quinta-feira, 22 de maio de 2014

A CHANTAGEM DAS ARMAS


(Jornal do Brasil) - Mais uma vez, se repetem as cenas de vandalismo, e de aumento da violência, que se seguem à deflagração de greves policiais que ocorrem, com frequência, em diferentes estados da Federação.
E a Força Nacional e as Forças Armadas tem que ser convocadas para reestabelecer a ordem em vários pontos do país. O que aumenta o risco de conflitos, e de que as circunstâncias saíam do controle, com gravíssimas consequências tanto para os grevistas, como para a população.
Ninguém nega que a maioria dos policiais é profissional e bem preparada e que é preciso ganhar uma remuneração digna e estar bem equipado para fazer frente ao crime.
Mas o policial não pode achar que está acima dos cidadãos normais, nem acreditar que tem direito a aumentos de vencimento percentualmente dez, quinze vezes, superiores aos que recebem os brasileiros comuns. Esse é o caso, por exemplo, do pessoal das Forças Armadas, que vive no mesmo país, com os mesmos preços, custo de vida, etc.
A vida do policial é sacrificada, mas ninguém o obrigou a entrar na profissão. Ele não convocado e forçado a exercê-la. Pelo contrário, escolheu-a livremente, porque, quando prestou concurso, achou a situação e o salário atraentes, senão teria se encaminhado para um diferente destino profissional.
Urge achar outras soluções para os problemas de segurança pública - como a descriminalização da droga e a rediscussão da questão do estatuto do desarmamento - que não estejam voltadas apenas para a contratação permanente de sempre mais policiais e mais equipamentos.

Não se pode aceitar, nem imaginar, que a Nação, sequer por hipótese, fique à mercê da pressão de setores minoritários do funcionalismo. Esses setores, como todos os outros, de forma alguma podem colocar em primeiro lugar seus interesses - à frente do atendimento às necessidades dos cidadãos que pagam, com seus impostos, seus salários, e da própria sociedade como um todo.

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O CRAVO E A FERRADURA


(Hoje em Dia) - Pressionado por parte da mídia, e por segmentos “independentes” mais radicais de oposição, aqueles que, nos portais e redes sociais, esbravejam contra o “bolivarianismo”; a participação brasileira no Porto de Mariel em Cuba; e o apoio implícito à Rússia, na Ucrânia, no contexto da posição comum assumida pelos BRICS, o governo federal dá uma no cravo, e outra na ferradura.

Talvez, para mostrar, que não somos tão radicais assim, em nossas relações com o mundo, a Presidência da República anunciou que  a Senhora Dilma Roussef se encontrará com o Vice-Presidente Joe Biden, dos Estados Unidos, quando ele vier assistir a um jogo da Copa do Mundo, no mês que vem,  em um primeiro gesto de aproximação depois da suspensão de sua viagem de Estado aos EUA, devido ao escândalo da espionagem da NSA.

Ao mesmo tempo, o Brasil promove o rápido fechamento, por seus sócios sul-americanos, da proposta do Mercosul a ser apresentada à União Européia, nas negociações do tratado de livre comércio entre os dois blocos.

E, finalmente, acena, também, com a  compra, por 165 milhões de dólares - depois da derrota dos EUA na escolha dos caças do Programa FX, da Força Aérea, vencida pelos suecos -  de mísseis anti-navio  norte-americanos, para aviões-patrulha da FAB.
   
O Pentágono notificou o Congresso dos Estados Unidos, na semana passada, da consulta feita pelo governo brasileiro, sobre a aquisição de 16 mísseis AGM-84 L Harpoon Block II, e mais 4 mísseis para treinamento.

Na sua justificativa – na verdade um pedido de autorização para a venda do armamento, fabricado pela Boeing - o Departamento de Defesa dos EUA, explica que “a proposta de venda dos equipamentos e de seu suporte não altera o equilíbrio militar básico da região, ou terá impacto adverso na capacidade de resposta dos Estados Unidos”, um eufemismo para dizer que  esse armamento seria praticamente inócuo contra os EUA, em caso de conronto com o Brasil.

A aquisição de novos armamentos dos EUA, para equipar os P-3 Órion da FAB,  não significa, necessariamente, uma  capitulação.  A Índia, que também é sócia do BRICS - e coopera estreitamente com a Rússia na área de armamento - adquiriu 45 unidades desses mísseis, ao preço de 4.5 milhões de dólares cada uma, estranhamente, por 4 milhões de dólares a menos do que o preço que está sendo oferecido ao Brasil.    

No mundo cada vez mais complexo deste novo século, precisamos, naturalmente, navegar, com prudência, nas águas, nem sempre calmas, das relações internacionais, o que implica em negociar, igualmente, com gregos e troianos.

O que não podemos, no entanto, é deixar de separar o joio do trigo, segundo nossos interesses como Nação.

E nem, como no caso do preço dos mísseis, ou do acordo entre a U.E e o Mercosul, o Governo aceitar negociar em desvantagem, ou assumir compromissos que irão nos prejudicar no futuro, devido às  circunstâncias políticas do momento  ou ao calendário eleitoral.


sexta-feira, 16 de maio de 2014

A ANATEL EM ÓRBITA


Como mandar, por 153 milhões, o lucro das multinacionais para cima, e o futuro do Brasil para o espaço.
(Jornal do Brasil) - A ANATEL – Agência Nacional de Telecomunicações, licitou, há poucos dias, quatro grupos de direitos de exploração de satélites, em espaços reservados para o Brasil em órbita terrestre.
Venceram a disouta a Hispamar Satélites, controlada pelo Grupo semi-estatal espanhol Hispasat, que ficou com o primeiro grupo de posições licitado, por 65 milhões de reais; a também europeia, de Luxemburgo, SES-DHT, que ficou com o segundo e o terceiro grupos licitados, por 33 e 26,8 milhões de reais; e a também europeia Eutelsat, controlada majoritariamente pelo governo francês, que ficou com o quarto grupo, por 28,35 milhões de reais.    
Como esse espaço, mesmo, que fique algumas dezenas de quilômetros acima de nossas cabeças, pertence à União, e, portanto, a todos os cidadãos brasileiros, seria interessante, se pudéssemos saber:
Quais são os critérios usados pela ANATEL para a fixação de preço para uma posição de satélite durante 15 anos, renovável por mais 15 anos?
Levou-se em consideração a cobertura, o número de transponders e de canais que serão instalados no satélite?
Esses satélites poderão alcançar apenas o território brasileiro, ou também outros países e regiões do mundo?
Que tipos de serviços serão prestados por meio desses satélites? Banda Larga, telefonia, tv a cabo, outros?
Qual é o potencial de faturamento nos próximos 15, 30 anos, em princípio, desses satélites, na prestação direta de serviços à população, e a empresas de telecomunicações, internet, televisão, rádio, etc ? 
Esse potencial foi calculado, com base, por exemplo, no faturamento atual do mercado de comunicações brasileiro?
Nesse caso, por que não se estabeleceu um “aluguel” anual para o Estado Brasileiro, por cada satélite, ou um percentual de retorno mínimo em cima do faturamento mensal, ou anual, de cada satélite?
O mercado brasileiro de telecomunicações – criminosamente desnacionalizado nos anos 90 - fatura mais de 200 bilhões de reais por ano, e representa aproximadamente 54% do mercado latino-americano. Considerando-se, em uma conta rápida, que isso dá mais de 500 milhões de reais por dia – em troca de o país receber péssimos serviços e pagar, segundo a União Internacional de Telecomunicações, das mais altas tarifas do mundo – a ANATEL licitou quatro posições de satélites, cada uma com um tremendo potencial de venda de um amplo leque de serviços, por menos da metade do que se fatura, em telecomunicações, no Brasil, por dia.
Nesse caso, qual foi a contrapartida oferecida pelas empresas europeias à indústria nacional, para vencer, por esse preço, essa licitação?
Os satélites que serão construídos e lançados a um custo de centenas de milhões de dólares, terão algum conteúdo mínimo nacional? Qual é a vantagem que nossos pesquisadores, e a indústria brasileira, terão nesse processo?
O Brasil já constrói satélites, como os CBERS, com 50% de conteúdo nacional, e 50% de nossos parceiros chineses. Também dispomos de laboratórios, como os do INPE, capazes de testar e certificar satélites estrangeiros, como fazemos, por exemplo, para a Argentina.
No caso de não se ter feito nenhuma exigência nesse sentido, porque essa questão, ou essa possibilidade, não foi contemplada no Edital de licitação da ANATEL?
Afinal, trabalhar com tecnologia estrangeira, nem sempre é garantia de ausência de problemas. Um satélite da própria Hispasat,o  Amazonas A4, lançado da Base Aérea de Kourou, na Guiana Francesa, no início do mês de maio, está sem comunicação com a Terra, e pode ser que não venha a funcionar.
Finalmente, considerando-se a importância estratégica da comunicação orbital para qualquer país – mesmo que já se esteja projetando, por meio da Visiona, o desenvolvimento de um satélite para uso militar – e que as posições foram leiloadas por preço mais do que acessível, porque não se reservou pelo menos uma delas para uma empresa de capital nacional, ou o BNDES, por exemplo, não entrou, com a Telebrás, nesse processo?
Aqui, no Brasil falar em capital estatal na área de telecomunicações é pecado, mas poucos sabem que a Hispasat, vencedora na licitação da ANATEL, tem capital da La Caixa, instituição financeira controlada pelo governo da Catalunha, por meio de fundos de pensão públicos, via ABERTIS, e da SEDI – Sociedad Estatal de Participaciones Industriales, e do CDTI – Centro para el DesarolloTecnológico e Industrial, que pertencem ao Governo Espanhol.
O que ocorrerá, no futuro, se precisarmos de novas posições para a instalação de satélites de comunicações nacionais e de defesa - nos próximos 30 anos, por exemplo?  Teremos mais vagas, em órbita, além das que foram “leiloadas” agora?
Finalmente, e mais importante: houve mesmo concorrência nessa licitação?
A Eutelsat, que ficou com o quarto direito de exploração de satélite, por 28,35 milhões de reais, é o segundo maior acionista, com 33,69%, da Hispasat, maior acionista da Hispamar, que ficou com o primeiro direito de exploração licitado, por 65 milhões de reais. E a ABERTIS, que é a maior acionista da Hispasat, com 57,5% das ações, também é o segundo maior acionista da Eutelsat, com 8,4% das ações.
Foi permitido que os mesmos investidores  concorressem a mais de um grupo de direitos?
Esse tipo de participação cruzada é permitido nas licitações da ANATEL?
Em caso afirmativo, isso ajuda a concorrência, ou a atrapalha?
Isso não bastaria para anular a licitação?
Na década de 70, logo depois da viagem da Apolo 11, muita gente ficou rica vendendo terrenos na Lua, para os incautos.
Precisamos saber se não estamos dando uma de bobos, entregando, da forma como foi feito, nossos “slots” para comunicação via satélite, situados em órbita. 

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A VOLTA DO IMPÉRIO DO MEIO


(Hoje em Dia) - Técnicos do Banco Mundial anunciaram, em estudo divulgado na semana passada, que a China acaba de ultrapassar os EUA em poder paritário de compra, como a maior economia do mundo.

Os chineses costumam dizer que “não interessa a que velocidade você caminha, mas sim, para onde está andando”.

Para o Brasil, quinto maior país e sétima economia do mundo, a inevitável ascensão chinesa, agora voltada para ultrapassar os EUA em PIB nominal, e, um dia, alcançá-lo em tecnologia, defesa, e, com menor desigualdade, em renda, traz inúmeras lições.

A mais importante delas é até onde se pode chegar com um projeto de país baseado no nacionalismo – e não no proverbial entreguismo vigente em nosso país nos últimos 20 anos.

O Estado chinês não financia capitais externos, a não ser que a eles se associe majoritariamente. Ciente da importância de seu mercado interno - convenientemente fechado por muitos anos - ele não empresta dinheiro público para que marcas de automóveis estrangeiras se instalem no país. No lugar disso, compra participação em suas matrizes. E faz isso em todos os setores da atividade econômica.

Seu bem sucedido projeto de desenvolvimento está baseado na presença – serena e incontestável - do estado como proprietário de meios de produção e elemento indutor na economia, em parceria com capitais locais e o capital estrangeiro, que tem que se contentar com um papel secundário no processo, a não ser que queira ficar de fora de um dos maiores mercados do mundo.

Os chineses sabem que de nada adianta industrializar o país e modernizar a economia, se os lucros voarem, todos os anos, para o exterior, como as andorinhas. Afinal, países não são poderosos apenas pelo que produzem, mas também pelo que consomem. Ao ultrapassar os Estados Unidos como o maior mercado do mundo, embora ainda não seja o maior importador, a China dá gigantesco passo rumo ao futuro.

Nos últimos quatro mil anos, a maior parte do tempo, os chineses estiveram à frente da maior economia. A diferença é que - fechados dentro de si mesmos - seus dirigentes encaravam o resto do planeta como bárbaros e sem o refinamento e a educação de sua cultura. Como nações  interessadas em invadir e destruir seu império, como o “ocidente” fez tão logo pôde, implacável e solerte, em defesa, entre outras causas edificantes, do tráfico de drogas pela Coroa Britânica, que deu origem às Guerras do Ópio.

A diferença entre o Império do Meio de antes e o Império do Meio de hoje, é que a Revolução Maoísta abriu a porta para transformar os camponeses em operários, e, até mesmo, em milionários e empreendedores. Além de que o espaço natural para seus produtos e negociantes, estava, antes, quase sempre, cercado pelas sinuosas curvas da Grande Muralha, enquanto, agora, os limites da influência da Nova China avançam para se transformar, cada vez mais, nos próprios limites do mundo. 

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quinta-feira, 15 de maio de 2014

OS CÃES ENLOUQUECIDOS


(Jornal do Brasil) -Tenho, por motivos que não vêm ao caso, amigos no norte de Portugal, em pequena cidade com bela ponte romana que atravessa o Rio Lima, perto de Vianna do Castelo.

Um dia, há muitos anos, estando por lá, em férias, resolvi sair em domingo calmo, para dar uma volta. De repente, já à tarde, me vi sobre a velha ponte de pedra, a alguns metros de pescador de meia idade, olhando as duas margens do rio.  Nessa época do ano, não chovia e a correnteza diminuía de força e de tamanho.

Estávamos ali, em silêncio, quando, ao longe, vi aparecer massa compacta de vira-latas, mais parecida a uma matilha de cães selvagens do que a animais abandonados que tivessem fugido para o rio.

Quando se aproximaram, uns encostados aos outros, parecendo cercar alguma coisa,  começamos a ouvir uivos. Lancinantes.

Acho que fizemos desfavor aos lobos, ao domesticá-los. Ao conviver com os homens, e se tornarem cães, eles aprenderam coisas boas e ruins, e talvez, das más coisas, mais do que deveriam aprender.

Pensei em descer à areia escura, para ver o que ocorria; mas, como os cães não deixassem de se mover, em direção à ponte, esperei que eles se aproximassem.

Estavam cercando algo, porque o círculo quase perfeito que faziam evoluía como um cardume de piranhas dentro da água,  rodeando sua presa.   
   
À medida que os cães chegavam mais perto, os uivos iam se tornando mais   agudos e mais desesperados.

Vi então, no meio deles, um cão menor e mais franzino, que estava sendo agredido pelos outros.

Os que estavam mais próximos rosnavam, e latiam com ódio para ele;  os outros fechavam sua passagem, quando tentava abrir caminho para  se afastar do grupo.

Em intervalos curtos, entre os latidos furiosos, mordiam seus flancos, o rabo ou o focinho.   
     
Apiedado, me aproximei do pescador e entabulei conversa:

- O que será que esse cão fez aos outros, para ser tratado assim? Nunca vi uma coisa dessas. Será que pertence a outro bando, ou tentou  aproximar-se desse?

- Não, não, por aqui só há um grupo de cães, tenho certeza. Mas eles são maus, fazem isso quase sempre, sem motivo.

- Mas por qual razão? – perguntei - eles agem como se soubessem o que estão fazendo. Principalmente, os maiores, os mais agressivos.

- Eu acho que é uma questão de poder.  E de medo.

- Medo de que?

- De que façam com eles o que eles estão a fazer agora a esse infeliz. Se forem perversos, baterem mais, ferirem mais, rosnarem mais, conservam seu lugar no grupo e os outros não se metem com eles. Eles não querem ter culpa como ele.

- Não querem ter culpa como ele? Mas se ele ao que parece, e como o senhor mesmo disse ainda agora, não fez nada?

- Ele não tem nenhuma culpa, mas, pelos ganidos, parece que está a pedir desculpas, como se tivesse, não lhe parece? É como se estivesse com esperança de que, ao aceitar a culpa, qualquer culpa, eles terão pena dele e vão deixar de mordê-lo. Mas não farão isso, o senhor não está a ver, pelo jeito deles?

O homem tinha razão.

Nunca, em minha vida, havia ouvido escapar de um cão sons tão tristes, tão agudos, tão eloqüentes. Era como se pedisse para que parassem. Que o deixassem ir embora. Que não sabia a razão de o terem escolhido, ou do por que estava sofrendo tanto.

A essa altura os cães haviam passado por debaixo dos arcos da ponte em que estávamos e seguiam para o leste.

O pescador me disse que eles iriam levá-lo para a primeira curva do rio, que ficava fora das vistas da cidade.

Com o coração apertado, perguntei-lhe o que iriam fazer com ele.

- Vão matá-lo - respondeu o homem, lançando mais uma vez seu anzol na água  - e depois, comê-lo.

Lembrei-me desse episódio, que estava guardando para uma crônica, ao ler, nos jornais, a história da morte bárbara da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, amarrada e espancada por um grupo de assassinos, no bairro de Morrinhos, na Baixada Santista, em Guarujá.

Uso a palavra assassinos porque, ao contrário do crime pretensamente atribuído à sua vítima – de ter sequestrado uma criança para praticar magia negra - o  deles ficou provado pelo resultado: a morte, por linchamento, de uma jovem mãe,  a partir da divulgação, em site sensacionalista que emula programas vespertinos de televisão, de um retrato falado que teria servido para a “identificação” da vítima pelo grupo de psicopatas que a matou.

Temos tido, no Brasil, nos últimos meses, inúmeros exemplos desse tipo.

Como se não bastassem milhares de mortes de suspeitos, por auto de resistência à prisão, ou em circunstâncias não esclarecidas, pela polícia, pessoas consideradas aparentemente “normais”, estão fazendo “justiça”, ou melhor, cometendo crime de tortura e homicídio, com as próprias mãos. 

Descarregando seu ódio, seu recalque e suas frustrações, com porretes ou pedaços de cano nas mãos. 

Como cães enlouquecidos.

O linchamento é a festa dos assassinos, o playground, ou carnaval dos psicopatas, o recurso mais covarde dos canalhas.

Nada o justifica.

Quem quer punir alguém por um crime, chama a polícia e o entrega à justiça. Quem quer cometer um crime, usa a circunstância de o outro estar cercado, inerme, em minoria - principalmente quando se trata de alguém mais velho, muito jovem ou de uma mulher - para dar vazão aos seus instintos mais baixos, se assenhoreando do corpo do outro, vibrando a cada pancada, a cada paulada, a cada pontapé, bebendo do seu medo, da sua vulnerabilidade, de seu pavor diante da iminência da morte.

Não existe nenhuma diferença entre matar uma criança em um ritual de magia negra e participar do assassinato coletivo de uma mãe.

Os homicidas que humilharam, espancaram e mataram Fabiane Maria de Jesus, devem ser encontrados e punidos, como devem ser os responsáveis pela divulgação do retrato falado e do boato, que não tinham sequer a confirmação do desaparecimento de qualquer criança no município. E que, provavelmente, queriam apenas aumentar o número de visitantes do blog.

A punição maior deve vir da própria consciência dos culpados. Eles mereceriam ouvir, de novo, a cada noite, a cada sonho, para sempre, os apelos dramáticos de sua vítima. Ver, em sua mente, até o último de seus dias, o olhar apavorado de Fabiane, clamando por sua vida.

É isso que nos dá vontade de desejar-lhes, esperando que, em um país que está perdendo a razão em nome do combate à violência, em que não existe mais a presunção de inocência, eles não venham, também, a ser linchados um dia. Se chegar sua vez e seu momento, como chegou, para o cachorro castanho que vi, cercado pelos outros, no areal do rio Lima. 

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quarta-feira, 14 de maio de 2014

ÍNDIA DESMENTE QUE QUEIRA A ARGENTINA NO BRICS


(Do blog) - Dois dias depois das declarações irresponsavelmente lançadas pelo seu embaixador na Argentina – e apressadamente repercutidas, sem confirmação oficial, pela imprensa  argentina - o governo hindu desmentiu,  oficialmente, em Nova Delhi, que tenha intenção de discutir na Cúpula dos BRICS em Julho, em Fortaleza, a incorporação da Argentina ou de qualquer outro país ao grupo e classificou de especulação qualquer notícia nesse sentido. 

Não contente de falar em nome de seu próprio governo, Amarenda Khatua (foto) disse que o Brasil e a África do Sul também teriam respaldado o convite à Argentina, causando um imbróglio diplomático que deve ter dado trabalho aos Ministérios das Relações Exteriores dos BRICS nas últimas 72 horas:


http://zeenews.india.com/business/news/economy/india-not-pursuing-any-agenda-for-expansion-of-brics_99414.html/india-not-pursuing-any-agenda-for-expansion-of-brics_99414.html

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O FOGO ETERNO



(Carta Maior) - No dia 27 de abril, em Lvov, na Ucrânia, um grupo de centenas de pessoas – a maioria de jovens “arianos” - se reuniu para prestar homenagem à Décima Quarta Divisão Waffen SS Grenadier. A unidade foi criada pelos nazistas em 1943, com “voluntários” ucranianos, que cometeriam depois diversas atrocidades contra seu próprio povo.

Foi nesse país - tomado pela estupidez e a loucura - que, premido pelas circunstâncias, o “primeiro-ministro” “interino”, Arseni Yatseniuk, foi obrigado a reconhecer a responsabilidade das “forças de segurança” de seu “governo” pela morte, em Odessa,  de 46 pessoas.

A maioria delas foi queimada viva, no interior da Casa dos Sindicatos, ocupada por russo-ucranianos e anti-golpistas, e cercada por um bando imberbe e covarde de aprendizes de assassino, e de “unionistas”. Um termo recém-criado pelos jornais ocidentais para designar os neonazistas do Pravy Sektor, o Setor de Direita, da Ucrânia.

As declarações de Yatseniuk - ele próprio já flagrado fazendo a saudação hitlerista - desmentem as primeiras versões, então publicadas por meios de comunicação ocidentais. Os sitiados teriam, segundo elas, queimado a si mesmos, incendiando a base do prédio em que se encontravam, ao atirar “coquetéis” Molotov  na rua.

Nos vídeos feitos no local, em nenhum momento se viu alguém jogando algo, ou disparando, das janelas. Mas, por diversas vezes, se pôde perceber garrafas cheias de gasolina sendo lançadas por quem estava do lado de fora, explodindo, em labaredas, nas paredes, e homens de colete à prova de balas disparando em direção à fachada.

Os nazistas, como seus infernais rebentos, - e certos animais que o temem - sempre tiveram reverente fascínio pelo fogo. Hitler ascendeu ao poder, e exterminou a oposição de esquerda, colocando nos comunistas e socialistas a culpa pelo incêndio – pessoalmente ordenado por ele mesmo – do Reichstag, a sede do parlamento alemão da época.
Göering mandava queimar, publicamente, em grandes piras, obras de arte e livros considerados subversivos, seqüestrados das residências de opositores – o que daria origem, mais tarde, a obras como Farenheit 451, de Ray Bradbury.

Os assassinos da SS, antes de cercar, incendiar aldeias e matar a população de cidades como Lidíceou Oradour, cantavam, bêbados, hinos guturais em volta de fogueiras, nas quais esquentavam, à noite,  seus punhais.

E não há como esquecer a luz macabra que saía dos fornos dos crematórios dos campos de extermínio, que se abriam e fechavam sem parar, como a boca insaciável da morte. 

Mas o Fogo Eterno não é aquele do Mal, que consumiu o prédio da Casa dos Sindicatos e dezenas de vidas na semana passada, em Odessa.
O Fogo Eterno é aquele que brilha, mas não se apaga, no coração dos heróis.

O Fogo Eterno queima, e não se consome,  no peito dos que morreram na luta contra o nazismo. Da mesma forma como estão morrendo, agora, os russo-ucranianos em defesa de seu solo, de sua língua, da honra de seus antepassados, e do sangue que seus filhos herdarão, para contrabandear, driblando desafios e malefícios, até as manhãs do futuro.

O Fogo Eterno é aquele que guiou os manifestantes que, horas depois, libertariam 67 companheiros que estavam trancados nas celas da sede das forças de segurança, na mesma cidade.

O Fogo Eterno é aquele que brilha na alma dos homens e das mulheres, que, aos milhares, depositaram em homenagem aos mortos, dúzias e dúzias de flores, de todas as cores, diante do prédio incendiado, e em outros altares improvisados, por toda Odessa.

Muitos gostariam que essa chama – aquela que Prometeu roubou aos Deuses – a da   da Indignação, da Inteligência e da Utopia, se apagasse de uma vez por todas.

Há quem queira que fique, apenas, a iluminar a humanidade, a luz mortiça que tremula aos pés de barro dos ídolos da cobiça e do egoísmo – e a competição estéril de homem contra homem, pelos frutos do hedonismo, no espaço que separa o nascimento e a morte. 


No entanto - apesar de seus adversários - o Fogo Eterno, que não é aquele do inferno, mas sim, o da Liberdade, continuará a arder no coração dos homens, a incomodar a paz dos indiferentes, a atrapalhar o ócio dos privilegiados. E a iluminar a caminhada da Humanidade, em sua luta por justiça, pelas sinuosas trilhas da História.  

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