quarta-feira, 5 de junho de 2013

AVISITA DE BIDEN, OS EUA E O BRASIL.


(HD)-A vinda do vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ao Brasil, e a confirmação da visita de Estado da Presidente Dilma Roussef aos EUA, apontam para uma mudança de patamar nas relações entre os dois países.
       Tradicionalmente avessos a uma aproximação maior com a América do Sul, os Estados Unidos parecem ter subitamente despertado para a importância do Brasil na região e no mundo. Entre outros fatos, essa presença internacional explica a recente vitória do Brasil na OMC, contra o voto contrário de 26 países da União Européia e dos próprios EUA.
       O Brasil, hoje, por qualquer ângulo que se veja, é o parceiro necessário na região.
       O maior projeto petroquímico do México está sendo executado por uma empresa brasileira. Pouco ao leste, no mar das Antilhas, a obra mais importante de Cuba, o novo Porto de Mariel, é financiada pelo Brasil e está sendo realizado por outra empresa brasileira, assim como novas usinas da Azcuba, estatal de produção de açúcar,  e de vários projetos de modernização agrícola. Na Bolívia, a venda de gás ao Brasil é de importância vital para aquele país, que nos envia, todos os dias, 30 milhões de metros cúbicos.
         Também na Bolívia e no Perú, o Brasil projeta e constrói a rodovia e a ferrovia transoceânicas, que irão nos levar aos portos do  Pacífico e facilitar o incremento das relações comerciais entre os dois lados do continente.  Ainda no Perú, empresas brasileiras abrem túneis nas montanhas dos Andes, para levar águas para a irrigação de áreas áridas. No Paraguai, o Brasil financia e constrói uma linha de transmissão de energia de Itaipu ao oeste do país. Na Argentina, o maior projeto em discussão hoje, é o da exploração das reservas de potássio de Rio Colorado, a ser executada por uma empresa brasileira.
         Apoiado por pela Espanha e pelo México, os EUA tentam contrabalançar o papel do Brasil na América Latina, com iniciativas como a Aliança do Pacífico. Trata-se de esforço inútil, já que o Brasil é o maior parceiro latino-americano comercial de todos os países envolvidos. Além disso, a Aliança não pode concorrer com a UNASUL ou o com Conselho de Defesa da América do Sul, instituições das quais Perú, Colômbia  e Chile são membros plenos, e compartilham com o Brasil importantes projetos, como o do novo avião militar de transporte da EMBRAER, o KC-390 ou o desenvolvimento de lanchas de patrulha fluviais para a Amazônia.          
         Biden fez questão de ressaltar alguns aspectos que valorizam o papel do Brasil no mundo, como o fato de ser a sétima maior economia e de ter um PIB maior que o da Rússia, ou o da Índia e omitiu outros, como a posição do Brasil como terceiro maior credor externo dos EUA.
         Devemos estreitar, de igual para igual, o diálogo com os EUA, sem nos deixarmos seduzir pelo canto de suas sereias. Eles têm seus interesses e nós temos os nossos. Eles têm o Nafta – e nós temos o Mercosul e os Brics.


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domingo, 2 de junho de 2013

ESTÓRIA DE DOMINGO - O TÚNEL E A ESTRADA.

Habitavam o túnel inconcluso. O engenheiro, ao partir, fizera o inventário das coisas da empresa que deviam vigiar: o compressor, que já não dava no couro, os tubos dilatados, rateando, de sopro frouxo; as brocas cegas, o tambor de guardar água, ferramentas rombudas, caixotes vazios e a carroça de varal quebrado. Deixava também as duas carabinas e sua munição: as balas novas, brilhantes, acondicionadas em papel impermeável, para não azinhavrar.

Dissera o engenheiro que a obra recomeçaria. Anotassem o ponto, no livro próprio, e cumprissem as ordens de José Vicente, mais velho, mais troncudo, veterano balizeiro no levantamento topográfico da estrada que se construía. E ao encarregado presenteou com seu par de perneiras negras, de couro inglês legítimo, que o mulato usava como símbolo do poder.

Três meses depois expirava o crédito deixado pela empresa no armazém da cidade próxima. O comerciante lhes disse que a firma falira e os aconselhou a reclamar na Capital. Venderam-lhe a carroça, por mais um mês de fornecimento do grosso e começaram a pegar biscates nas fazendas das redondezas.

- Um dia eles voltam, para continuar a estrada. O governo não vai perder o serviço feito, e aí a gente recebe o atrasado – garantia o chefe.

Luís Magela, no princípio, contestava a chefia de José Vicente, e procurava conspirar com Alfredão, mato-grossense agauchado, que o desestimulava com seu sotaque fronteiriço: “Bá, tchê, mais de dois precisa de chefe, é a regra dos homens”.

E José Vicente continuou chefe. Com o tempo foram-se as solas de suas botinas, mas, mesmo descalço, conservou suas perneiras altas. Empreitava capinas para os três e ia à frente, desengonçado, os pés barrentos, e as perneiras  sempre cuidadas. Deram-lhe, nas redondezas, o apelido de Vicente-Saracura.

Continuaram morando no túnel, com a mesma esperança. De vez em quando, cioso, José Vicente colocava o compressor para funcionar e depois guardava a lata de óleo no fundo da escavação, no lugar mais alto, onde dormiam em dias de chuva. De ordinário ficavam perto da boca, lugar mais  limpo e menos úmido.

Com o tempo, o buraco ficou mais ou menos habitável. Arrumaram cadeiras e mesa. José Vicente levou do posto de gasolina o calendário enorme, com a foto colorida da jovem nua. Como ela posara de costas. Alfredão se queixava: - “Por que não mostraram a cara da chinoca? Eu queria ver se é bonitinha”. Luís Magela ria com jeito. Chama a moça, Alfredão. Quem sabe ela mostra a cara pra você?” Alfredão enfarado, assoviava “Saudades de Ipacaraí”. Sábado sim, sábado não, dois deles iam ao comércio, para os desafogos de homem.

As vezes pensavam em ir embora, mas desistiam. Se fossem, perderiam os atrasados, quando a obra recomeçasse. Plantaram umas mexeriqueiras e duas touceiras de banana nanica. Cevavam sempre um capado e espalharam galinhas por ali. Oito anos depois – José Vicente tinha razão – o governo resolveu continuar a construir a estrada.

O topógrafo foi recebido com alegria. Mataram um frango, serviram-lhe cachaça, e José Vicente apresentou-se de voluntário para carregar a baliza, novinha, a escala bem pintada em esmalte vermelhão. Quando chegou o engenheiro, mostraram-lhe o livro de ponto, o inventário do material, explicaram a venda da carroça, reclamaram os salários atrasados. O homem disse, vagamente, que o negócio não era com ele, era com o governo, mas iria demorar muito a resolver. A antiga construtora havia falido muitos anos antes, o dono já morrera, desistissem. E lhes pediu que desocupassem o túnel em dois dias, porque iriam dar fogo na rocha.

- Pelo menos arranja serviço pra nós? – indagou José Vicente.

- Não estamos fichando – disse o engenheiro, que não queria encrencas trabalhistas.


Quando voltou com a turma para atacar o serviço, o chefe da obra encontrou os três entricheirados, atrás de uma barricada de pedras. Depois de uma semana de admoestações sem êxito, chamaram a policia. O tenente-delegado mandou parapeitar a cabine do trator com uma chapa de aço e manobrou a máquina. A lâmina empurrou pedras e homens para dentro, e as esteiras fizeram o resto.

O LATIFÚNDIO MULTINACIONAL

(HD)- Os grandes bancos já controlam, mediante o sistema constituído dos fabricanteS de agrotóxicos, como a Monsanto, intermediários, exportadores, importadores e compradores locais,  usinas de beneficiamento, bolsas de futuros, silos e armazéns, o mercado mundial de alimentos. Agora, associados aos governos dos países centrais, estão avançando sobre as terras onde ainda há áreas férteis disponíveis. Só existem dois continentes com essa possibilidade: a África e a América do Sul.                A China, cujo espaço territorial é quase todo árido e fragmentado em centenas de milhões de áreas reduzidíssimas, exploradas for famílias numerosas, está hoje à frente dessa  conquista territorial nos dois grandes continentes. Seu rival histórico, e que sofre da mesma dificuldade geológica, o Japão, mais antigo nesse movimento, disputa as mesmas áreas. Sobre o assunto, no que se refere à China, vale a pena conhecer o estudo de Dambisa Moyo, Winner Take All ( O vencedor leva tudo). No caso da  China não se trata só de empreendedores privados, mas de operação conduzida pelo Estado, como controlador direto de toda a economia do país. Muitos se preocupam com a compra, direta, de jazidas minerais pelos chineses, mas se esquecem do mais estratégico bem da natureza, que é a terra e, com ela, a comida. Ao juntar a agricultura à mineração (a China comprou uma serra inteira ao Peru, uma das maiores reservas de cobre) os chineses buscam controlar o solo rico do planeta.
          Empresas multinacionais, além das organizações chinesas e japonesas, estão adquirindo as áreas disponíveis nas margens dos rios africanos, onde é fácil a irrigação. O mesmo ocorre na América do Sul, e mais no Brasil, onde segundo informações oficiosas, já foram investidos 60 bilhões de dólares na compra de terras. Os chineses usam argentinos como laranjas, para constituir firmas agropecuárias de fachada. O projeto chinês é importar tudo o que produzir para seu  próprio consumo.
            Ainda agora, na discussão, entre o governo e as Farc, na Colômbia,  soube-se que lá na há titularidade regular das terras. Bastou que o governo e os guerrilheiros se dispusessem a discutir, em primeiro lugar, o problema da terra, para que o presidente Santos fosse contestado pelas oligarquias, por meio do ex-presidente Uribe.
            No caso da África, os compradores se entendem diretamente com os governantes, muitos deles notórios corruptos. Os pobres não têm como resistir aos governos e são expulsos, dando lugaar a trabalhadores chineses. No mundo neoliberal, esse movimento de ocupação estrangeira, impelido pelo agro-negócio, é a globalização do latifúndio.  Se, no Brasil, não houver uma reação forte e estratégica, seremos,  súditos dos novos donos das terras. E chegará o dia em que só as recuperaremos com sangue.

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PORTUGAL - MÁRIO SOARES QUER DERRUBAR O GOVERNO.

(CM)- A esquerda européia retomou ontem as ruas, em protestos convocados pelos portugueses, contra a Comissão Européia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu. Ainda que a grande imprensa e as autoridades policiais tenham reduzido a dimensão dos atos, eles foram expressivos. Mas, é natural que tenha sido assim. 
         Por mais importante sejam os movimentos de massas, eles, por si sós, não mudam a História. Os protestos são facilmente reprimíveis pela força policial – a menos que os policiais a eles se adiram, como ocorreu na Queda da Bastilha, quando a Guarda Civil de Paris armou o povo, na jornada de 14 de julho de 1789.
         O que faz as revoluções é a conjunção entre as idéias bem organizadas e a ação  estratégica dirigida  pelos líderes populares.
         Quinta-feira, Mário Soares – o veterano intelectual e líder civil da Revolução dos Cravos, de 1974 – empolgou as forças de esquerda, ao proferir a aula magna da Universidade de Lisboa. Aos 89 anos, o ex-presidente e ex-primeiro ministro, fustigou a política de “austeridade”, exigida pela troica, ou, melhor, pela trinca, supranacional – o FMI, a Comissão Européia e o Banco Central Europeu - que está asfixiando a Europa e prejudicando o mundo inteiro.
        Ao lembrar a Revolução dos Cravos, disse Mário Soares: “Não podemos deixar que tudo isso seja destruído, que o país seja desmantelado e vendido a quem pague mais. Essa austeridade nos leva ao abismo, a ele nos empurra. E tudo, para que? Para enriquecer o mercado. A crise do euro não é só financeira e económica, é também social, política, ética e ambiental. O neoliberalismo, a ideologia que provocou a crise, contra as pessoas e em favor do dinheiro, está morimbunda e não vai poder perdurar muito”. O auditório, de pé, repetiu, aos aplausos, a sua frase final: “Contra o medo, e com patriotismo”. Mário pretende criar nova maioria parlamentar e a queda do governo chefiado por Passos Coelho. 
        Mário Soares, ao exigir a queda do governo, pregou a união das esquerdas e do centro, para recuperar a mensagem da Revolução ocorrida há 39 anos, e da qual é um dos poucos sobreviventes. Trata-se de estabelecer um programa comum de ação, a partir de pontos consensuais, que preservem a democracia e os direitos de todos os cidadãos. A organização política dos povos massacrados pelo neoliberalismo é o único caminho para impedir a consolidação da ditadura mundial dos banqueiros sob um regime fascista. A direita reforça sua posição no mundo, e a violência dos desesperados, como os atentados recentes de Boston e Londres, em lugar de enfraquecê-la, fortalecem-na. Estamos vivendo situação muito semelhante à dos anos 30, que resultou na tragédia dos campos de concentração e na sangueira da 2ª. Guerra Mundial.

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quarta-feira, 29 de maio de 2013

OS DOIS LADOS DO ATLÂNTICO SUL

(HD)-A Presidente Dilma Roussef acaba de voltar da Etiópia, onde assistiu, como convidada, à Cúpula Presidencial do 50ª Aniversário da União Africana. Lá, além de reiterar os laços culturais e econômicos que nos ligam àquela região, ela anunciou, também, a eliminação de antigas dívidas de 12 países africanos com o Brasil, no valor de 980 milhões de dólares.
             Aqui, muita gente ficou sem entender o gesto, assim como muitos ainda desconhecem as razões que justificam a nossa política africana. A aproximação estratégica do Brasil com a África, como um todo, vem desde o regime militar. Nos anos 1970 e 1980, era para a África e o Oriente Médio que iam milhares de brasileiros, para forjar seu futuro, trabalhando para empresas como a Mendes Júnior no Iraque e a Mauritânia, entre outros países. Para lá exportávamos, antes da destruição da indústria bélica brasileira, tanques da Engesa e da Bernardini, mísseis da Avibrás e armas portáteis.
            A nossa relação com os países de língua portuguesa é mais antiga. Houve anos,antes da independência, em que entravam no porto de Luanda mais navios saídos do Rio de Janeiro do que  de Lisboa. Em plena ditadura, o Brasil foi o primeiro país a reconhecer a independência de Angola.
           Na África, não está apenas o passado de milhões de brasileiros, nos antepassados que dali vieram, mas também o seu futuro. Não se trata apenas da presença, naquele continente, de técnicos da Petrobras,  e de construtoras e mineradoras, ali presentes.
           Sendo a África Ocidental, do ponto de vista climático e geológico, um território gêmeo do brasileiro, é a única região do mundo que oferece ao Brasil a possibilidade de aplicar e demonstrar o que há de melhor em nosso modelo de desenvolvimento econômico e social.
          Nos nossos cultivares de cana, na produção de açúcar e álcool, na soja resistente à seca, no gado tropical para a produção de carne e leite, nos nossos programas de agricultura familiar, estão soluções que podem levar à ocupação produtiva de milhões de hectares de cerrado naquele continente. Não só na economia, mas, também, na política social - como no Brasil - é possível o combate às endemias e epidemias,  a eliminação da fome e o fim da pobreza absoluta.         Esse projeto  de cooperação Sul-Sul, poderá ser grande e solidária ação internacional com povos irmãos na História e na geografia.
         Os países africanos foram decisivos para a vitória brasileira na votação da OMC, e sabem que o Brasil não tem, para com eles, a mesma visão colonialista da Europa e dos Estados Unidos.
         No Brasil há a consciência histórica de que é prioritário, para estabelecer área de paz e prosperidade no Atlântico Sul, tratar, de igual para igual, nossos vizinhos e irmãos do continente e os que habitam o outro lado do oceano.

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A DISSOLUÇÃO DOS MITOS AMERICANOS


           
            (JB)- Os mitos, como os deuses, são produtos do poder. É o controle da informação, mediante a difusão  da cultura opressora, que amedronta os povos indefesos e agiganta os agressores e saqueadores. Depois da Antiguidade, os norte-americanos foram os mais competentes em criar a mitologia da superioridade intelectual e moral de seus políticos, de seus pensadores e de seus exércitos. 
           Como todos os povos, ele teve e tem grandes pensadores e cientistas e é claro que houve (hoje provavelmente não haja mais) soldados que se destacaram por sua bravura nas lutas pela independência, na Guerra da Secessão e nas duas guerras mundiais de que participaram. Na Primeira delas, durante a batalha de Argonne, na frente francesa, o sargento Alvin York avançou com seu grupo sobre um ninho de metralhadoras, matou 28 soldados alemães, prendeu 132 e se apropriou de 32 metralhadoras. Era um homem do campo, que mal sabia ler, e que se tornou o mais condecorado soldado dos Estados Unidos durante o conflito.
           Outro homem do campo – e o oposto do protótipo do super-herói americano, posto que de estatura baixa e corpo mirrado – foi Audie Murphy, o mais condecorado militar dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Esse conseguiu retirar algum proveito do mito, tornando-se ator de cinema de talento reduzido, mas de boa bilheteria, por seu heroísmo real. Os dois, como sabemos, foram heróis em guerras que podemos considerar justas, ainda que servissem também aos poderosos de seu país.
           Fora das guerras citadas – a da Independência, a da Secessão e as duas mundiais – não houve heróis, ainda que tenha havido sacrifícios imensos de seus homens, nos combates travados pelos norte-americanos. Não os houve na guerra de anexação contra o México, nem contra a Espanha – e menos ainda, em decorrência desse conflito, na repressão à luta das Filipinas pela independência.  E ninguém encontrará heroísmo ianque na Coréia, no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão. E nem se fale da Somália, de onde os norte-americanos saíram apressadamente, da mesma maneira que deixaram Saigon. No caso do Iraque, o mais liberal dos regimes da região, a mentira foi usada com desfaçatez: Saddam não possuía qualquer arma de destruição em massa, e era inimigo declarado de Al Qaeda – a mesma Al Qaeda que participa da contra-revolução síria.
        Dessas incursões criminosas falam mais as imagens de Abu Ghraib e de Guantánamo com a tortura contra prisioneiros indefesos, e os relatos brutais da chacina de My Lai, no Vietnã.
        Ontem, no Cemitério de Arlington, na cerimônia anual pelos que morreram em combate, Obama apelou para o sentimento de patriotismo dos norte-americanos, lembrando que os meios tecnológicos da guerra não bastam para substituir o “valor” dos soldados. Ele ponderou que, pelo fato de que, hoje, os soldados são voluntários, e não conscritos, como no passado, o povo não se sente tão empenhado em solidarizar-se com os seus exércitos. Na realidade, o Pentágono “terceiriza” a guerra e usa mais mercenários do que patriotas nos combates.
           Na semana passada, ele dissera, em outra cerimônia militar, que os Estados Unidos devem terminar com a guerra contra o terrorismo tal como ela se desenhara no governo Bush. Ontem, no entanto, insistiu que “a América ainda está em guerra”.
            É possível que os mitos em torno da superioridade norte-americana, alimentados pela imprensa, pela literatura e, sobre todos os outros  meios, pelo cinema e pela televisão, estejam sendo dissolvidos pela realidade. Há coisas novas, que nos trazem certa esperança. Entre elas, o primeiro compromisso entre o governo colombiano e as Farc, a propósito da política agrária a ser adotada no país. E, por mais a França e a Inglaterra advoguem uma intervenção militar na Síria, não parece que Washington e Moscou, cada capital com as próprias razões, aceitem essa nova aventura.
          Obama parece sincero em seu apelo ao Congresso para que autorize fechar Guantánamo e em sua disposição de deixar o Afeganistão no ano que vem. Mas isso não o isenta do que seu país fez na Líbia e em sua cumplicidade com Israel contra o povo palestino.     

           As virtudes do povo americano – e são muitas – só serão conhecidas quando eles esquecerem os mitos e assumirem sua plena humanidade.

terça-feira, 28 de maio de 2013

ESTÓRIA DE DOMINGO - A FORJA.


Levou cinqüenta anos para desc­obrir seu próprio mistério, mas já era tarde para reendereçar o destino. Ao longo da vida, os quadros da memória se confundiam com as gravuras vistas quando menino; não sabia certo se eram cenas alheias ou vividas: o carro-de-boi, os cobertores vermelhos e azuis, o lenço de seda cobrindo a cabeça do homem de dentes de ouro e bigode com a ponta afinada. O homem tinha a cara de pirata, ou o pirata na capa de "A Ilha do Tesouro" tinha a sua cara? O carro-de-boi era real, real o rinchar de seu eixo cocão, ou tudo aquilo eram memórias dos outros, enfiadas em seu nebuloso mundo?

Havia aceitado, com algum en­tusiasmo, a identidade que lhe deram. Era bonito saber-se órfão de pessoas belas e jovens, mortas no acidente de trem. Ali estava o retrato dos dois, pintado com es­malte: rosto com rosto, ela, com as sobrancelhas finas e altas, como era a moda; ele, de gravata com losangos. Tudo falso.

Agora, ao saber da verdade, per­guntava-se de onde teriam vindo os pais do retrato. Possivelmente, os velhos o haviam encontrado em algum bric-a-brac, e um deles teria comentado: "Olha, até que se parecem com o menino, vamos levar?” Estariam vivos ainda os pais-de-retrato? Talvez, e se soubes­sem de quanto ele os havia querido amar, ficassem comovidos. Mas faltam ao mundo os anjos comunicadores. Ele mesmo, quando ouvia falar no trem que se despenhara e fora engolido pelo mar (era a versão) , fazia força para imaginar os pais vivos, resgatados por um barco estrangeiro, vivendo longe, talvez na China ou na Mongólia, e ajuntando dinheiro para voltar. Se houvesse um anjo comunicador de sentimentos, ele poderia ter sido  filho perdido que talvez faltasse ao casal da fotografia: debaixo de seus olhos havia uma sombra de carência.

Agora sabia a verdade. O carro de boi, o homem de lenço amarrado à cabeça, a fogueira perto da lagoa, o pé ferido e inchado e a folha de desconhecida erva usada como curativo, tudo era real. Mas se falsos eram os pais-de-retrato, e os outros, os verdadeiros?

“Agora, que não tem mais remédio, e o senhor já tem netos, vou lhe contar todas as coisas direito", disse dona Afonsinha. E lhe falou da morte da mãe, de parto mal curado, o desespero do pai, meio adoidado, que troca o filho pelos trens de ferreiro com os ciganos, e passa os meses seguintes tentando forjar turbinas de moinho de água.

Até  os três anos viveu entre os zíngaros, e desse tempo vinham as fortes e confusas lembranças. O carro de bois, o seu chiar continuado, uma noite de muitos tiros, certa manhã em que viajava no surrão de uma jumentinha, debaixo de cajueiros, e um caiu lá dentro, cheiroso, bem maduro. O cigano de pano na cabeça cortando cebola com a faca da cintura, a mulher que tinha cheiro de fuligem, os cachorros que saltavam de um lado a outro da fogueira, a carne assada em espetos de ferro, o brilho dos tachos de cobre quando neles batia o sol da manhã. Não eram gravuras, dos livros da fazenda, mas a sua vida de menino. Por que o revenderam?

A senhora do segredo narrou-lhe, então, o episódio de que não se lem­brava de todo: as tropas do tenente Fonseca despejando fogo, com or­dem de matar a ciganada que infestava o baixo Jequitinhonha, depois da morte, a machadinha, de um sargento em Rio do Prado. A ajuda dos praças baianos, vindos de Ilhéus, e armados de mosquetão curto, de tiro mais seco e mais preciso, para ajudar no acabamen­to daqueles ladrões de cavalo e de crianças. Os três meninos deixados na fuga, no arraial sem nome, pelo cigano Inácio, que era maneta.

“Os três ficaram na cafua de uma negra sozinha. Depois o herege voltou, pegou dois dos meninos, que ele achava que eram arraçados de ciganagem, e vendeu o outro por cinqüenta mil réis. O coronel com­prou, a mulher dele, em glória sempre esteja, ficou satisfeita; era de barriga miúda, não tinha filhos, não sabia fazer crochê, nem entendia de criação" – resumiu a velha.

Ele retirou do bolso o maço de notas, colocou debaixo do traves­seiro da mulher que, agonizante, o mandara chamar, e disse, na saída, ao velho que enchia o cachimbo, ter deixado um ajutório. O velho agradeceu:

–  Vai ser no jeito pro enterro. De hoje não passa a agonia, o padre garantiu. O que foi que ela queria falar para o senhor, hein?
O deputado olhou para o seu próprio retrato com a propaganda eleitoral na parede, e respondeu, sério:


– Segredo, Juca. Segredo.