira. Com Itamar, que estava em seu momento mais alto da vida, a leucemia foi mais cruel, não lhe dando muita chance para a luta. José Aparecido estava fora do poder, mas as vicissitudes dos últimos anos, quando viu a grande criação de sua vida política – a CPLP – estiolada pela sabotagem do governo Fernando Henrique – devem ter contribuído para a vitória do traiçoeiro.

O caso de Tancredo – que poderia ter exercido a Presidência, não fossem os erros médicos, tão toscos que levam à suspeição – foi de outra etiologia e diferente patologia, mas é evidente que as duras tensões acumuladas, ao longo da vida, contribuíram para que o seu organismo fosse menos resistente, naqueles 38 dias fatais.

Naqueles sete meses, que vão de 14 de agosto de 1984 - quando deixou o governo de Minas - à véspera da frustrada posse na Presidência, Tancredo foi exposto a pressões que nenhum outro político brasileiro sofrera. Elas foram quase intoleráveis, nas articulações para a consolidação da Aliança Democrática e, em seguida à eleição, na formação do Ministério. Testemunha daqueles dias finais, em que as tensões se fizeram mais duras, sei que os constrangimentos – por mais resistente ele fosse – ajudaram a arranhar-lhe os nervos, debilitar suas células e provocar o intenso conflito entre a força de seu caráter e as injunções da inesperada enfermidade.

A História está repleta desses dramas. O caso de Evita Perón é um deles, o de Kirchner, outro. Antes deles, também na Argentina, houve Yrigoyen, o pioneiro da política antiimperialista continental e hoje esquecido. O grande presidente, o primeiro a nacionalizar o petróleo, com a criação do YPF, foi destituído em sua segunda presidência - tal como Vargas, pelas pressões da Standard Oil, e tal como Vargas, com a traição de generais a serviço de Washington. É bom anotar que o YPF, a Petrobrás argentina, assumiu o monopólio do mercado do petróleo em 1º de agosto de 1930, e em 6 de setembro o general Uriburu deu o golpe de Estado. Yrigoyen não se matou, mas foi confinado na Ilha de Martin Garcia, onde a depressão lhe corroeu a saúde, para matá-lo em 1933. Eva pode ter sido, e foi, a adolescente sonhadora, que se aproximou de um homem poderoso e o tornou mais poderoso ainda, instigando-o com sua própria determinação e coragem. Uma vez no poder, ela recuperou a ligação com o povo a que pertencia, como filha bastarda de um capataz de fazenda e de uma dona de pensão, e neta de carroceiro basco e de uma vivandeira, durante a guerra de extermínio contra os índios do norte, movida pelo general Julio Roca. No poder, ela se confrontou não só com os inimigos de Perón, mas também com correligionários do general, que não suportavam a sua influência ideológica. Foram pressões fortes, algumas talvez do próprio Perón, que alimentaram o câncer que a matou.

Estamos agora assistindo à resistência de Hugo Chávez à doença. Seus inimigos exultam e esperam. Seus partidários temem o pior, mas é certo que ele vem lutando com coragem, como lutaram, e lutam os nossos.

Felizmente, uma providencial dor de garganta levou Lula aos médicos, e as suas chances de cura são iguais às que ajudaram Dilma, que venceu a enfermidade e está em plena e bem conduzida atividade como presidente da República – uma república que, de acordo com a síntese dura de Jânio Quadros, “está, desde Deodoro, sob o signo do infortúnio”. Mas não há dúvida que, também em seu caso, as tensões atuaram a fim de abrir-lhe o corpo à doença.

Polícia contra polícia

É constrangedor que, no mesmo dia em que observadores internacionais anunciam que o Brasil, neste fim de ano, ultrapassará a orgulhosa Grã Bretanha, como a sexta economia do mundo, o deputado Marcelo Freixo seja obrigado a refugiar-se no exterior, ameaçado de morte por “milicianos”, ou seja, por políticos e bandidos, associados às forças policiais do Rio de Janeiro.

É um desaforo e um desafio ao Estado, que não pode continuar sem resposta dura e definitiva. A solução está em criar nova organização policial civil, subordinada diretamente ao governo da União, bem remunerada, formada por homens de coragem e idoneidade moral, que possa, a pedido dos estados, identificar e levar à justiça esses criminosos. A lei penal deve ser também revista, a fim de punir, com mais rigor e celeridade, os que, pagos para proteger a sociedade, tornam-se matadores vulgares, como os assassinos dos pobres da periferia, e de juízes, como Patrícia Acioly - e que pretendem matar o deputado Marcelo Freixo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O ESPORTE E O PODER

Como quase todas as atividades sociais, os esportes - e, principalmente, o futebol - passaram a ser administrados pelas razões do capitalismo, e se tornaram um dos maiores negócios do mundo. A FIFA não é, e faz tempo, uma associação mundial de federações nacionais de futebol, mas o centro de um oligopólio internacional dessa modalidade do show-business. Os velhos e tradicionais clubes, ricos uns, pobres outros, não pertencem mais aos milhares de associados. Eles decidiam, em eleições periódicas, quais deles deveriam encarregar-se da direção das entidades, da administração do patrimônio, da escolha dos técnicos e da contratação de jogadores. Hoje, no mundo inteiro, quase todos os clubes têm dono. Quando não o têm diretamente, subordinam-se a contratos de patrocínio e de publicidade que expulsam das decisões os torcedores.

Devemos partir dessa constatação para tratar dos problemas que a Presidente Dilma Roussef está enfrentando, diante das denúncias de corrupção contra o Ministério dos Esportes. Em um negócio bilionário, como é o da realização de um campeonato mundial de futebol, todas as cautelas são poucas. Uma vez que assumimos o compromisso de sediar a Copa, temos que tratar seriamente do assunto, e é preciso que uma força de trabalho, excepcional, e interministerial, cuide das providências governamentais, e atue com firmeza, na defesa de nossa soberania, da segurança do evento, e da lisura de todos os procedimentos que envolvam o dinheiro público. É uma situação excepcional que exige tratamento excepcional.

Se o Ministro dos Esportes é responsável por algum desvio de conduta ética, cabe às autoridades apurar os fatos e, assim fazendo, levar o caso aos tribunais – depois de afastar o suspeito do cargo. Razão tem a presidente: ela não pode atuar sob a imposição das acusações, sem que essas denúncias sejam realmente comprovadas - ou se fundem em evidências convincentes. Ela agiu assim em todos os casos ocorridos em seu governo de dez meses. Atuou dessa forma diante das denúncias contra o Chefe de sua Casa Civil, um dos próceres do maior partido de sustentação do governo. Deu-lhe todas as oportunidades para desmentir os fatos. Infelizmente, seus argumentos não sensibilizaram a opinião pública, porque confessaram o inadmissível, que ele se enriquecera em pouco tempo, prestando consultoria a firmas que deviam ser mantidas em segredo. Se o Ministro fora vítima de fogo amigo, de que há indícios fortes, isso não interessa ao país. Na defesa do Estado, a presidente agiu com firmeza, e o demitiu. Os outros casos foram tratados da mesma forma: os acusados dispuseram de tempo para desmentir as denúncias; não o fazendo, foram compelidos a afastar-se. Com o Ministro Nelson Jobim os motivos foram outros, e ela, na defesa do governo e de sua autoridade como Chefe de Estado, não hesitou em afastá-lo.

Há quem, pela imprensa e pela internet, conceda mais força ao Ministro dos Esportes pelo fato de ter sido secretário geral de Agnelo Queiroz - então seu colega de partido - que ocupava o cargo. Como Agnelo entrou para o PT e se elegeu governador do Distrito Federal, o Ministro Orlando Silva estaria blindado. Ora essa blindagem é tênue. Muito mais blindado, se aceitamos a metáfora, se encontrava o Ministro Antonio Palocci. O cargo de governador do Distrito Federal não absolve ninguém de erros passados, se erros houve no caso, nem dá ao titular o poder de arbitrar o comportamento da presidente da República.

A Presidente Dilma Roussef, ao contrário do que previam alguns de seus adversários, está demonstrando invulgares virtudes políticas. Ela tem sido paciente, mas firme; mantém o natural respeito e amizade para com o seu antecessor, o Presidente Lula, mas isso não a impede de governar com autonomia – a autonomia que lhe foi conferida pelo voto popular. E é à Nação de brasileiros que ela tem que prestar contas, dia a dia, até que passe a faixa a seu sucessor, ou sucessora. o envolvendo o Ministdas denesidente Dilma Roussef est

Imposição do famoso Consenso de Washington, o tal “terceiro setor”, constituído de organizações não governamentais, tem sido, em alguns casos, além de perigosa inserção estrangeira nos assuntos nacionais, ao assumir prerrogativas do Estado, sem a legitimidade do voto, mas com recursos do orçamento, um espaço ideal para o desvio de recursos públicos.

É necessário dar um fim a essas organizações, criadas a partir do fundamentalismo mercantil, da globalização, do neoliberalismo. O Estado não pode delegar sua responsabilidade a terceiros, colocando em risco a governabilidade e a imagem da nação.

Este texto foi publicado também nos seguintes sites:

http://contextolivre.blogspot.com/2011/10/o-esporte-e-o-poder.html

http://gilsonsampaio.blogspot.com/2011/10/o-esporte-e-o-poder.html

http://sitedeesportes.com/?p=2132

A QUEBRA DA ESPANHA E O RISCO SANTANDER

A imprensa internacional informa que o Banco Santander, do Sr. Emílio Botin - acusado, entre outros processos, com a cumplicidade de alguns familiares, de evasão de divisas e de manter, desde o franquismo, contas secretas na Suiça - está sob investigação das autoridades inglesas por ter efetuado empréstimos, não divulgados, de sua filial britânica à matriz espanhola.

Como o país de Cervantes está em crise profunda, a suspeita dos ingleses é a de que Botín esteja transferindo dinheiro de suas filiais do resto do mundo para a Espanha, mediante “empréstimos” intergrupo. Uma eventual quebra da matriz provocará a falência de suas filiais externas.

Embora Botin negue que isso ocorra e que “cada filial é responsável por sua capitalização e suas necessidades de financiamento”, descobriu-se que, nos últimos anos, milhões de euros foram transferidos do Santander da Grã Bretanha para a matriz espanhola, por meio de uma “divisão” pouco conhecida da filial inglesa, a Abbey National Treasury Services.

Os documentos mostram que a filial do Reino Unido “emprestou” mais de dois bilhões de libras esterlinas, o equivalente a dois bilhões e trezentos milhões de euros, à matriz espanhola, e que existem acordos de “financiamento” entre o Santander da Espanha e as filiais do grupo no Brasil e nos Estados Unidos.

Esse quadro é descrito por um analista do UBS AG, Alastair Ryan. Em entrevista ao Wall Street Journal, ele afirma ter havido significativo volume de livre movimento de capitais no interior do Santander recentemente.

Maiores informações sobre esse aspecto da atuação do Banco do Sr. Emilio Botín podem ser obtidas pela área de fiscalização do Banco Central do Brasil, junto à FSA (Financial Services Authority) inglesa.

Foi esse tipo de gente que deixaram entrar no Brasil na época do PROER.

Sequência atualizada deste tema, neste blog:

http://www.maurosantayana.com/2012/06/quebra-da-espanha-e-o-risco-santander-2.html

Este texto foi publicado tambpem nos seguintes sites:

http://gilsonsampaio.blogspot.com/2011/10/quebra-da-espanha-e-o-risco-santander.html

http://blogln.ning.com/profiles/blogs/a-quebra-da-espanha-e-o-risco-santander-mauro-santayana?xg_source=activity

http://noticia-final.blogspot.com/2011/10/quebra-da-espanha-e-o-risco-santander.html

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A ALIANÇA EBX – FOXCONN. APLICAR O DINHEIRO DAS COMMODITIES TAMBÉM NA INDÚSTRIA DE DEFESA, EIS O X DA QUESTÃO.

Boa notícia que o Sr. Eike Batista, da EBX, esteja estudando associar-se aos chineses da Foxconn para a produção de eletro-eletrônicos de primeira linha como tablets, no Brasil. Seria importante que outras empresas de capital nacional que lucram com a exportação de produtos primários, como a Vale, também aplicassem parte de seus lucros na fabricação de produtos de alto valor agregado, entrando em outras áreas, como é o caso da indústria bélica.

O fato de não termos grandes grupos nacionais, com poder de alavancagem de bilhões de dólares na indústria bélica, nem um grande complexo industrial estatal no setor, nos leva a determinados absurdos, como é o caso de não se exigir, por exemplo, mais de que 65% de nacionalização na fabricação dos 2000 blindados encomendados à IVECO.

Isso quer dizer que, em caso de guerra, quando nosso material começar a ser destruído na linha de frente, vamos ter que ir a Roma ou a Turim mendigar peças de reposição para nossas linhas de montagem, e levar na cara um tremendo não, redondo, caso o inimigo que estejamos combatendo seja um país ocidental.

O grupo Cassidian, da EADS, a grande empresa de defesa européia, está anunciando com grande estardalhaço na imprensa estrangeira sua entrada no mercado brasileiro para “cooperar” com nossa indústria de defesa.

Nossos militares tem que entender, apesar de sua formação ancestral em escolas como a francesa e depois a norte-americana, que o Ocidente, na hora de agir contra paises sul-americanos, não fará nenhuma diferença, como aconteceu com a Argentina na Guerra das Malvinas, entre o Brasil, uma Libia ou o Afeganistao.

Em nome da contenção da expansão do Brasil sobre o Atlântico Sul, por causa do pré-sal, ou da “defesa” da natureza na Amazônia, pode se montar uma coalizão entre países europeus e os Estados Unidos, para agir ao arrepio da ONU, de um dia para o outro, com a mesma facilidade com que se montou a agressão contra o Iraque.

Para isso, como aconteceu com as famosas “armas de destruição em massa”, que nunca apareceram, basta uma campanha midiática, como as diversas que já estão em andamento – e que podem ser facilmente intensificadas – como é o caso da que se opõe à construção de Belo Monte, por exemplo.

No campo da defesa, o Brasil tem que se esquecer de países como a França e a Itália, que sempre, no frigir dos ovos, vão ficar do lado da Inglaterra e dos Estados Unidos, e desenvolver suas novas gerações de armamento com o BRICS.

Rússia, Índia e China, devido à distancia geográfica que mantêm com relação ao Brasil e ao fato de terem de cuidar – mesmo no caso da África do Sul - de suas própria áreas de influência - dificilmente irão entrar em guerra contra o Brasil.

Temos que desenvolver, com eles, um novo caça-bombardeio para o BRICS, um novo blindado pesado para o BRICS, um novo helicóptero de assalto para o BRICS, uma nova geração de submarinos nucleares para o BRICS, um novo porta-aviões para o BRICS, novos mísseis ar-ar, terra-ar, e de cruzeiro, para o BRICS, e com eles trabalhar na pesquisa de armas revolucionárias, na fronteira do conhecimento, como as munições cinéticas que estão sendo desenvolvidas pelos Estados Unidos para a sua marinha, por exemplo.

Apesar dos sorrisinhos e dos tapinhas nas costas nos encontros multilaterais, nos “cursos” de aperfeiçoamento ou nos coquetéis dos adidos militares em Brasília – quantas vezes os generais de Khadafi ou de Saddam não foram afagados por esses mesmos mimos? - o pessoal de nossas Forças Armadas precisa entender que o Brasil só poderia se aliar ao Ocidente se pelo Ocidente fosse tratado como igual entre seus pares.

Basta entrar na internet e ver os comentários pejorativos, discriminatórios, eivados de preconceito e de ignorância com que o Brasil é brindado todos os dias e a propósito de qualquer assunto por parte de norte-americanos, italianos, franceses ou ingleses, e até mesmo de seus sócios menores, como os portugueses ou os espanhóis, para ver que isso não tem a menor chance de acontecer.

Este texto foi publicado também nos seguintes sites:

http://planobrasil.com/2011/10/24/a-alianca-ebx-foxconn/#comment-112668

http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/carlosferreira/2011/11/01/alianca-ebx-%E2%80%93-foxconn-aplicar-dinheiro-das-commodities-tambem-na-industria-de-defesa-eis-da-questao/

http://grupobeatrice.blogspot.com/2011/10/no-campo-da-defesa-o-brasil-tem-que-se.html

http://gilsonsampaio.blogspot.com/2011/10/alianca-ebx-foxconn-aplicar-o-dinheiro.html

http://ronaldolivreiro.blogspot.com/2011/10/mauro-santayana-alianca-ebx-foxconn.html