domingo, 13 de julho de 2014

OS ESTADOS UNIDOS E O "COMBO CONTROL"




O domínio do monitoramento, produção e distribuição de conteúdo nas redes globais de comunicação e entretenimento.


(Jornal do Brasil) - Imaginemos, apenas por uma vez, que  o empertigado Phileas Fogg, e seu criado Passepartout, do livro A Volta ao Mundo em 80 dias fizessem sua viagem agora, e não, como imaginou Júlio Verne, no segundo semestre de  1872.

Em cada cidade em que chegassem, ao adentrar o quarto de hotel, desfazer as malas e mexer no controle remoto, eles certamente se surpreenderiam, ao ver, na estranha tela retangular que chamamos de televisão, fosse qual fosse o país em que estivessem, sempre as mesmas cenas, repetidas, sem cessar, em inglês, ou dubladas e legendadas no idioma local.  

Surgida como alternativa à programação da televisão aberta, a tv por assinatura tornou-se, hoje, o retrato mais bem acabado de um mundo culturalmente unipolar, em que as crianças consomem os mesmos desenhos animados, as mulheres vêem os mesmos programas culinários, os homens assistem à mesma programação esportiva, todos riem das mesmas piadas e tem a cabeça feita e as preferências moldadas por documentários e telejornais estabelecidos dentro das mesmas premissas e abordagem política.

Esse processo de imbecilização progressiva já é tão natural, e dura há tantos anos, que, para as novas gerações, que assistem sempre a mesma coisa, com a única diferença de ser apresentada em seu próprio idioma, fica fácil esquecer que toda essa maçaroca, dos animes à “filosofia”, vem de uma mesma origem e obedece a uma mesma estratégia de controle e pasteurização.

O início foi o telégrafo. Depois, veio o rádio. Impossibilitados, pela tecnologia da época, de tomar seu controle globalmente, os Estados Unidos rapidamente viram no Cinematógrapho dos Irmãos Lumiére uma forma de projetar os mitos sobre o heroísmo e a superioridade dos norte-americanos para além de suas fronteiras.

Para isso, era preciso controlar não apenas a produção de conteúdo, a partir dos grandes estúdios, em Hollywood, mas, também, e principalmente, a distribuição, em um grande número de países. O rádio só resistiu ao cinema, como meio de comunicação e controle de massas, até o advento da televisão. No início, o conteúdo televisivo era local, por ser transmitido obrigatoriamente ao vivo. Depois, com o advento do videotape, ele foi rapidamente dominado pelo país que tinha o maior estoque de conteúdo próprio, os Estados Unidos.

Finalmente, com o passar dos anos, e o avanço da tecnologia, os Estados Unidos conseguiram, finalmente estabelecer o tripé por meio do qual estão estendendo sua influência sobre dezenas de países.  

Esse tripé, que poderíamos chamar de Combo Control, ou Combo de Controle, é o mesmo que  é oferecido, atualmente, pelas operadoras de telecomunicações:

A internet - cuja rede foi estabelecida inicialmente por eles, e é amplamente dominada por suas empresas, como o Google, a Apple, a Microsoft - que serve para a disseminação de conteúdo, o monitoramento de opiniões e atividades contrárias aos Estados Unidos e para a espionagem e a chantagem do  usuário até o nível mais pessoal.

O telefone celular, que hoje se confunde cada vez mais com o computador, e que serve não apenas para monitorar as ligações e seu conteúdo, mas também para estabelecer a localização física de eventuais adversários, até mesmo para sua captura ou assassinato.

E a TV a Cabo, que transformou-se em uma matriz centralizada  para a padronização e distribuição, em escala global, de um conteúdo que é sempre o mesmo, para cada país, e os mais diferentes segmentos em que se divide o público televisivo.

Tudo isso é feito, por meio tanto dos grandes grupos de produção de conteúdo, como a Warner, a FOX e a CNN, como dos grandes grupos de distribuição  de sinais, por meio de cabo ou satélites.

Com a recente compra da Direct TV, controladora da SKY no Brasil, a AT&T, American Telephone and Telegraph Corporation, dos Estados Unidos, tornou-se líder na distribuição de tv a cabo no Brasil e na América Latina.

Na semana passada, a ANATEL - Agência Nacional de Telecomunicações, “comemorou” a chegada da tv a  cabo, no Brasil, ao número de 18 milhões e setecentas mil residências.

Em um país sério, ela estaria, no Congresso e fora dele, estudando uma legislação que nos permitisse oferecer uma alternativa a esse imenso público, que extrapolasse o sempre imutável menu das dezenas de canais norte-americanos.   

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A RESSACA







(Jornal do Brasil) - "Quem teme ser vencido tem a certeza da derrota."

No Day After da histórica goleada de sete a um, da Alemanha sobre a seleção brasileira, no Mineirão, a frase de Napoleão Bonaparte ajusta-se, sem dificuldade, à campanha do Brasil na Copa do Mundo de 2014.

Jogamos, desde o início, não como se estivéssemos disputando nossa vigésima copa do mundo, em nossa própria casa, mas como se pisássemos terra alheia, e praticamente estreássemos nesse tipo de competição.

Para qualquer espectador arguto, já estava escrito o que iria acontecer. Bastava observar a expressão entre aérea e preocupada do senhor Luiz Felipe Scolari, antes do início dos jogos. E interpretar, com a clareza  da fumaça branca saindo das chaminés do Vaticano, em dia de eleição do Papa, o espetáculo de indulgência e autocomiseração que se seguiu à vitória, por um triz, contra o Chile, ao final da disputa de pênaltis.    

O Brasil perdeu, e o pior, perdeu feio, mais pela atitude do grupo do que pela “sacola” de gols que tomamos dos teutônicos no jogo da desclassificação. E, isso, porque não soubemos, desde o início, nos impor - e cantar de galo - dentro das linhas dos retângulos verdes de nosso próprio terreiro.

É certo que aprendemos, depois da Copa das Confederações do ano passado, ao menos a cantar - sem balbuciar ou mascar chicletes - o hino nacional, “à capela”, junto com a torcida.

Mas faltou confiança no país. Nacionalismo. E nos deixamos dominar, em campo, pelo mesmo “complexo de vira-latas” que, muitas vezes nos atrapalha e tolhe fora dele.

Tínhamos tudo - os estádios, a torcida, o fato de estar em casa  - para conquistar, com talento e determinação, no peito e na raça, extraordinária vitória.

Não nos preparamos, no entanto, como fizeram outras seleções, nem como devíamos, nem como guerreiros. Perdendo ou ganhando, choramos mais que nossos adversários, jogando, quase sempre,  menos do que eles.   

Enfim, a derrota só se esquece com a glória, e não adianta tentar salvar a cara, futebolisticamente, jogando melhor para ganhar - se possível for - o terceiro lugar desse torneio.

Para 2018, quem sabe, será preciso estudar outra forma de escolher nossos atletas, que não seja a arrogância e onipotência de quem é mais firme em uma entrevista coletiva, do que no treinamento e capacitação de seus comandados, e que - com mais garra de vencedor do que cara de loser- precisava exibir energia e determinação na beira do gramado.  

Não é possível que um país com 200 milhões de habitantes e milhares de jogadores de futebol tenha que depender sempre da mesma meia dúzia de estrelas, que jogam do outro lado do oceano.   

Com a Copa, o Brasil deu muito aos deuses do futebol em sua visita. Templos, público, emoções, espetáculo. Mas não foi o suficiente para nos concederem os louros da vitória.
  

OS EUA E HITLER





(Hoje em Dia) - Um dos aspectos mais fascinantes da história, é que, por mais que se tente escondê-la, matá-la, enterrá-la, ela acaba, como um cadáver recém exumado que reabrisse as pálpebras para olhar quem o contempla, revelando, implacável e profundamente, seus segredos.



Um dos capítulos menos conhecidos, ao menos para o grande público, da história da primeira metade do Século XX, é o envolvimento de importantes nomes da elite e de grandes  empresas norte-americanas com o hitlerismo, e com os crimes nazistas, incluindo a destruição e o genocídio de milhões de homens, mulheres e crianças,  classificados pelos alemães como “sub-humanos” e “não-arianos”.



Segundo documentos  descobertos em 2004, o avô do Presidente Geoge W. Bush, o senador - e banqueiro - Prescott Bush (1895-1972), não apenas colaborou com colaboradores do regime nazista, antes e depois da chegada de Hitler ao poder - até o ano de 1942, quando os ativos da companhia que dirigia foram tomados pelo governo norte-americano, com base em lei que proibia negociar com o inimigo - mas também que suas ligações com  o magnata alemão Franz Thyssen, a quem representava nos EUA, foram fundamentais para a ascensão política e a consolidação da fortuna de sua família.



As ligações de Prescott Bush com Thyssen, e, por extensão, com o regime nazista, teriam, possivelmente, permanecido ocultas, se os Bush não tivessem sido processados em milhões de dólares, mais tarde, por danos morais e físicos, por dois ex-trabalhadores escravos do campo de extermínio de Auchwitz, que em seu cativeiro trabalharam para empresas alemãs, de alguma forma ligadas ao avô do ex-presidente dos EUA.



São conhecidas as ligações de Henry Ford, fundador da Ford Motor Company, com o antisemitismo, a ponto do inventor do Ford T ter sido condecorado por Hitler.



Mas talvez uma das histórias mais impressionantes do envolvimento de grandes ícones norte-americanos com o nazismo, seja a da IBM, a emblemática International Business Machines, que esteve ligada à Alemanha desde o início.



A IBM foi fundada por um filho de alemães, Hermann Holerith, que, trabalhando para o American Census Bureau, o escritório de estatisticas dos Estados Unidos, desenvolveu um sistema de cartões perfurados e de classificadoras mecânicas para o recenseamento populacional norte-americano, no final do século XIX.



Nascida com o nome de Tabulating Machine Company, a IBM foi fundamental para a contagem, identificação e classificação, com base em características familiares e “raciais” da população alemã e da Europa ocupada pelos nazistas.



Para isso, ela desenvolveu, sob medida, um sistema que permitiu separar e matar, rapidamente cerca de 9 milhões de vítimas, não apenas judias, mas ciganas, homossexuais, Testemunhas de Jeová, comunistas, socialistas, etc e etc. Todas identificadas, da prisão à morte,  por um número tatuado no antebraço, e por um cartão perfurado com as  informações relativas a cada prisioneiro.

A história, de Hermann Hollerith a Thomas J. Watson, o homem que levantou, de fato, a IBM, e a transformou em uma das mais poderosas empresas do século XX, pode ser lida, em português, no livro “A IBM e o Holocausto”, de Edwin Black, da Editora Campus.