quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O BRASIL, A INGLATERRA, MANTEGA E A MOBILIDADE DA HISTÓRIA.

A imprensa do mundo inteiro repercutiu, na semana passada, principalmente nos países de língua espanhola, o fato de que o Brasil, com base em informações do FMI e do Centro de Investigações de Economia e Negócios, de Londres, acaba de ultrapassar a Inglaterra como a sexta economia do mundo.

A maioria dos leitores e comentaristas dos países ditos de “primeiro mundo“, e, infelizmente, muitos brasileiros, mediante a internet, preferiram, no entanto, minimizar a importância do fato, e ridicularizar o nosso povo, lembrando que somos um país corrompido, que estamos cheios de favelas e meninos de rua, que só vamos sustentar essa posição enquanto a China comprar nossas matérias-primas, ou seja, usando meias verdades - como a de que temos território e população maiores do que o Reino Unido - para compor uma grande mentira.

Talvez para isso tenha contribuído a afirmação, feita pelo Ministro Mantega, há alguns dias, provavelmente por modéstia, de que, “mesmo assim, o Brasil ainda vai levar 20 anos para alcançar os índices de qualidade de vida dos países da Europa.”

Mesmo reconhecendo que ainda é preciso fazer, no Brasil consideráveis avanços no campo social, não posso dizer que o Ministro, e os leitores da imprensa européia e alguns, de nosso país, não tenham incorrido, talvez involuntariamente, em alguns equívocos.

O primeiro deles foi dar a impressão de que partiam da premissa de que indicadores como IDH, qualidade de vida e renda per capita estão destinados a andar sempre adiante e nunca para trás, ou a permanecer imutáveis – em um século de acentuada transformação da situação geopolítica mundial.

O segundo foi não perceber que a prosperidade européia não é tão forte, nem definitiva, quanto parece, porque a qualidade de vida que seus povos tiveram nos últimos tempos não foi fruto apenas de sua capacitação técnica ou competitividade, mas, também e principalmente, da exploração de outros povos, mediante o trabalho escravo, e o controle de seus mercados e recursos naturais. Além disso eles sempre amenizaram suas dificuldades econômicas (e evitaram as revoluções sociais) , com o incentivo à emigração de milhões de desempregados para os Estados Unidos e as nações da América Latina.

A qualidade de vida dos países dos BRICS pode ser baixa, embora todos eles venham fazendo, nos últimos anos, gigantesco esforço para superar essa tragédia, com a melhoria da educação e da pesquisa, na China e na Índia, ou a inserção, via criação de empregos e distribuição de renda, de milhões de pessoas no mercado de consumo, como é o caso do Brasil.

Mas essa relativa prosperidade, conquistada a duras penas nos últimos anos, não advém da exploração do tráfico de drogas – como ocorreu com a Inglaterra, que fez guerra para obter o “direito comercial” de traficar com o ópio na China. Nem do roubo de ouro, prata, pedras preciosas e outras riquezas de terceiras nações, mediante o velho e o atual colonialismo.

Ela é fruto de uma visão mais inteligente, justa e solidária do processo econômico, baseada, como diz o Presidente Lula, na máxima de que “nada é mais barato e dá mais retorno do que investir em pobre”.

A ascensão da China, da Índia, da Rússia, do Brasil, da Índia, nos próximos anos, com o acúmulo de reservas internacionais e a aquisição do controle das grandes empresas das antigas metrópoles, está retirando da Europa a mais valia com que a sua elite contava para viver na flauta, em condições muito superiores às do resto do mundo.

Hoje, essas mesmas elites, além de fazer guerras, como as movidas contra os países árabes, a fim de garantir o controle das matérias primas, exploram com mais avidez o seu próprio povo, cujos protestos contra o corte dos gastos sociais com a saúde, educação e previdência, são reprimidos com violência.

Os países europeus já enfrentam uma forte queda em seu IDH. Na Inglaterra, milhares de famílias, segundo The Guardian, estão entre comer e morar na rua, ou pagar os aluguéis e passar fome. Enquanto estiverem tentando resolver o seu problema com o receituário neoliberal – do qual estamos nos livrando – seus índices de desenvolvimento humano terão declínio acelerado. Por outro lado, se conseguirmos nos livrar das emendas entreguistas à Constituição, ditadas por Washington e impostas pelo governo FHC, continuaremos crescendo, diminuindo a nossa dívida pública interna e externa e reduzindo os nossos juros, que estão entre os maiores do mundo, e os nossos patamares de bem-estar se elevarão, com a ascensão dos pobres a uma vida digna, como já está ocorrendo em muitas regiões. E se a América Latina seguir o nosso ânimo, o equilíbrio entre a qualidade de vida de nossos países e a dos países da Europa provavelmente ocorra antes do que Mantega imagina - e muitíssimo mais cedo do que os europeus desejariam que fosse.

A foto acima se refere - infelizmente - a um link que afirma que mais de 120.000 crianças passaram o Natal de 2011 na rua, ou em condições sub-humanas na Inglaterra:

http://www.parentingclan.com/entry/around-120000-kids-will-wake-up-homeless-this-christmas/

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A TRÉGUA DE NATAL

(JB) - Mesmo nas guerras mais duras, é comum, no Ocidente cristão, que haja uma trégua no Natal, ainda que limitada a algumas horas. Na política, atividade que existe exatamente para impedir as guerras sangrentas, esses dias de fim de ano induzem à interrupção dos embates, retóricos ou não, e é normal que os adversários se congratulem mutuamente. Ainda que seja pelos ritos de cortesia, impera a idéia de que somos iguais, portadores da mesma humanidade daquele rapaz de Nazaré, que maravilhava, quando menino, os doutores do templo e conduzia multidões pela força de sua doutrina - a de absoluta igualdade entre todos os homens.

Mas não devemos confiar muito em que a paz prevaleça nas próximas horas. Há sempre o perigo de algum desatino. Já tivemos fins de ano encharcados de sangue inocente – e não foram poucos. É de se recordar que havia, no fim de 2008, uma trégua entre Israel e os palestinos de Gaza, quando, às 11.30 do dia 27 de dezembro, o governo de Tel-Aviv iniciou o bombardeio da cidade. Era a hora em que a maioria da população se encontrava nas ruas, por ser sábado, e em que menos se esperava uma ação dessa natureza, porque o sábado é sagrado para os judeus. Em quatro minutos caíram mais de cem bombas sobre o centro de Gaza. As revelações posteriores trouxeram mais susto do que as imagens das explosões, transmitidas em tempo real pela televisão. Os agressores usaram munições especiais, à base de tungstênio, e não hesitaram em usar fósforo branco contra a população civil.

Antes, em 30 de dezembro de 2006, quando todos festejavam o fim de ano, o governo títere do Iraque recebia um presente de George Bush: o prisioneiro Saddam Hussein, para ser enforcado, depois de um julgamento parcial, sem direito a uma defesa conforme os costumes internacionais. Hussein talvez tenha sido tudo o que dele disseram seus inimigos, internos e externos, mas seu regime sempre foi visto como o menos sectário de sua área. Depois dos dez anos de bombardeio sistemático do Iraque pelos governos do primeiro Bush e de Clinton – nisso, republicanos e democratas sempre se entendem – o país não constituía qualquer ameaça a seus vizinhos, e como o mundo veio a saber, tampouco dispunha das tão denunciadas armas de destruição em massa.

Os que viram as imagens de Saddam, ao ter a corda atada a seu pescoço, a queda do alçapão e seu corpo estirado depois da morte, não podem negar que a sua atitude foi de absoluta dignidade. Ele não tinha os olhos de quem pedisse piedade, mas de quem desdenhava os seus carrascos que, não obstante toda a proteção americana, pareciam amedrontados. A face de Saddam, diante da morte, não era a de um homem com medo.

Em Gaza, dois anos depois, milhares de pessoas, mas principalmente as mais indefesas, como os velhos, as mulheres e as crianças, foram mortas e mutiladas. E tal como ocorrera antes, nos dez anos de bombardeio contra o Iraque, as crianças foram as mais sacrificadas, acometidas de enfermidades, como a leucemia, provocadas pelas munições especiais, ao que se informa, fornecidas a Tel-Aviv pelos norte-americanos.

Israel não se contentou com pouco: as ações militares duraram 22 dias. E, em coerência com o ódio com que foram desfechadas, receberam a denominação de Operação Chumbo Fundido pelos agressores. Tratou-se de arrogante forma de acrescentar o tripúdio à brutalidade.

O mundo assistiu, estarrecido, àquelas cenas, que chocaram também grande parte da população israelense. Houve a decisão deliberada de arrasar a parcela do território palestino destinada a amontoar um povo confinado e submetido às mais terríveis condições de sobrevivência.

Na Europa, o clima é também de confronto. Escaldados por três guerras sucessivas, no curso de setenta anos (a de 1870, com a Guerra Franco-Prussiana, a de 1914-18 e, finalmente, a Segunda Guerra Mundial, de 1939-45) os franceses e alemães se unem, com a presunção de que podem dominar o continente. A Europa que era dos seis, e chegou a ser dos 27, passa a ser a Europa dos dois. Embora esteja sendo contestado até mesmo por muitos de seus cidadãos, o conservador David Cameron (em todo o resto, governante menor) parece ter razão. Sua moeda não é o euro; não tem, portanto, que submeter sua política fiscal aos interesses de Berlim e de Paris.

Quando passarem estas semanas, e a vida voltar a seu curso, será difícil impedir a emersão das divergências, e novas dificuldades para a região, que sempre se considerou o centro do mundo e da civilização.

No Brasil o fim de ano está um pouco inquieto. A probabilidade de que, a pedido do deputado Protógenes Queiroz, se convoque uma Comissão Parlamentar de Inquérito para reexaminar o processo da privatização das empresas estatais, faz subir a tensão dos meios políticos. A essa tensão se acrescenta outra, a da reação corporativa do poder judiciário a que seus membros tenham a vida investigada por uma instituição criada legalmente para isso. É difícil aceitar que a transparência seja danosa, a não ser para aqueles que preferem a opacidade. De qualquer forma, o recesso parlamentar servirá para a preparação do novo ano, e dará à Presidente da República o tempo necessário à meditação e à escolha de novos ministros de Estado.

Nota: Retribuo aos leitores os votos de boas festas recebidos e desejo a todos muita paz, muita alegria, muita fraternidade.

A VERDADE, A JUSTIÇA E O PERDÃO

(Carta Maior) - Quando se discute sobre a responsabilidade e os limites da Comissão da Verdade, as razões e as emoções de todos se dirigem ao ponto mais doloroso daqueles tempos: a tortura. Por ser tão anti-humana, e nem mesmo corresponder ao instinto animal da caça, que recomenda a rapidez do golpe, a fim de eliminar qualquer reação, o ato da tortura é incompreensível. Só um torturador poderia explicar a natureza de seu comportamento. Os torturados lembram o prazer dos algozes e a sua frustração animalesca, quando encontram a resistência das vítimas.

Ao se referir à violência da extrema-direita na Europa, Theodor Adorno dá uma explicação, que já se encontrava no núcleo do pensamento freudiano : o fascista é, na verdade, um masoquista, que só a mentira transforma em sádico, isto é, em agente da repressão.

Em um de seus inquietantes relatos sobre o auge do totalitarismo nazista, Arthur Koestler – o mesmo autor de “O Zero e o Infinito” – conta, em “Ein Mann springt in die Tiefe (“Um homem salta no abismo”) uma história de torturas na Hungria, sob a ditadura de Miklós Horthy. Um jovem prisioneiro é torturado sempre à mesma hora da tarde, e sua astúcia para a resistência é a de masturbar-se várias vezes ao dia. Estando debilitado pela subnutrição, o esforço reduz a resistência física ainda mais: assim, aos primeiros golpes do torturador, desmaia – e é devolvido à cela com o seu silêncio.

Um dos aspectos menos discutidos da Revolução Francesa é o da ausência de atos de tortura. Houve a violência no ato de prisão de algumas personalidades, por ordem do Comitê de Salvação Pública e dos reacionários termidorianos, como foi o caso de Robespierre, alvejado e ferido na mandíbula, na noite de 27 de julho de 1794, ao resistir na Prefeitura de Paris. No dia seguinte sem ter sido ultrajado, foi guilhotinado.

A tortura sempre fora empregada na História, e tivera seu momento mais forte durante a Inquisição e a Reforma Protestante. A hierarquia católica e os reformistas luteranos e calvinistas (sobretudo os calvinistas) nada ficaram devendo a seus inimigos teológicos. A partir da Revolução Francesa, ela foi virtualmente abandonada pela repressão, até ressurgir durante a Primeira Guerra Mundial.

Em um de seus escritos, Hélio Pellegrino define a tortura como uma tentativa do torturador em colocar o corpo do torturado em conflito com a sua alma: o objetivo da dor é o de vencer o espírito. Antes do poeta e psicanalista mineiro, Albert Camus usaria a mesma imagem, a do conflito entre o corpo e o espírito, em um de seus mais incisivos libelos contra a barbárie dos ocupantes alemães. Na série dos artigos que escreveu, logo depois da libertação, para Le Combat, destacam-se os dedicados aos torturados e mortos pelos colaboracionistas franceses, a serviço dos ocupantes. No texto publicado em 30 de agosto de 1944 – quando se refere a uma das muitas denúncias de tortura daqueles quatro anos de abjeção – Camus se espanta de que torturadores e torturados tivessem a mesma face humana. E lembra a figura de Himmler, que fizera da tortura uma ciência e um ofício, e que entrava em silêncio em sua casa à noite, depois dos crimes perpetrados durante o dia, para não acordar o canarinho amado, que serenamente dormia em sua gaiola.

E descreve os torturadores, os torturados, a natureza justa do castigo e do perdão:

“Eles acreditavam que há sempre uma hora do dia ou da noite na qual o mais valente dos homens se sente covarde. Souberam sempre esperar essa hora. E nessa hora, buscaram a alma, por meio das feridas do corpo, e a tornaram selvagem e demente, e, às vezes, traidora e mentirosa. Quem se atreveria a falar, aqui, de perdão? Já que o espírito compreendeu por fim que só podia vencer a espada com a espada, já que tomou as armas e obteve a vitória, quem lhe queria pedir que esqueça? Amanhã não falará o ódio, senão a justiça mesma, baseada na memória. E é justiça, a mais eterna e sagrada, perdoar, talvez em nome de todos os que, entre nós, morreram sem ter falado, com a paz superior de um coração que jamais traiu: mas também é justiça castigar terrivelmente, em nome dos mais valentes de nós, que foram convertidos em covardes, quando degradaram sua alma, e morreram desesperados, levando em seu coração, devastado para sempre, seu ódio aos torturadores e seu desprezo por si mesmos”.

Em nome dos homens firmes e honrados, que não conseguiram resistir, e falaram, mais do que daqueles que foram capazes de suportar a tortura, é que a verdade deve ser conhecida. Essa verdade redimirá a alma dos que já se foram e aliviará o peso dos que conduzem, ainda vivos, sua alma dilacerada. Uns por terem sido capazes de resistir, apesar da cicatrizes no espírito, e os outros, por haverem sucumbido ao flagelo da tortura.

Lembrar Camus e seu texto pungente, nestes dias de Natal, pode não ser adequado, mas essas reflexões tristes são necessárias. Ocorre que Cristo foi também torturado - por interesse do Império daquele tempo – até o momento da morte, quando o sofrimento do corpo fez com que a alma perguntasse, na agonia: “Pai, por que me abandonaste?”

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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A JUSTIÇA E OS SEUS PARADOXOS

O Ministro Marco Aurélio de Mello contestou, emdecisão liminar, os poderes do Conselho Nacional de Justiça, exatamente noúltimo dia de trabalho normal do STF, antes do recesso de fim de ano. Se oMinistro, conhecido por suas resoluções inusitadas, escolheu esta véspera deNatal, terá tido suas razões. Em política – e é de política que se trata, porquetudo é política – não há coincidências. Há circunstâncias. Só o ministro sabequais são as suas, e todas as especulações se fazem ociosas.
Sua excelência é daquelesmagistrados que não se escondem das luzes. É de seu costume opinar sobre todasas coisas, e nisso não está só no mais alto tribunal do país. O mundo mudou,estamos na época em que todos desejam comunicar-se com todos, e a nova Babel seergue em tijolos de quilobaites. Houve um tempo em que os juízes só semanifestavam nos autos. É certo que em todos os tempos e em todos os lugares, oato de julgar tem sido difícil. Os juízes não são infalíveis. Nada há deperfeito no mundo, e por mais isentos queiram ser os magistrados, eles sãofeitos do mesmo barro de que se fazem os outros homens. De qualquer forma, comseus erros, quando os há, e seus acertos, que são mais importantes, a sociedadeprecisa de juízes e de tribunais. Deles não pode prescindir.
O que faz democráticas associedades é o sistema de múltiplo controle de seus membros e de suasinstituições. A consciência da vida, de que só os seres humanos são dotados,reclama regras de convivência e sua observância, ou seja, as leis. Oshomicídios, por exemplo, devem ser punidos, para impedir que o instinto derépteis, que ainda atua no fundo do cérebro, prevaleça. Em 2007, segundo dadosoficiais, havia 90.000 casos de homicídios não resolvidos, ou seja, sem puniçãopara os seus autores. Em conseqüência daineficácia da polícia e da morosidade da justiça, somos um dos países maisinseguros do mundo. Os que furtam para comer - e os códigos penais de quasetodos os países civilizados aceitam a condição atenuante – devem ser perdoados,o que não tem ocorrido aqui. O direito à vida é anterior ao direito àpropriedade, como os princípios éticos reconhecem.
Os julgamentos não são equaçõesmatemáticas, em que para tais e quais fatores só pode haver uma conclusão(embora haja teorias que admitem mais de uma resposta, ou nenhuma resposta,para alguns problemas). Os juizes são pessoas que julgam atos pessoais, ejulgam com seus próprios instrumentos intelectuais e éticos. A balança pode serprecisa, mas os pesos, como sabemos, costumam variar. E chegamos a uma penosaconclusão: a de que há juízes que cometem atos ilícitos. No passado, era quaseimpossível conhecer seus desvios e puni-los, mas nos últimos anos alguns delesforam denunciados, indiciados, processados e condenados.
Todos sabemos que há conflito entrea Ministra Eliana Calmon, Corregedora Nacional de Justiça, e alguns membros doSupremo Tribunal Federal, entre eles o Ministro Marco Aurélio, a propósito doConselho Nacional de Justiça. É normal – e até desejável – que os altosmagistrados brasileiros divirjam: na justiça, como em todas as outras atividadeshumanas, toda ortodoxia, todos os dogmas – mesmo os tidos como clássicos emDireito – merecem ser vistos com sábioceticismo. O conhecimento – e nele se reúnem os do saber jurídico, o dos fatosem si, o do peso das circunstâncias – é sempre uma possibilidade, jamais umacerteza. Todos os juízes, diante dos autos, são acometidos da razão socrática:sabem que conhecem pouco do que vão julgar. Antes de uma decisão, os bonsjuízes refletem muito, apelam para a razão e, aqueles que nele crêem, suplicampela ajuda de Deus.
Mas é preciso que haja instituiçõesque zelem pela retidão dos juízes. Que o juiz se equivoque, por falta deinformações completas, ou por não encontrar a relação do delito com as leispenais, não o faz passível de reparos ou punição. O que os torna delinqüentes éo dolo. Para os equívocos existem as instâncias de apelação, mas, para ocomportamento doloso, devem atuar órgãos como o Conselho Nacional de Justiça. OCNJ é composto por magistrados escolhidos, em sua maioria, pelos tribunais e,em minoria, pela OAB e pelo Parlamento. Em sua composição, de 15 membros, todossão profissionais do Direito, com a exceção de “dois cidadãos”, de notóriosaber jurídico e reputação ilibada, conforme o artigo 102-B, da Constituição.
Os juízes, mediante sua associaçãocorporativa, contestam esse poder do CNJ – e preferem que o órgão não avoque oexame das denúncias, antes que elas sejam investigadas no âmbito do tribunal emque ocorram. Trata-se de uma posição corporativa, que não deve prevalecer. Épreciso que haja instituição distanciadadas relações pessoais com os acusados, para que o exame dos atos imputados sefaça com a imparcialidade possível, ainda que sujeita à condição humana dosinvestigadores e julgadores.
Se a sociedade for consultada, ela diráque, sim, que é preciso que os juízes sejam fiscalizados e investigados e, sefor o caso, processados. Nesse caso, não há dúvida de que a opinião nacionalestá com a Ministra Eliana Calmon. Enfim, como advertiam os latinos, corruptiooptimi pessima est.

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

UMA RETIRADA SEM GLÓRIA E SEM HONRA


Mais uma vez, os Estados Unidos concluem uma guerra sem ganhá-la, ao não conseguir impor sua plena vontade aos agredidos. Os soldadosnorte-americanos não saem do Iraque como saíram de Saigon, em 30 de abril de1975, escorraçados pelas tropas de Hanói e pelos vietcongs. Desta vez, elesprimeiro arrasaram o Iraque, durante uma década de bombardeios constantes.

O despotismo de Saddam não incomodava antes os EstadosUnidos, quando coincidia com o interesse de Washington. Tanto era assim, que osnorte-americanos estimularam a guerra contra o Irã, e lhe ofereceram suportebélico e diplomático, mas seu objetivo era o de debilitar os dois países. Nomomento em que — cometendo erro político elementar — Saddam pretendeu restauraras fronteiras históricas do Iraque, ao invadir o Kueit, Washington encontrou,com o primeiro Bush, o pretexto para a agressão aérea a Bagdad, a criação dachamada zona de exclusão, em que o bombardeio aéreo era indiscriminado, e obloqueio econômico.

Foram dezenas de milhares de mortos durante os dez anosde ataques aéreos, prévios à invasão. Entre os sobreviventes da agressão, houvemilhares de crianças, acometidas de leucemia pela radiação das muniçõesamalgamadas com urânio empobrecido.

Assim, ao invadir o país por terra, os americanosencontraram um exército debilitado, parte do território arrasado e um governona defensiva diplomática. O pretexto, que os fatos desmoralizaram, era o de queSaddam Hussein dispunha de armas de destruição em massa.


Ontem, o presidente Obama disse que o Iraque é hoje um“país independente, livre e soberano, muito melhor do que era com Saddam”.Saddam, sabem os observadores internacionais, era muito menos obscurantista doque os príncipes da Arábia Saudita.

Seu povo vivia relativamente bem, suas mulheres não eramtratadas com desrespeito e frequentavam a universidade. Algumas ocupavam cargosimportantes no governo, na vida acadêmica e nos laboratórios de pesquisas.Havia tolerância religiosa, não obstante a divergência secular entre os sunitase os xiitas, que ele conseguia administrar, a fim de assegurar a paz interna.

O vice-primeiro-ministro Tarik Aziz era católico, do ritocaldeu. País de cultura islâmica, sim, mas talvez o mais aberto de todos eles aoutras culturas e costumes. O país se encontrava em pleno desenvolvimentoeconômico, com grandes obras de infraestrutura, e mantinha excelentes relaçõescom o Brasil, mediante a troca de petróleo por tecnologia e serviços deengenharia, quando começaram os bombardeios.

Depois disso, nos últimos nove anos, a ocupaçãonorte-americana causou a morte de mais de 100 mil civis, 20 mil soldadosiraquianos e 4.800 militares invasores, dos quais 4.500 ianques. Milhares emilhares de cidadãos iraquianos ficaram feridos, bem como soldados invasores, amaioria deles mutilados. As cidades foram arrasadas — mas se dividiram os poçosde petróleo entre as empresas dos países que participaram da coligação militarinvasora.


Hoje não há quem desconheça as verdadeiras razões daguerra, tanto contra o Iraque, quanto contra o Afeganistão: a necessidade dosuprimento de petróleo e gás, do Oriente Médio e do Vale do Cáspio, aos EstadosUnidos e à Europa Ocidental. Daí a guerra preemptiva e sem limites, declaradapelo segundo Bush, que se dizia chamado por Deus a fim de ir ao Iraque matarSaddam Hussein. Não só os mortos ficam da agressão ao Iraque. Os americanossaem do país, deixando-o sem energia elétrica suficiente, sem água potável, com15% de desempregados e, 85% dos que trabalham estão a serviço do governo.

Toda a história dos Estados Unidos — ao lado de méritosfantásticos de seu povo — foi construída no afã da conquista e da morte. Desde aocupação da Nova Inglaterra, não só os índios conheceram a sua fúriaexpansionista: na guerra contra o México, o país vencido perdeu a metade doterritório pátrio, o que corresponde a quase um terço do atual espaçonorte-americano no continente.

Uma das desgraças da vitória americana foi a ruptura doCompromisso do Missouri, com a ampliação do escravagismo aos novos territórios,que seria — pouco mais de dez anos depois — uma das causas do grande confrontointerno, entre o Sul e o Norte, a Guerra da Secessão. Lincoln, que a enfrentou,havia sido, em 1847, um dos poucos a se opor ao conflito contra o México.


A partir de então, a ânsia imperialista dos EstadosUnidos não teve limites. Suas elites dirigentes e seus governantes, salvoalguns poucos homens lúcidos, moveram-se convencidos de que cabia a Washingtondominar o mundo. Ainda se movem nessa fanática determinação. Agora, saem doIraque e anunciam que deixarão também o Afeganistão, no ano que vem. Mas, aomesmo tempo, dentro da doutrina Bush da guerra sem fim, preparam-se para novaagressão genocida contra o Irã.

Os Estados Unidos nunca conheceram a presença deinvasores estrangeiros. Sua guerra da independência se fez contra tropasbritânicas, que não eram invasoras, mas sim ocupantes da metrópole na colônia.As poucas incursões mexicanas na fronteira, de tão frágeis, não contam. Mas háuma força que cresce, e que não poderão derrotar: a do próprio povonorte-americano, cansado de suportar o imperialismo interno de seus banqueirose das poucas famílias bilionárias que se nutrem da desigualdade.

O povo, mais do que tudo, se sente exaurido do tributo desangue que, a cada geração, é obrigado a oferecer, nas guerras sem glória, contrapovos inermes e quase sempre pacíficos, em nome disso ou daquilo, mas sempreprovocadas pelos interesses dos saqueadores das riquezas alheias.


A situação tomou rumo novo, a partir dos anos 80, comoapontou, em artigo publicado ontem por El Pais, o biólogo e filósofo catalãoFederico Mayor Zaragoza, ex-ministro da Educação de seu país e, durante 12anos, diretor-geral da Unesco. A aliança de interesses entre Reagan e MargarethThatcher significou a capitulação do Estado diante do mercado, e se iniciou aera do verdadeiro terror, com 4 bilhões de dólares gastos a cada dia, emarmamentos e outras despesas militares, e, a cada dia, 60 mil pessoas mortas defome no mundo.

Mayor lembra a que levou o novo credo das elites, queCelso Furtado chamou de “fundamentalismo mercantil”: a melancólica erosão daONU e sua substituição por grupos plutocráticos, como o grupo dos 7, dos 8 e,agora, sob a pressão dos emergentes, dos 20. E na pátria da nova fé nas “razõesdo mercado”, os Estados Unidos, há hoje 20 milhões de desempregados, 40 milhõesde novos pobres e 50 milhões de pessoas sem qualquer seguro de saúde.

A Europa assediada e perplexa, com a falência de suasinstituições políticas, está presa na armadilha do euro, que não tem comoconcorrer com o dólar nem com o yuan, porque yuan e o dólar são emitidos deacordo com a necessidade dos Estados Unidos e da China. Disso conseguiu escapara Inglaterra, que mantém a sua moeda própria.

Os Estados Unidos, se não houver a reação, esperada, deseu povo, se preparam para manter o terror no mundo, mediante suas armaseletrônicas de alcance global, entre elas os aviões não tripulados. Seudestino, se assim ocorrer, será o do atirador solitário, que se compraz emassassinar os inocentes à distância, até que alguém consiga, com o mesmométodo, abatê-lo. E não faltam os que se preparam para isso.

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http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2011/12/16/uma-retirada-sem-gloria-e-sem-honra/

http://english.pravda.ru/hotspots/crimes/20-12-2011/120017-A_withdrawal_without_glory_or_honor-0/

http://www.viomundo.com.br/politica/mauro-santayana-uma-retirada-sem-gloria-e-sem-honra.html

http://www.rededemocratica.org/index.php?option=com_k2&view=item&id=1006:uma-retirada-sem-gl%C3%B3ria-nem-honra

http://bbs.chinadaily.com.cn/thread-723738-1-1.html

http://english.pravda.ru/archive/2011-12-20/

http://www.buzzbox.com/news/2011-12-19/iraq:saigon/?clusterId=7321725

http://www.mynewsreader.com/9903/hanoi/#2559680

http://radiocirandeira.wordpress.com/2011/12/19/iraque-uma-retirada-sem-gloria-e-sem-honra/#comment-157

http://correiodobrasil.com.br/iraque-uma-retirada-sem-gloria-e-sem-honra-2/344161/

http://www.correioprogressista.com.br/cache/72997

http://rodolfovasconcellos.blogspot.com/2011/12/eua-deixam-para-tras-um-iraque-arrasado.html

http://www.colunaonline.com.br/coluna_ler.asp?id=5902

http://www.tribunadaimprensa.com.br/?p=28182

http://www.formadoresdeopiniao.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=15366:uma-retirada-sem-gloria-e-sem-honra&catid=77:politica-economia-e-direito&Itemid=132

http://www.riplastel.com.br/blog/

http://bloganacletoboaventura.blogspot.com/2011/12/politica-internacional-e-economia.html

http://www.ujccuritiba.info/2011/12/uma-retirada-sem-gloria-nem-honra.html

http://minutonoticias.com.br/iraque-uma-retirada-sem-gloria-e-sem-honra

http://contacto-latino.com/news/2864391/uma-retirada-sem-gloria-e-sem-honra-jornal-do-brasil/

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A ESPANHA E OS REIS DO BARALHO

Si tu padre quiere un rey, la baraja tiene cuatro; rey de copas, rey de oros, rey de espadas, rey de bastos”. A velha canção dos republicanos espanhóis volta à atualidade, com o escândalo envolvendo o marido da Duquesa de Palma, a infanta Cristina, filha de Juan Carlos. É certo que o Rei não é culpado de ter o genro que tem, e era, até agora, mais conhecido como ex-excelente jogador de handebol.

O Rei e a Rainha Sofia não têm tido sorte com seus genros. O primeiro deles, Jaime de Marichalar, foi casado com a infanta Elena por 13 anos, dez dos quais perturbados pelas seqüelas de um derrame sofrido em 2001. O casal se divorciou no ano passado.

Os espanhóis começam a perguntar-se se a restauração da Coroa, na pessoa do então jovem príncipe Juan Carlos de Borbón, foi uma boa saída para o impasse institucional surgido com a doença e a morte de Franco. Talvez tivesse sido o melhor caminho, a fim de evitar novo confronto entre as duas idéias de Espanha: a da liberdade e da igualdade, e a do obscurantismo medieval; a de Cervantes e seu D. Quixote, e a da Inquisição de Torquemada. Enfim, era preciso ganhar tempo, mas esse tempo já se cumpriu.

Esperava-se que a monarquia reabilitada em 1975 se comportasse como outras casas reais da Europa, cujos príncipes se alheiam, como chefes de estados em regimes parlamentaristas, dos conflitos políticos e administrativos eventuais. Durante algum tempo, o jovem rei parecia ausente do dia-a-dia da política. Mas, em fevereiro de 1981, com a tentativa de golpe desfechado pelo coronel Tejero, da Guarda Civil, sob o comando do general Milans del Bosch, sua majestade ficou ao lado dos golpistas, das seis e meia da tarde, até uma hora da manhã. Só então, diante da pouca adesão militar à intentona, decidiu falar à nação em defesa dos poderes constituídos. Mas os que conhecem os fatos, não têm dúvida de que o rei sabia da conjura e, discretamente, a apoiava. Não fosse isso, teria cortado o golpe em marcha, sem esperar seis horas para fazê-lo.

O marido de dona Cristina, a infanta mais jovem do rei, Iñaki Undargarin, dirigia um Instituto “sem fins lucrativos”, enfim, uma ong, e recebia dinheiro público, das Ilhas Baleares e de outras regiões autonômicas da Espanha, a fim de promover o turismo e atividades esportivas. Milhões de euros foram desviados para os bolsos do genro do Rei e de seus sócios, segundo a denúncia de um juiz de Palma de Mallorca, que trabalha contra a corrupção, divulgada por El Pais.

O que se teme, na Espanha, é que as investigações avancem e alcancem outros membros da Casa Real. É sabido que o monarca tem ligações íntimas com as grandes empresas financeiras e conglomerados industriais e de serviços na Espanha, entre elas o Banco Santander e a Telefônica. A Telefônica, emprega até agora, em elevadíssimo e altamente remunerado cargo, esse genro do rei envolvido na falcatrua de Palma de Mallorca. Iñaki Undargarin é Alto Conselheiro para os Assuntos Internacionais da empresa, com escritório em Washington e especial preocupação com seus investimentos na América Latina (leia-se Brasil).

O que tem impedido movimento articulado contra a monarquia na Espanha é o medo da classe média conservadora de que eventual volta à República estimule o velho espírito libertário e igualitário dos trabalhadores, e estes retomem a plataforma revolucionária da Frente Popular, de 1934 a 1936. Enfim, que a esquerda conseqüente volte a atuar no país.

Mas se os escândalos - que, ao que se supõe, não se restringem ao caso do Instituto Nóos - chegarem diretamente à Sua Majestade, essa inibição se reduzirá, e é provável que a reivindicação republicana cresça – e apareça. Como os povos já se deram conta, o neoliberalismo não globalizou a prosperidade, mas universalizou o sistema de drenar recursos públicos mediante o chamado terceiro setor, constituído de ongs e institutos disso e daquilo. Trata-se de uma invenção do Consenso de Washington, a fim de esvaziar os estados nacionais de seu poder, e apodrecê-los, mediante a corrupção.

Por falar nisso, está nas livrarias o livro A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr., publicado pela Geração Editorial, de São Paulo, sobre o processo das privatizações, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Os fatos denunciados já eram conhecidos, mas o livro reproduz alguns documentos até agora inéditos. Eles são o relato de uma época tão recente e, ao que parece, já esquecida.

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http://www.noticias.netglobo.org/noticias-por-paises/espanha/16853-a-espanha-e-os-reis-do-baralho-jornal-do-brasil

http://www.jornaldototonho.com.br/?p=19716

http://www.luisnassif.com/profiles/blogs/a-tr-gua-de-natal-e-outros-artigos-mauro-santayana

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http://gilsonsampaio.blogspot.com/2011/12/mauro-santayana-sutil-como-um.html

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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O BRASIL E OS TEMPOS DE CRISE


Sarkozy teme que a Europa exploda, e quer uma solução urgente para o problema econômico do continente. O Tratado de Roma, de março de 1957, envelheceu. As confederações, e a Europa Unida é uma delas, têm a vigência das circunstâncias, amarradas ao perigo ou à esperança, mas se dissolvem quando um estado ou um grupo de estados pretendem nelas exercer a hegemonia. Assim ocorreu com a Confederação de Delos, que havia unido o mundo grego contra os persas. Ela sucumbiu diante do imperialismo ateniense, que levou à Guerra do Peloponeso. A definitiva dissolução ocorreu com a invasão de Filipe da Macedônia, em 378 a.C. – e a Grécia, também nisso, foi um modelo de todas as confederações e impérios do Ocidente.
O mundo chegou a essa exasperação da crise por falta de estadistas. Chegamos a uma situação na qual Ângela Merkel e Sarkozy resolvem ditar o comportamento dos demais países da Europa, e encontram o contraponto de um velho rival histórico, a Inglaterra – também sob o poder nominal de outro governante medíocre, David Cameron. Todos eles estão fazendo de conta, porque quem está mandando não são eles: é o quase senhor do mundo, o Goldman Sachs Bank que, neste momento, exerce o poder de fato e de direito na Itália, com Mário Monti; na Grécia, com Lucas Papademos; e dirige a economia de todo o continente, mediante o Banco Central Europeu, com Mário Draghi. Todos os três são empregados do Goldman.
Houve, ontem, importante encontro no Itamaraty, promovido pelo Embaixador Gilberto Sabóia, presidente da Fundação Alexandre de Gusmão, para discutir a atualidade das relações internacionais. Foram convidadas personalidades do mundo acadêmico, para tratar do assunto, sob o foco da crise política e econômica mundial. Na parte da manhã, que se concentrou nas relações diplomáticas e no estado político do mundo, intervieram os professores Carlos Milani, da Uerj; João Daniel de Almeida, da Universidade Cândido Mendes; Alcides da Costa Vaz e José Flávio Saraiva, da UNB. Na parte da tarde, dedicada aos aspectos econômicos da crise, falaram Antonio Correa de Lacerda, da PUC, de São Paulo; Antonio Jorge Ramalho Rocha, da UNB; Ricardo de Medeiros Carneiro, da Unicamp, e Márcio Pochmann, presidente do IPEA. Mas, mesmo as análises econômicas foram, como é natural, conduzidas pelas preocupações políticas.
A conclusão de quase todos os expositores é preocupante: temos que mobilizar a nação inteira, a fim de nos confrontar com o futuro em que todos os cenários de catástrofe são prováveis – entre eles os da guerra em prazo curto ou, se dela escaparmos, de nova configuração do poder que não nos serve – se a inteligência do mundo não optar pelo multilateralismo e a autodeterminação dos povos, como regra para a arbitragem dos conflitos.
O problema atual se iniciou com o fim da guerra fria, quando a desregulamentação transferiu para o poder financeiro as decisões políticas, com o esvaziamento dos estados nacionais. Para se ter uma idéia, o mercado de capitais, sob o domínio dos grandes bancos, movimenta hoje de 5 a 6 vezes o PIB mundial – e o de derivativos é também alucinante: seu volume é equivalente a 435 trilhões de dólares, ou seja cerca de 30 vezes o PIB dos Estados Unidos. As instituições criadas com o fim da 2ª Guerra Mundial perderam seu sentido, a partir do Acordo de Bretton Woods, que deixou de existir no momento em que se abandonou o padrão ouro como garantia do dólar norte-americano, por decisão unilateral de Washington. Isso trouxe, na definição de um dos participantes, tempestade de dólares sem lastro sobre o mundo.
A desregulamentação - com o fim do Welfare State - permitiu o desatino, de que hoje todos os povos são vítimas, entregues à voracidade do poder financeiro. Um poder financeiro ( e essa é a opinião do colunista, não do encontro) dominado por criminosos, como os já identificados de Wall Street, entre eles o ex-senador por Nova Iorque e ex-governador de Nova Jersey - depois de ter sido presidente do Goldman Sachs - Jon Corzine, que ontem pediu desculpas aos clientes de sua corretora MF Global. Diz não saber aonde foram parar mais de um bilhão de dólares dos recursos de seus clientes, que ele administrava.
As perspectivas não animam. No melhor dos cenários, como apontou o professor Medeiros Carneiro, a China e os Estados Unidos, em parceria, assumem o condomínio do mundo. No pior dos cenários, o futuro, como vem sendo, será decidido pelas armas.
De um modo geral todos concordaram que nós, brasileiros, temos agido no caminho certo. Mas ainda é pouco: é necessário investir pesado na educação. Temos muitas universidades e muitos alunos, mas, com a exceção dos centros de excelência das universidades públicas, a qualidade do ensino é lastimável. Como assinalou Pochmann, só temos 5% dos jovens na idade própria freqüentando as universidades, enquanto no Vietnã – massacrado e arrasado pelos norte-americanos – essa relação é de 34%. Como sabemos, o problema é de base: a educação elementar, no Brasil, é das piores do mundo.
Pochmann demonstrou que as grandes corporações associadas ao capital financeiro, dominam hoje o mundo: os ativos dessas grandes empresas transnacionais correspondem a 47% do PIB mundial. Não se subordinam aos estados nacionais: os estados nacionais é que se subordinam aos seus interesses.
O Embaixador Baena Soares, que moderou o encontro da manhã, lamentou a ausência da imprensa, em dois encontros internacionais ocorridos recentemente em Manaus, um deles entre todos os paises que compartilham da soberania amazônica. Em tom bem humorado, lamentou que Lady Gaga ali não estivesse, para atrair todos os grandes meios de comunicação. No encontro de ontem, no Itamaraty, estava presente um atento jornalista chinês, o que não deixa de ser uma advertência.

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