É provável que fosse um impostor, mas, nestes assuntos, mais do que em quaisquer outros, é bom ficar na dúvida. Ele apareceu logo depois que cinco dias e noites de chuvas pesadas abriram o céu ao sol. Nunca houvera registro de temporal como aquele: nas cento e vinte horas, precisamente medidas, entre o domingo e sexta-feira, as águas, como que exaustas, reduziam-se, de vez em quando, sem estiar, para depois se adensarem em cordas de meia polegada, que desciam diretamente do alto, e furavam o chão despindo os calhaus das encostas. Tudo começou à tardinha com o granizo grosso, que só poupou as poucas cafuas cobertas de sapê, capazes de amortecer as pedras de meia libra. No fim dos cinco dias, outra granizada, mas, de pedrinhas diminutas, como grãos de arroz, que se esfarinhavam nas mãos, deixando-as dormentes de frio.
Vestia um hábito, que poderia ser franciscano, se não houvesse, sobre o peito, o estranho bordado com a cruz que, nas pontas dos braços, se abriam em flechas invertidas, cada uma delas cercando pequena esfera, com sinais desconhecidos. Falava uma língua estranha, para a qual não estávamos preparados. Para comunicar-se, arranjou pedaços de carvão e usou as paredes laterais da igreja, caiadas de novo para, em desenhos, anunciar-nos o inferno. Com espantosa habilidade, denunciou todos os adultérios do povoado e da comarca, colocando, lado a lado, as faces dos pecadores, homens e mulheres, facilmente identificáveis. Da mesma forma denunciou dois crimes de sangue, cuja autoria foi revelada em seus desenhos: os assassinos atirando nas vítimas, e as vítimas caindo.
Imediatamente os homens mais importantes – muitos deles acusados em seus rabiscos – se conluiaram, para as providências. Alguns aconselharam acabar logo com aquele santo de meia-tijela, e decidiram chamar Nego Amâncio, pistoleiro oficial dos donos do lugar. Nego Amâncio, na certa avisado de quem se tratava, deu parte de doente: estava de mão tremendo e sem jogo nas pernas: como iria empunhar sua winchester de papo-amarelo? Talvez fosse melhor só expulsa-lo, aconselhou Betinho, ex-juiz de paz e um dos alcagüetados nos desenhos, inconfundível com seus óculos redondinhos, a pastinha de cabelo para a frente, disfarçando a calvicie, ao lado da mulatona Edivige, mulher do açougueiro e duas vezes mais volumosa do que o escasso amante. Para dizer a verdade, foi a denúncia mais surpreendente de todas. Estavam de acordo, desde que Betinho estivesse à frente do grupo e fosse portador da intimação ao estranho. Enquanto Betinho relutava e discutiam o que fazer, o estranho chamou o padre para fora da Igreja e lhe deu uma surra simbólica com a corda que lhe servia de cinto, objurgando-o com sentenças latinas pronunciadas de trás para a frente (como notou o próprio padre, devotado aos poetas pagãos). Em respeito a Deus, foi o que se deduziu depois, não disse porque estava tratando daquela maneira o sacerdote, mas toda a cidade sabia.
Quando, finalmente, formaram a comissão decidida a livrar-se do estranho, não o encontraram mais. Lavaram as paredes da igreja, o padre disse que tudo não passara de uma incursão do diabo, e, depois de prudente abstinência da carne, tudo voltou ao natural.





