quarta-feira, 10 de julho de 2013

A INSOLÊNCIA AMERICANA


         
         (JB)-Nota-se uma diferença de linguagem na reação do governo brasileiro à ampla invasão do sistema de comunicações de nosso país pelos serviços secretos norte-americanos. A presidente Dilma Rousseff, ainda que ponderada, foi muito mais incisiva do que o chanceler Antonio Patriota.
      O ministro chegou a elogiar a disposição do Departamento de Estado em nos prestar esclarecimentos, pelas vias diplomáticas – como se isso fosse uma concessão do poderoso, e não uma prática da diplomacia clássica. Não se trata de verberar sua atitude, e menos ainda, de louvá-la, mas, sim, de entendê-la: Patriota tem notória simpatia pelos Estados Unidos, onde foi embaixador, antes de assumir a Secretaria-Geral do Itamaraty, e é casado com uma cidadã norte-americana.
       A cada dia nos surpreendemos por novas revelações da intromissão de Washington em nossos assuntos internos. Poucos países do mundo sofreram ingerência direta dos ianques tanto quanto o Brasil. Eles souberam controlar os grandes meios de comunicação no Brasil. E como não conseguem guardar segredos, hoje se sabe que, no cerco contra Getúlio Vargas e a Petrobrás, em 1954, editoriais violentos dos grandes diários do Rio foram redigidos na Embaixada dos Estados Unidos, em inglês, e traduzidos ao português por jornalistas pagos pelos serviços secretos norte-americanos.
       A sua participação na mal-explicada renúncia de Jânio e no posterior golpe de 1964 é hoje um fato histórico bem documentado. O homem-chave em seu planejamento e execução foi o general Vernon Walters, amigo de Castelo Branco, e a mais enigmática figura dos serviços norte-americanos de inteligência, e que foi oficial de ligação do V Exército com a FEB, na campanha da Itália. Walters participou do golpe contra Mossadegh, no Irã, esteve no Vietnã depois do golpe no Brasil, e, entre outros cargos, foi diretor da CIA e embaixador na Alemanha.
      O momento é delicado, uma vez que a presidente Dilma Rousseff deverá realizar uma visita de Estado a Washington em outubro próximo. Essa visita era vista – diante de alentadores sinais do Departamento de Estado – como o início de um novo relacionamento entre os dois países, com o reconhecimento de nosso direito a uma diplomacia livre de orientações e de tutela, o que, de alguma forma, já ocorria, desde o início do governo Lula, em 2003.
       Pressionada por todos os lados, a chefe de Estado está compelida a cumprir o programa, que não se fará sem natural constrangimento das duas partes. Outros fossem os tempos, e governantes -como foram Juscelino, Jânio e Itamar - e o Brasil protelaria, se não cancelasse de vez, a viagem programada para daqui a escassos três meses.   
        Apesar da conjuntura difícil, o Brasil não pode reagir com timidez. Sua postura terá de ser firme, sem bravatas, mas de forma conseqüente. Um dos passos recomendáveis seria a denúncia dos acordos de cooperação na área de inteligência do combate ao narcotráfico – sempre um canal disponível para outros tipos de informação, entre eles os da vigilância de nossas fronteiras.

        Devemos deixar claro o nosso protesto, com medidas efetivas.

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AS GRANDES LAMBANÇAS

 
 (JB)- O caminho encontrado pelos Estados Unidos para ampliar a sua espionagem no mundo pode ser definido com um vocábulo bem brasileiro: tratou-se e se trata de uma grande lambança. Dominada a República pelo fundamentalismo mercantil (a expressão é de Celso Furtado), o governo de Washington, já a partir de Bush, terceirizoua mais grave obrigação dos estados nacionais – a segurança de suas fronteiras e de seus povos. Depois de contratar mercenários para os combates, passou a contratá-los para definir a estratégia internacional do país.
             Espionar os eventuais inimigos é uma prática universal, desde que se desenharam as fronteiras políticas. Os espiões têm que ser recrutados com extremo cuidado, a fim de que se garanta a sua lealdade. Ainda assim, os riscos são imensos, porque não há só a espionagem; existe também a contra-espionagem. Por isso mesmo, o mais famoso agente-duplo do mundo, o britânico Harold Russel Kim Philby, que chefiava uma das seções mais poderosas do MI6, era também o chefe da espionagem soviética no Reino Unido. Philby deu um sério conselho aos jovens que sonham com o romantismo e as emoções da espionagem: trabalhassem sempre por dinheiro, porque nunca saberiam a quem estariam realmente  servindo.
            Contratar empresas privadas para cuidar da segurança nacional pode ter sido a principal “lambança” de Washington, mas não foi a única. E contratar exatamente a Booz Allen pode ter contribuído para que a lambança fosse ainda maior, já que, a veracidade e a importância das informações recolhidas não devem ter sido de muita ajuda à Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos.
           Por falar nisso: há alguns anos, essa mesma Booz Allen, que levou 25 milhões de dólares do governo Fernando Henrique, para identificar “os gargalos” regionais que impediam o desenvolvimento do país, foi encarregada de planejar a reforma do Serviço de Promoção Comercial do Itamaraty. A empresa apresentou o seu projeto, seguido à risca pelo governo: reduzir ao máximo os funcionários contratados e as atividades do setor, de forma a eliminá-lo, na prática. Seguramente essa conclusão interessava aos EEUU. As embaixadas e os consulados americanos, pelo mundo a fora, têm duas tarefas primordiais: espionar e exercer o seu papel de braço avançado do comercio exterior e no apoio às suas multinacionais.
           A obsessão norte-americana pelo controle do mundo, mediante seus agentes, e da corrupção de servidores públicos dos países periféricos, torna seus serviços de inteligência altamente vulneráveis. É impossível fiar-se na fidelidade   de trinta e cinco mil pessoas, entre servidores de carreira e pessoal contratado, no caso, pela Booz Allen, para colher informações e propor providências ao poder executivo.
          Sabemos, agora, que somos dos países mais vigiados pelos norte-americanos. Aos nossos protestos, eles respondem com a mesma cantilena: irão  entender-se com os “parceiros e aliados” mediante os canais diplomáticos usuais.
          Diante dos fatos, cabe-nos agir com lucidez e a urgência. Se é impossível blindar as comunicações eletrônicas, vulneráveis aos hackers, oficiais ou não, e a satélites espiões, devemos, pelo menos, criar  sistema autônomo para as comunicações oficiais brasileiras. Devemos fortalecer com rapidez a nossa Telebrás. É necessário adquirir, de fornecedor confiável (melhor seria se fosse de um dos Brics), sistemas de satélites próprios, de rádio e cabo nossos, que sejam operados por oficiais brasileiros. 

É em momentos como estes que vê-se a falta que faz uma emprezsa estatal de telecomunicações própria. Essa companhia existe, e se chama Telebras, mas não se permite que ela concorra diretamente no mercado e ela tem sido constantemente sabotada pelos interesses que defendem as multinacionais que exploram, com péssimos serviços e preços altíssimos, o mercado brasileiro de telecomunicações. Havia uma subsidiária da Telebras que cyuidava dos nossos satélites, a Embratel, que foi entregue, em outra grande lambança, ao mexicano Carlos Slim. A Telebras , como telecom, foi esquartejada, e seu mercado entregue aos estrangeiros.       
      
          Há outro fato, da mesma ou de maior gravidade: os Estados Unidos mantiveram (ou ainda mantêm?) sistema de rastreamento das comunicações de satélites em Brasília, ao que se informa sem o conhecimento das autoridades brasileiras.
         De passo em passo, de desastre em desastre, a credibilidade dos Estados Unidos despenca. Eles continuam a ser temidos. Mas deixaram de ser confiáveis, até mesmo para seus aliados.

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segunda-feira, 8 de julho de 2013

OS SABOTADORES E A ECONOMIA

     
        (HD)- Se a intenção era sabotar a economia, atingiram seus objetivos os provocadores ocultos atrás dos vândalos e arruaceiros que incendiaram as ruas nas últimas semanas, atearam fogo em repartições públicas, invadiram,  depredaram e saquearam  estabelecimentos comerciais, agências de automóveis, usaram coquetéis molotove destruíram ônibus e outros veículos.
         Houve denúncias de recrutamento de “carecas” em São Paulo por integralistas. Um fuzileiro naval participou da invasão ao Itamaraty. A polícia mineira identificou a presença de grupos organizados de outros estados no cerco ao Mineirão. Essas imagens, divulgadas no mundo inteiro,  deterioraram profundamente a imagem do Brasil no exterior, e afetaram de forma grave as perspectivas econômicas do país nos próximos meses.
       Em conseqüência, tornou-se mais difícil  o desempenho da União e dos estados. Não se trata apenas dos 700 milhões de reais de prejuízo para o comércio, só no dia 20 de junho. Foram bilhões de reais perdidos, com milhares de toneladas de leite e seus derivados, além de outros alimentos perecíveis, como carne e peixe,  que apodreceram nas estradas bloqueadas, por dias inteiros, afetando a inflação e o abastecimento. Registrou-se o atraso no embarque de produtos para o exterior, e houve a queda na ocupação dos hotéis, que, em alguns lugares, como a cidade de São Paulo, se reduziu a 40% em média durante plena Copa das Confederações.
      Alguns colunistas de jornais especializados em economia afirmam que os diretores executivos de empresas estrangeiras no Brasil têm tido como principal missão explicar às matrizes que nosso país não está vivendo uma situação de pré-guerra civil.  A CNN mexicana informa que as manifestações no Brasil espantam  investidores em bônus da dívida brasileira e da Bolsa, que já perdera mais de 20% este ano devido a outras questões, como as que envolvem as empresas de Eike Batista.
      Os problemas de infraestrutura, agravados pelo fechamento constante de importantes rodovias, vão afundar o superávit comercial este ano - cuja queda é estimada em  70% - para cerca de 7 bilhões de reais.
      O real tende a se desvalorizar cada vez mais, aumentando a pressão sobre as reservas internacionais. É difícil que o Investimento Externo Direto acompanhe o nível do ano passado. Quem ousaria investir seu dinheiro aqui, com as cenas de violência que estão sendo vistas lá fora?
      As aquisições e fusões já caíram 50% no primeiro semestre, com relação ao primeiro semestre do ano passado. Esse tipo de situação tampouco favorece a oposição. Se houver uma queda no consumo, na produção, nos investimentos e no emprego, sofrerão democraticamente gregos e troianos que estiverem ocupando cargos de governo.

     Segundo o Datafolha, a aprovação da Presidente Dilma caiu de 57% a 30%. Mas Geraldo Alckmin, principal governador do campo oposicionista, caiu também, de 52 para 30%.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

O QUADRO INSTÁVEL

(JB)-Há um episódio marcante na história dos Estados Unidos, sempre lembrado – e também nesta coluna. Em 1787, quando se aprovavam os artigos da Constituição, em Filadélfia, alguém apontou um quadro, no fundo da sala das reuniões. Tratava-se de uma paisagem, com o sol entre as nuvens com uma montanha no primeiro plano. Tanto podia retratar o amanhecer ou o crepúsculo. Alguém, provavelmente Benjamin Franklin, observou a ambivalência da pintura, para expor sua sabedoria: ela podia significar o nascimento de uma grande nação, ou o ocaso de um sonho, o sonho dos passageiros do Mayflower.
         Podemos ampliar a dúvida de Franklin que, entre outros feitos, inventou o pára-raios: todas as nações, como todas as coisas do mundo, vivem, em cada instante, a alvorada e o entardecer. Os estados – e, muito mais ainda, os governos – são instituições precárias que podem sucumbir na decisão equivocada de um segundo. Essa decisão equivocada pode ser de uma pessoa, que esteja no poder de tomá-la, seja da sociedade nacional como um todo. Na visão desalentada de alguns historiadores, como Bárbara Tuchman, a História é uma longa marcha da insensatez, com raros e efêmeros momentos de bom senso e paz.
        Qualquer observador norte-americano de hoje, diante do quadro que inquietou Franklin, poderá repetir a dúvida: seu país está diante de nova alvorada ou do definitivo crepúsculo. Mas o fado não se limita às fronteiras da orgulhosa república. A civilização está, ela inteira, sobre o fio da navalha. De repente, como no belo prefácio de Helio Pellegrino ao “Encontro Marcado” de Fernando Sabino, o homem acorda, no meio da noite, de repente, nu e só, e a verdade lhe atravessa o peito, como um dardo. Mas não é um só homem. É o homem, como ser histórico, golpeado por todas as dúvidas.
        Um dos dados curiosos das pesquisas, feitas no calor dos protestos no Brasil, há a queda da presença nos eventos evangélicos, em 40%, segundo o Datafolha. Até mesmo o Jeová meio liberal das seitas petencostais está perdendo os seus fiéis. A Igreja tenta, mais uma vez, voltar às catacumbas com o novo papa, o primeiro (é bom registrar) a usar o nome do poverello, mas está sentindo as dificuldades em cumprir essa missão profética. Isso, quando percebemos que nunca como neste tempo,  só a mensagem cristã nos pode  indicar a salvação do reino de Deus, ou seja, o da paz, neste plano temporal, que é o único que nos toca.   
        Estamos assustados com os protestos, como se fôssemos, como povo e como Estado, os únicos intocáveis da Terra. O Brasil, como os seres humanos de John Donne não é uma ilha. Estamos em um só continente a que chamamos Humanidade. Isso se torna mais evidente ao examinar o quadro internacional. Enquanto a Presidente assiste às dificuldades de seu mandato, Obama sai pelo mundo, em busca de simpatia, e é recebido com protestos na África. A União Européia, a mais sólida aliada histórica de Washington, sente o amargo constrangimento de saber que suas decisões estavam sendo acompanhadas pelo sistema de espionagem eletrônica dos Estados Unidos. E Putin deixa claro que não irá entregar Snowden a Obama: nada tem a ver com o fato de que seus “aliados” ocidentais se espionem, desde, é claro, que não espionem a Federação Russa.
        Os romanos partiam da constatação pragmática de que os segredos mandam. Em um mundo sem segredos, a não ser os realmente invioláveis, que ninguém supõe serem ainda possíveis, quem mandará?
        Há sinais de que, no Brasil, a dispersão dos protestos, conforme os setores corporativos, acabará aliviando a pressão sobre os governos, embora não resolva o problema de fundo. Já temos protestos anti-protestos, como os dos trabalhadores no setor de transportes públicos, para os quais o passe livre, se adotado, significará o desemprego. E o dos médicos, contra a vinda de profissionais estrangeiros, que é uma reivindicação dos grotões do país, onde a morte passeia sua impunidade, com a mesma tranqüilidade de alguns políticos corruptos.
        O plebiscito divide a opinião dos políticos e de alguns juristas. A ministra Carmem Lúcia está certa: o plebiscito é previsto na Constituição. Se o poder legislativo convocá-lo, ela terá que providenciar os meios, como chefe da Justiça Eleitoral. Mas não pode fazer o impossível, por isso se reunirá hoje com os chefes dos 27 tribunais regionais eleitorais, a fim de avaliar a possibilidade ou não de conduzir a consulta, no prazo desejável, a fim de que tenha efeito nas eleições do ano que vem.
        Como no resto do mundo, no exercício de nossa soberania, temos que caminhar com prudência, na defesa do estado democrático de direito, dentro da poderosa advertência romana de que a suprema lei é a  salvação da república.

      
 

terça-feira, 2 de julho de 2013

A MORTE DA SOLIDARIEDADE


                      
(HD)-Brayan,  menino de cinco anos, está abraçado à mãe. O pai, o tio e outros moradores da casa se encontram submetidos a um bando de assaltantes, armados de facas, dois deles  com armas de fogo. Assustado, o menino chora,  para que não matem a mãe, jovem boliviana de 24 anos. O pai,  de 28, desespera-se, mas está sob o cano de um revólver. Os assaltantes já recolheram o dinheiro da família, querem mais. O menino implora, não quer morrer. O assaltante ameaça: se não calar, vai ser degolado. O menino grita ainda mais alto o seu desespero – e leva um tiro na cabeça.

                 No passado os crimes de latrocínio, muito raros, tinham como vítimas as pessoas ricas ou de classe média alta. E era inimaginável que matassem crianças, como Brayan. Ocorriam com mais freqüência os furtos, em que se destacavam os batedores de carteira, com sua agilidade nos dedos, capazes de tirar o dinheiro dos bolsos alheios sem dificuldade. E os “vigaristas”, que exploravam a boa fé (e a má fé, também) dos desavisados, com estórias bem elaboradas para lhes tomar o que pudessem. Hoje, os vigaristas contam outros contos, principalmente usando a internet, além da conhecida manobra dos falsos seqüestros, em que, por telefone, fingem-se parentes e pedem dinheiro para dar aos ”seqüestradores”. Já agora, o que predomina é a violência dos assaltos à mão armada e  seqüestros relâmpagos, muitos deles com a morte brutal das vítimas  – quase sempre comandados dos presídios.

                Os pobres raramente furtavam dos pobres. O que predominava entre os trabalhadores, em seus subúrbios e nas favelas, era a solidariedade. Um pai de família desempregado podia contar com os amigos, que se revezavam para que seus filhos não passassem fome. Quando alguém adoecia, podia estar certo da ajuda e da assistência dos companheiros.
       Nas favelas e nos subúrbios, a 
ordem é a do medo, com os moradores submetidos aos chefes locais do tráfico e aterrorizados pelos “milicianos” e pelas batidas policiais. E há pobres que exploram os ainda mais pobres, e os matam, sem a mínima compaixão.
               A relativa prosperidade do Brasil tem atraído trabalhadores dos países vizinhos, entre eles, a Bolívia. Infelizmente, chegando ao país de forma irregular, não têm trabalho legal, submetem-se à necessária clandestinidade, e se tornam vítimas de máfias. Geralmente se endividam para a viagem, e os credores quase sempre são seus próprios compatriotas,  que aqui continuam a explorar o seu trabalho semi-escravo.
              O poder público se ausenta da sorte desses imigrantes, que têm todo o direito a buscar o espaço de sua sobrevivência. E à família de Brayan – além da indiferença, até agora, de seu consulado – não foi prestada qualquer assistência moral.
             

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A BUSCA DO EQUILÍBRIO

         

          (JB)- Há duas definições clássicas para a ordem social: a do relógio e a da balança. Na primeira delas prevalece a vontade daqueles que ocupam o Estado, e que acreditam serem perfeitas as idéias - quase sempre de fundamentalismo teocrático - que aplicam, na legislação e na coerção social.
        O Estado é o relógio com suas engrenagens bem lubrificadas, que não admitem intervenção, a não ser para mantê-lo funcionando, dentro das previsíveis oscilações do pêndulo. É o sistema totalitário, no qual as estruturas sociais permanecem imóveis, cada classe em seu lugar, com a reprodução dos poderosos dentro dos clãs oligárquicos de domínio, e a dos explorados no chão comum que convém ao sistema.
          A imagem da balança corresponde à ordem, vamos dizer, democrática. Os pratos oscilam, conforme as circunstâncias, mas é necessário que se busque o equilíbrio. O encontro do equilíbrio é a mais antiga das aspirações das sociedades políticas. É nessa tensão entre a esquerda e a direita - se permitem o respeito à lógica - que a civilização se moveu e se move.
      Em seu indispensável ensaio, sobre a História de Roma desde a sua fundação, Tito Lívio mostra que a grandeza da República se explicava no confronto criador entre a plebe e o patriciado, com a garantia de que, pelo mérito, os plebeus pudessem ascender ao consulado, mediante o voto, como no caso emblemático de Caio Mário.
     O confronto foi, durante os melhores tempos, o fiel da balança, até que, liquidada a República, o regime de Augusto se perverteu, encaminhando o Império à decadência.
         A deterioração geral do Estado que se identifica como democrático se funda na verdade incômoda de que não temos, a rigor, sistema democrático no mundo. Temos alguns sistemas republicanos melhores do que os outros, mas, em nenhum deles vigora a democracia real. O que temos é um sistema de oligarquias plutocráticas, organizadas hierarquicamente, no plano nacional e no plano mundial, em torno de um centro de mando único, efetivo por ser implícito, que não precisa dar as caras para ser obedecido.
       O mecanismo de controle é o sistema financeiro, com seu braço visível (embora apodrecido) dos grandes bancos e a ala mais ou menos clandestina, e tolerada, dos paraísos fiscais. É o poder financeiro que, normalmente, domina o mundo acadêmico e encabresta os intelectuais, mediante honrarias e dinheiro vivo; que supre de recursos e de teóricos os partidos políticos clássicos; que escolhe os candidatos aos cargos públicos e os elege, por meio do financiamento das campanhas eleitorais.
     É de se lembrar que, com o advento da burguesia mercantil e industrial, a partir do século 16, iniciou-se certo movimento intelectual que encontraria nos dois séculos seguintes - com a Revolução Inglesa de 1642 e a Revolução Francesa de 1789 - a clara intenção de recuperar a idéia democrática da Antiguidade. Mas esse esforço se debilitou, com a perversão do Iluminismo pelo liberalismo, quase escravocrata, da chamada Revolução Industrial.
        Todos nós estamos de acordo em que as comunicações eletrônicas de nosso tempo abalaram todas as formas de autoridade, seja no campo do poder político, seja no campo do conhecimento. Ainda que a informação não seja inteligência, ela pode suscitar, e suscita, mesmo nos menos dotados, o raciocínio que pode gerar a sabedoria. Uma coisa, no entanto, é certa: para o bem e para o mal, a força da autoridade está em erosão no mundo, de Pequim a Washington.
       Apanhados de surpresa pela rebelião anárquica das ruas, com as confusas e muitas vezes contraditórias bandeiras, os políticos estão reagindo sob o medo, quando deviam agir com sensatez. É preciso ouvir as ruas, mas não ouvir os despautérios dos néscios ou alucinados.
       O nosso sistema presidencialista não dispõe de válvulas de escape contra as crises políticas, como delas dispõe o sistema norte-americano, moderado pelo poder constitucional do Congresso e pela força da federação. Mas seu poder judiciário foi cúmplice da fraude eleitoral na Florida, que deu a vitória a Bush filho.
        Isso sem falar nos regimes parlamentaristas, nos quais as crises políticas se resolvem pela destituição dos gabinetes e formação de novas maiorias. E quando há o impasse, o Presidente da República intervém, nomeando governos de emergência. Isso, no entanto, não garante a democracia: algumas das piores ditaduras nasceram, cresceram e sobreviveram nos regimes parlamentaristas.
       Voltam a defender, entre nós, o sistema de listas fechadas ou, em versão mais moderada, o sistema misto, para a eleição dos vereadores, deputados estaduais e federais. Não se vota no candidato, mas no partido. No sistema misto, vota-se duas vezes, na lista partidária e no nome escolhido. Não é difícil estabelecer distritos eleitorais, mesmo mantendo-se o presidencialismo, como ocorre nos Estados Unidos. Mas os problemas de fundo, como os da legitimidade, permaneceriam, enquanto não houvesse igual acesso de todas as idéias e de todos os candidatos aos meios de comunicação. E democracia supõe o voto de uma pessoa em outra pessoa.

        Enfim, precisamos descobrir os meios de recuperar o ideal democrático, aqui e no mundo. E só temos dois meses para preparar e realizar, no país, o plebiscito anunciado. É necessário que todos os homens de boa vontade, do governo e da oposição,  se unam no esforço em favor do Estado democrático de Direito,e de nosso povo.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

O XADREZ TRIANGULAR

               
        
(HD)-Que a administração de Hong Kong consultou a China sob que atitude tomar, no caso de Edward Snowden, e que a China tenha conversado com Moscou e com o Equador sobre o mesmo assunto, não há qualquer dúvida. 

Hong Kong é entidade internacional atípica, mas sob a soberania chinesa. Seus governantes sabem que sua ação diplomática está condicionada a Pequim. Assim, nada fariam com relação a Snowden sem instruções precisas do governo chinês. Os chineses e os russos, os principais alvos potenciais da espionagem eletrônica de Washington, seriam ineptos, se não estivessem em consulta permanente, desde que The Guardian e o Washington Postdivulgaram a denúncia do técnico da Booz Allen, e ex-membro da CIA.
       Dessa forma, ao que tudo indica, eles estão agindo de forma coordenada no episódio, e decidiram manter o governo norte-americano em caldo de adrenalina. Esses dias e horas de mistério devem ter sido aproveitados para que Snowden desse detalhes da operação norte-americana.
       Os chineses, como de hábito, são mais discretos, sem deixar de lado a ironia. Tendo sido acusados, pouco antes da constrangedora deserção de Snowden, de entrar nos arquivos digitais americanos, tinham razões de sobra para a desforra diplomática. E mais sólidas ainda, diante das informações detalhadas do técnico sobre o monitoramento das comunicações e registros dos computadores chineses.
      Ao falar, ontem, na Finlândia, Putin foi claro: Snowden se encontra em lugar seguro no aeroporto de Moscou, mas não atravessou a fronteira. Ele é um homem livre, conforme o líder russo, e poderá decidir o seu destino. Os russos esperam que a decisão seja tomada rapidamente, o que será melhor para Moscou e para o próprio fugitivo. Mas, apesar desse desejo de urgência, Putin disse que, não tendo a Federação Russa qualquer tratado de extradição com os Estados Unidos, não tem por que entregar o rapaz a Washington.
    Ao mesmo tempo o Equador informa que está examinando o pedido de asilo formulado por Snowden, a conselho de Assange, refugiado na embaixada de Quito em Londres. Washingtonmudou o tom de suas exigências. Há algumas horas, Kerry ameaçava diretamente a China e a Rússia de conseqüências em suas relações com os Estados Unidos. O que podem fazer? Os chineses são os maiores credores mundiais dos norte-americanos. Os russos não têm mais o poder soviético, mas não se encontram frágeis. E chineses e russos estão fora da chantagem nuclear de Washington: cada um deles já dispõe de bombas e mísseis capazes de destruir as grandes cidades ocidentais.
    A leitura dos comentários de leitores dos grandes jornais americanos sobre o escândalo do grampeamento mundial das telecomunicações mostra que o governo de Obama está despencando ladeira abaixo. A maioria deles é simpática a Snowden.