sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O BRASIL E O “NEGÓCIO DA CHINA”





(HD) - Desde o início dos tempos, elementos tangíveis e intangíveis, como as matérias-primas, a inteligência e o conhecimento, determinaram a concorrência entre os estados e a ascensão e a queda de impérios e civilizações.

A espionagem, pelo Canadá, de computadores do Ministério de Minas e Energia, e a proposta que a União Européia pretende fazer ao Brasil, na próxima semana, no âmbito de “matérias- primas estratégicas” servem de alerta aos que acham que o advento de novas tecnologias vai sepultar ou diminuir a importância das commodities e das matérias-primas no xadrez geopolítico internacional, nos próximos anos.
Segundo declarou o vice-presidente da Comissão Européia e Comissário de Indústria e Empreendedorismo, Antonio Tajani, em entrevista ao “Valor”, ontem, a Europa pretende propor ao Brasil uma aliança para impedir que a China continue tentando “ter o monopólio de matérias-primas industriais” em escala planetária.
Por trás do eufemismo, está o interesse europeu em um verdadeiro “negócio da China”- que se encontra sob controle de Pequim, neste momento.
Uma alternativa de acesso a terras raras, um conjunto de minerais essenciais para o avanço tecnológico em setores estratégicos, como imãs, baterias de alto desempenho, levitação magnética, ótica, energia eólica, lasers, computação, diagnóstico por imagem, automóveis híbridos e elétricos, aviação, espaço, etc.
País mais populoso do mundo, segunda economia do planeta, e o maior produtor mundial – cerca de 90% - de terras raras, com uma rígida política de comercialização desses minerais, a China pretende três coisas: agregar valor à sua produção, processando-a e transformando-a em produtos acabados em seu próprio território; controlar sua oferta nos mercados internacionais, de forma a obter preços mais justos; e evitar a formação de estoques estratégicos no exterior - terras raras são de grande importância para a área de defesa, por exemplo - por parte de seus maiores competidores.
O grande problema dos países da OTAN, do ponto de vista geopolítico, é que a disponibilidade de terras raras está concentrada, hoje, em países como a China, a Índia, a África do Sul e o Brasil. Todos são nações do BRICS, e é preciso – para eles - evitar que se construa, a partir daí, uma aliança.
O Brasil, com grandes reservas – entre outros minerais de onde se extraem essas matérias-primas - de nióbio e areias monazíticas, já está discutindo, junto com o novo marco da mineração, uma Política Nacional de Minerais Estratégicos e Terras Raras.
É nesse sentido, estratégico e geopolítico, que tem que ser avaliada qualquer proposta européia.
Quem quiser ter acesso a nossas reservas, que se associe ao Brasil para processá-las e agregar valor, aqui mesmo, por meio de transferência de tecnologia.
Não custa nada ouvir o que os europeus têm a dizer. Mas é preciso também conversar com os outros. Começando - depois da UE - pelos BRICS, naturalmente. 

Este texto foi publicado também nos seguintes sites:



              

terça-feira, 8 de outubro de 2013

POR UM BRASIL 2.0





(JB) - No novo marco da internet brasileira e no quadro do enfrentamento da espionagem cibernética norte-americana e de outros países anglo-saxônicos, como se descobriu, agora, no caso do Canadá, é preciso tomar cuidado com o que se está falando, fazendo e propondo.

Se pretende ter papel ativo no estabelecimento de um marco internacional para a internet, o Brasil não pode - por açodamento ou desinformação - adotar ou apresentar propostas inócuas, como a de tornar obrigatória a hospedagem, por empresas internacionais, de dados de cidadãos brasileiros em servidores situados em território nacional.

Estejam onde estiverem, os servidores continuarão a ser operados pelas próprias empresas - a não ser que o governo passe a co-administrar o Google, o Facebook ou a Microsoft no Brasil, o que é tão improvável como ilegal. Se a empresa quiser (ou um diretor seu, ou um simples funcionário) bastará repassar os dados requeridos para governo norte-americano, após recolhê-los em seus servidores instalados em território brasileiro.

Depois, porque esteja dentro ou fora do Brasil, teoricamente qualquer servidor pode ser invadido. Prova disso é que até mesmo servidores do Pentágono e do governo dos EUA já foram “derrubados”, inclusive por hackers brasileiros, que atacaram servidores da NASA (por ter sido – pasmem! - confundida com a NSA) há alguns dias.

Além disso, surgem (e morrem), todos os dias, milhares de empresas na internet, entre elas redes sociais, que, de um jeito ou outro, terão acesso a informações de brasileiros, pessoais ou não, já a partir do cadastro. Como saber se elas têm ou não contato com o governo-norte-americano? Ou se não foram criadas pelas agências de segurança norte-americanas? Como monitorar seu surgimento, e obriga-las a transferir seus servidores para o Brasil?

Construir uma rede de internet, seja ela de âmbito doméstico, corporativo, nacional ou planetário, é, teoricamente, simples.

Com determinação e dinheiro, qualquer nação, ou uma aliança de países, como o BRICS – abordamos a hipótese de uma BRICSNET há alguns dias – pode comprar, ou desenvolver, se tiver tempo, os servidores, backbones, roteadores, cabos de fibra ótica, satélites, antenas, computadores, tablets, iphones, etc, necessários para isso.

Embora o controle físico de uma rede, ou de parte dela –  estamos encomendando satélites, instalando os cabos óticos da UNASUL e discutindo o projeto BRICS Cable – seja importante, ele de nada vai adiantar se não dispusermos de softwares, que sejam também relativamente seguros, para que essa rede, ou sub-rede,  venha a funcionar.

Esses softwares, “open source”, existem. Como possuem código aberto e são aperfeiçoados rotineiramente, de forma voluntária e colaborativa, por gente do mundo inteiro, é mais difícil dotá-los de “armadilhas” e “portas” clandestinas - como ocorre com softwares das grandes empresas de internet, -  para espionar os usuários.

O governo brasileiro já utiliza software livre em programas ligados ao estado. E também softwares desenvolvidos pelo próprio governo. Tem que passar a usá-los, exclusiva e obrigatoriamente, dotando-os de criptografia, nas comunicações oficiais, além de instalar sistemas que bloqueiem a utilização de e-mails, redes sociais e sites particulares a partir de computadores da administração pública.

Mas nada disso vai adiantar se esses softwares não puderem ser multiplicados, disseminados e utilizados, por meio de aplicativos, no dia a dia do cidadão comum, o que nos leva a um fator decisivo - o marketing - que não tem sido tratado, até agora, com a devida importância, nessa discussão.

Cidadãos de todo o mundo não tem seus dados devassados, apenas porque os EUA sejam manipuladores e “malvados”. Eles são espionados porque preferem continuar a sê-lo, a deixar de usar sites como o Google, o Youtube, o Skype,  o Instagram ou o Facebook.

Se essas empresas forem proibidas de atuar no Brasil, os cidadãos brasileiros continuariam a ter – voluntariamente - acesso a elas e aos seus serviços, bastando para isso conectar-se aos seus computadores, situados nos EUA ou em outros países. Isso, a não ser que cidadãos brasileiros fossem censurados e proibidos de fazê-lo, e mesmo assim – nessa hipótese absurda – eles poderiam burlar o governo através de proxys, VPNs, e muito mais.

Como já fizeram antes com o cinema e a televisão, quando se sentam para decidir que roteiro escrever e produzir, na internet - na hora de escolher que startup apoiar, que tipo de aplicação desenvolver, onde instalar um vírus ou um malware - os norte-americanos agem, também, como o personagem do conto de fadas do Flautista de Hamelin.

Desde a mais tenra idade, nossas crianças são fascinadas pelos seus jogos, se comunicam por meio de seus serviços de mensagem, interagem em suas redes sociais, conversam por meio de seus bate-papos e video-chats.

Se – sozinhos ou com o BRICS - não soubermos apostar na educação e inovação, no marketing e no entretenimento, para conquistar a atenção de nossos jovens, a sociedade brasileira continuará a ser espionada - mesmo que a presidente passe a usar o novo emaildos Correios, ou um dia venha a deixar de  "tuitar". 

Este texto foi publicado também nos seguintes sites:



                                                      

A CHANTAGEM NA INFRAESTRUTURA



(Carta Maior) -  Nas últimas semanas, tem aumentado a pressão de diferentes setores, sobre o Estado, na questão da infraestrutura. Aproveitando-se da necessidade do setor público viabilizar os diferentes programas de concessão de ferrovias, rodovias, portos, aeroportos, energia – no valor de 240 bilhões de dólares - para acelerar o crescimento da economia, todo mundo pressiona ou chantageia o governo.

Funcionários do DNIT – Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes - entraram em greve há dois meses, atrasando diversas licitações. Os empresários – nacionais e estrangeiros – buscam maximizar seus ganhos exigindo menores taxas de financiamento público, absoluto controle dos negócios e retorno de até 7,5%, em um mercado no qual, em alguns países, como Japão ou a Alemanha, o juro referencial do Banco Central está entre 0% e 0,5%.

E, finalmente, a grande mídia aperta alegremente os torniquetes, exagerando o que ela aponta como “fracassos”, e subestimando e desvalorizando eventuais acertos, como ocorreu com o seminário “Oportunidades em Infraestrutura no Brasil” realizado esta semana em Nova Iorque, pelo governo brasileiro.

O evento, ironizado por parte dos “analistas” de plantão, reuniu 350 fundos e investidores estrangeiros de grande porte, que controlam recursos da ordem de três trilhões de dólares.

Certa emissora de televisão reúne regularmente equipes de “especialistas” e jornalistas próprios e alheios, para desancar, quase todos os dias, a atuação do governo nesse contexto, torcendo, abertamente, para que os leilões de concessão não tenham sucesso, influenciando o resultado das eleições do ano que vem. 

Como já dizia James Carville, estrategista eleitoral de Bill Clinton na campanha contra o primeiro Bush, “é a economia, estúpido!”. Se a situação melhorar, crescem as chances de Dilma Roussef se reeleger. Mas os sucessivos entraves que vem sendo colocados às obras de infra-estrutura - greves, decisões judiciais, a hidrelétrica de Telles Pires paralisada pela terceira vez – e a sabotagem da mídia, não prejudicam apenas o atual governo. 

Como muitas são obras de longo prazo, elas afetam qualquer tendência, mesmo que de oposição, que venha a assumir o comando da Nação. E isso não apenas devido à persistência dos gargalos de infraestrutura, que prejudicam a competitividade nacional, mas também com relação às contas públicas. No final da história, depois de tantas paradas, há obras que duplicam o prazo de entrega e que triplicam de preço, e, aí, parcela da opinião pública – como a que se manifestou em junho - tende a acreditar que isso se deve à corrupção, e não vai querer saber se o culpado foi o governante que deu início à obra, ou aquele que a irá inaugurar.

Para resolver o problema, o estado precisa desmascarar alguns mitos - verdadeiros paradigmas - fabricados pela mídia, a ponto de gente do próprio governo neles acreditar. 

O principal é o de que a infra-estrutura só pode ser tocada pela iniciativa privada e com financiamento público majoritário do governo brasileiro, e que se não houver um retorno acima da média, os investidores irão debandar para outros países.

Se o Brasil não estivesse atraente para o investidor internacional, não seria o quarto destino do mundo em Investimento Estrangeiro Direto. No ano passado foram 65 bilhões de dólares, mais de cinco vezes o que recebeu, por exemplo, o México, que tem sido apresentado pelos mesmos setores da grande mídia como o novo queridinho dos mercados neste momento. 

Aportes como o do Santander, de 7,5 bilhões de dólares para investimento em infra-estrutura no Brasil, são quase simbólicos. Principalmente quando se considera que, apenas nesta semana, o banco de Emilio Botin anunciou o envio de dois bilhões de euros - faturados no mercado brasileiro - como “benefícios extraordinários” para seus investidores na Espanha. 

O leilão de Libra, mesmo que equivocado - o melhor seria entregar 100% do projeto à Petrobras – pode mostrar que nos países emergentes existem parceiros estatais e com capital suficiente para cooperar na implantação de qualquer grande projeto brasileiro. E isso, mesmo sem a presença de grandes corporações norte-americanas. 

O valor total do programa de investimentos em infra-estrutura do governo, por exemplo, não chega a 8% do que a China possui hoje, em reservas internacionais. 

Como exemplo de como atuam nessa área, os chineses pretendem construir, apenas no setor rodoviário, 88.500 quilômetros de rodovias até 2020, mais do que a distância total do sistema interestadual dos EUA, que, em 2004, tinha aproximadamente 74.650 quilômetros, segundo a Federal Highway Administration.

Para enfrentar a chantagem na área de infra-estrutura, o estado brasileiro precisa sair da dependência institucional da iniciativa privada. A retomada de grandes obras públicas, com a parceria entre estatais brasileiras e de países emergentes - que contam com recursos e know-how avançado no setor - pode provar, definitivamente, que existem alternativas para promover o crescimento e destravar o progresso da infra-estrutura em nosso país. 

Este texto foi publicado também nos seguintes sites:


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A ENGORDA E O ABATE



(HD) - A agência britânica Moody´s, rebaixou, há alguns dias, a perspectiva da nota da dívida soberana do Brasil, de positiva para estável, e fez o mesmo com alguns bancos brasileiros.

A notícia, que talvez tenha tido uma repercussão negativa exagerada é significativa, no entanto, do ponto de vista do cerco que se tem feito ao país nas últimas semanas.

Poucos dias antes, a também britânica The Economist – que em 2009, publicou uma reportagem de capa sobre o Brasil, mostrando o Cristo Redentor decolando – já havia publicado uma reportagem sobre a economia brasileira, ilustrada com o Cristo Redentor, agora em queda desgovernada, com sugestivo título de "O Brasil estragou tudo ?”

Se somarmos a isso a repercussão, na imprensa internacional, da ausência de grandes empresas norte-americanas do leilão de Libra e as notícias que têm saído sobre a inflação e o crescimento da economia neste ano, fica fácil perceber o comportamento dicotômico das agências de qualificação e da imprensa estrangeira  a respeito do Brasil.

A opinião do sistema financeiro internacional sobre alguns países  emergentes parece obedecer a ciclos, bem definidos, de “abate” e de “engorda”.

Quando os juros estavam mais altos no Brasil, e havia menor participação dos bancos estatais no mercado, o país era festejado, como se estivéssemos em período de “engorda”.

Com a diminuição dos juros da Selic e o crescimento do crédito dos bancos públicos – essencial para evitar que o país caísse em recessão depois de 2008 – chegou o período do “abate”, ou da ameaça de abate.

Pressiona-se o país – sob pena de virar o “patinho feio” da vez na economia internacional - para que se faça o que desejam o “investidores” internacionais,  para depois colher bons resultados, com a especulação na bolsa de valores, com o câmbio e com os juros.

O ex-ministro Delfim Netto tem uma expressão para caracterizar essa “engorda”. É quando o país vira o “peru com farofa” dos mercados internacionais.  Delfim criticou, nesta semana, a matéria da  The Economist. Disse que a revista errou  quando superestimou, da primeira vez,  as conquistas econômicas do Brasil. E errou de novo agora, quando exagera as perspectivas negativas da economia brasileira. Embora – segundo ele - isso possa servir de alerta para que se façam correções que precisam ser feitas para melhorar as perspectivas de crescimento nos próximos anos.

O debate econômico – especialmente se feito dentro de nossas fronteiras - é sempre saudável, porque ninguém pode se considerar o dono da verdade.


Mas bem faria a The Economist se também abordasse, com a mesma contundência, a situação da Inglaterra, ou a dos EUA, que estão a ponto de provocar – por irresponsabilidade fiscal e administrativa - uma crise na economia internacional que ameaça levar o mundo ao abismo.  

domingo, 6 de outubro de 2013

A EQUAÇÃO PARAGUAIA




(JB) - O Presidente paraguaio Horacio Cartes foi recebido, há poucos dias, em visita de Estado, pela Presidente Dilma Roussef, em Brasília.

Embora o Brasil tenha sido a primeira nação a estabelecer relações com o Paraguai, em 1844, a convivência entre os dois países tem sido mais conturbada que harmônica, no período que nos separa de 1870, o ano do fim da Guerra do Paraguai.

A morte de milhares de paraguaios, em decorrência da guerra e da fome; a ocupação brasileira, até 1875; e as indenizações de guerra pagas pelo Paraguai ao Brasil até a primeira metade do século XX; contribuíram para criar, em parte da sociedade paraguaia, um clima de quase permanente ressentimento histórico para com o Brasil.

A construção de Itaipu, negociada na década de 1960, no lugar de contribuir para melhorar as relações entre os dois povos, criou um novo contencioso, já que parcela da população paraguaia acredita que os termos do Tratado de Itaipu não foram favoráveis aos interesses do país, à época de sua assinatura, pelos governos de Emilio Garrastazu Médici, e Alfredo Stroessner, em 1973.

Por trás de tudo está o direito de vender os 50% da energia que cabe ao Paraguai a terceiros países. Boa parte do povo guarani é levado a crer, também, que é o Paraguai que paga a dívida contraída para a construção da represa, o que é incorreto.

A dívida é paga com o preço da venda da energia gerada pela própria usina, pela empresa que a administra, a Itaipu binacional, e terminará de ser quitada em 2023.

Até agora, o Paraguai já recebeu mais de 4,5 bilhões de dólares em royalties de Itaipu e, daqui a dez anos, continuará dono de metade de uma empresa que vale, hoje, mais de  bilhões de dólares.

Em 2011, no Governo Lugo, o Brasil aceitou aumentar, unilateralmente, em três vezes, a compensação recebida pelo Paraguai pela energia não utilizada, de 120 milhões para 360 milhões de dólares por ano.

Além disso, o Brasil financia, por meio do FOCEN – o Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul, a construção de uma linha de transmissão de 500 quilowatts – a ser inaugurada em novembro – que ligará Itaipu a uma subestação em Assunção, permitindo que os paraguaios possam atrair investimentos e industrializar seu país.

A construção de Itaipu, que aumentou em aproximadamente 20% o PIB, e o trabalho de milhares de agricultores brasileiros - que fez do Paraguai o quarto maior exportador de soja do mundo – mudaram, positivamente, a realidade do país vizinho.

Mas isso não bastou para diminuir a mágoa que parte dos paraguaios guarda do Brasil. Esse “anti-brasileirismo” tem sido aproveitado, e muito bem, pela direita local, e por quem vem usando o Paraguai para sabotar o projeto  sul-americano de integração promovido pelo Brasil a partir do com Mercosul e da UNASUL.

O não reconhecimento, pelo Mercosul, do governo golpista de Federico Franco - que ascendeu ao poder com a fraudulenta deposição de Lugo -  provocou a suspensão do Paraguai do grupo, acirrando os ânimos da oposição antidemocrática contra o Brasil.

A entrada da Venezuela no Mercosul, sem a aprovação do senado paraguaio – que chantageava, há anos, o Brasil e a Argentina nessa questão, piorou ainda mais a situação.

O Paraguai votou pelo México na eleição do novo Diretor da OMC, o brasileiro Roberto Azevedo. E também não apoiou nossos candidatos – que acabaram também eleitos – para compor a Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Com tudo isso, a imprensa e os internautas discutem, naquele país - nos jornais que hostilizam o Brasil, como o ABC Color - se não seria melhor para o Paraguai sair do Mercosul e entrar na Aliança do Pacífico.

E, do ponto de vista político, se não valeria a pena abrir seu território à instalação de bases militares norte-americanas, para se contrapor ao Brasil, à Argentina, à Bolívia, à Venezuela, ao Equador e à “bolivarização” da região.

Atolados no lamaçal em que se meteram no Iraque e no Afeganistão, com uma dívida impagável, derivada do custeio de suas intervenções militares no exterior, não dá para saber se os EUA teriam fôlego para entrar em uma nova situação de confronto direto, dessa vez, na América do Sul.

Com relação á economia, a Aliança do Pacífico é pouco mais que uma miragem. O Brasil, sem fazer parte do grupo, vende ao México tanto quanto a Colômbia e é o maior parceiro comercial latino-americano não apenas dos próprios mexicanos, mas também dos peruanos e chilenos, na América Latina.

As exportações e importações dentro da Aliança do Pacífico não chegam a 4% de seu comércio exterior total. Como exemplo de que esse grupo tem relativa importância econômica para seus membros, seu maior sócio, o México – que crescerá apenas 1% neste ano, contra cerca de 2.5% do Brasil -  destina quase 90% de suas exportações para o NAFTA e 80% delas para um único cliente, os Estados Unidos.

Por mais que certa mídia diga o contrário, o país da tequila não é um player mundial, mas sim um fenômeno regional, que funciona, na prática, como o menos desenvolvido dos estados norte-americanos.

Estatisticamente, o Paraguai não representa mais que 1% do PIB do Mercosul, ainda sem a entrada – que se avizinha – da Bolívia e do Equador.

Mas é bom não esquecer que as relações entre Brasília e o novo governo de Horacio Cartes ganham uma dimensão estratégica, quando se considera as manobras dos EUA contra o Brasil na América do Sul. 

Este texto foi publicado também nos seguintes sites:  

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

AVANÇOS NA DEFESA



(HD) - A compra de 100% da Atech, pela Embraer, e o lançamento do Pólo de Ciência e Tecnologia do Exército mostram que - apesar do reconhecimento de que estamos vulneráveis do ponto de vista cibernético - ainda assim estamos evoluindo no contexto bélico.
A aquisição da Atech pela Embraer vai fortalecer uma das raras empresas do setor, totalmente nacional, especializada em controle aéreo e em soluções estratégicas de comando e inteligência.
O PCTEG será erguido junto ao Centro Tecnológico do Exército, em Guaratiba, no Rio de Janeiro, e irá unir instituições de ensino de engenharia, de pesquisa e de desenvolvimento da força terrestre, a grupos privados e universidades, no projeto de novas armas e equipamentos.
No dia 6 de setembro, a imprensa anunciou a abertura de negociações oficiais para a compra de sistemas russos de artilharia antiaérea Igla e Pantzir pelo Brasil. O Pantzir pode detectar simultaneamente até 24 alvos, que estejam voando entre 5.000 e 10.000 metros de altura, a uma distância de até 20 quilômetros.
Também no início do mês passado,  anunciou-se que uma associação entre a Mectron, a Avibras e a Opto Eletrônica vai começar a fabricar, ainda este ano, em São José dos Campos, os primeiros protótipos brasileiros do  míssil ar-ar “A-Darter”, de quinta geração, desenvolvidos em conjunto com a Denel sul-africana, destinados a equipar caças da Força Aérea, como o AMX. 
No dia 17, foi anunciada a instalação, em Pomerode, de uma fábrica da CZ (Ceska Zbrojovka), famosa fabricante tcheca de armamentos, que irá produzir, em Santa Catarina, pistolas .380 e de 9 e 40 mm, e, talvez, o rifle de assalto CZ- 805.
No dia 18, chegou à Base Naval do Rio de Janeiro o navio “Araguari”, completando a entrega de três patrulheiros oceânicos de 18.000 toneladas (os outros dois são o “Amazonas” e o “Apa”), fabricados pela Bae Systems, na Inglaterra - com cláusulas de transferência futura de tecnologia - para a Marinha do Brasil. 
Outras boas notícias apontam também para o fortalecimento da indústria nacional e de nossa política de defesa. 
Com a realização de nova reunião no Rio de Janeiro, da qual participaram, entre outros países, a Argentina e o Equador, avança o projeto da Escola Sul-americana de Defesa.  
E, no início de outubro, a Avibras Aeroespacial, de São José dos Campos, anunciou a confirmação de um contrato no valor de 900 milhões de reais para fornecer lançadores de foguetes de saturação para o Exército da Indonésia.
A encomenda é de 36 veículos Astros II, com centrais de controle e munição, o que possibilitará, além do ganho de escala, a criação de mais trezentos empregos diretos pela empresa.
A indonésia é o segundo cliente da Avibras na Ásia. O outro comprador é a Malásia, que também já adquiriu baterias de mísseis do sistema Astros, no valor de 500 milhões de reais.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O CALOTE AMERICANO.


(JB) - Vez ou outra, os jornais, com base em cálculos astronômicos, anunciam que, em tal dia e a tal hora, um determinado asteróide irá passar raspando a órbita da Terra, e que todos podem ficar tranqüilos, porque não há perigo de ele ser atraído pela gravidade terrestre e acabar com o mundo.
Essas declarações, no entanto, não costumam servir para afastar o receio. Muitos, mesmo depois de ler os jornais e ver as entrevistas de astrônomos na televisão, terminam indo dormir com um aperto no coração. E rezam para que no dia seguinte tudo amanheça bem e o sol brilhe de novo, até que chegue o momento da aproximação de um novo corpo celeste da órbita terrestre.
Pois bem, no dia 17 de outubro uma espécie de asteróide financeiro passará por Washington, e não temos como antecipar se ele irá ou não cair sobre as nossas cabeças. Nesse dia, se esgotará totalmente o prazo de aplicação das medidas excepcionais que estão sendo empregadas pelo tesouro dos Estados Unidos para evitar o défault — ou a inadimplência do país — no pagamento de seus compromissos.
Os EUA devem, hoje, em valores correntes, quase 16 trilhões e 700 milhões de dólares. Uma quantia tão alta que ultrapassou o limite máximo definido pela legislação. Com isso, o governo precisa, agora, aprovar uma lei que lhe permita aumentar o orçamento e o teto da dívida — que já é a maior do mundo — para poder contrair novos empréstimos e continuar funcionando.
A decisão, no entanto, não é da Casa Branca. Hoje, primeiro de outubro, começa um novo ano fiscal, e o Congresso, dominado pela oposição, vem postergando, desde maio, uma decisão a respeito do assunto. Os republicanos chantageiam Obama, e exigem, entre outras coisas, para sair do impasse, o fim da reforma do sistema de saúde, aprovado em 2010, que entraria em vigor em 2014.
Na maioria dos países do mundo — ou naqueles em que prevalece o bom-senso e os interesses da população — a questão já teria sido resolvida, por meio da negociação entre o Executivo e os deputados e senadores. Nos Estados Unidos, no entanto, com uma oposição conservadora cada vez mais radical, e manipulada por movimentos fundamentalistas como o Tea Party, tudo pode ocorrer. Caso se chegue a uma situação de défault, o mundo assistiria a uma crise econômica sem precedentes. Que afetaria a maioria das nações e, principalmente, a China e o Brasil, que são, neste momento, o primeiro e o terceiro maiores detentores de títulos da dívida do tesouro norte-americano.
Boa parte dos problemas que estão sendo vividos pelos EUA e pela Europa — com exceção da Alemanha — derivam, justamente, do fato de se querer manter, nesses países, um padrão de vida maior que o do resto do mundo, com base no endividamento dos governos, das empresas e da população.
A crise fiscal norte-americana agravou-se, nos últimos anos, com as pesadas dívidas exigidas  para custear guerras injustas — e inúteis — em países como o Iraque e o Afeganistão, e pela “guerra contra o terror”, que inclui agências de inteligência como a NSA, ao custo de bilhões de dólares por dia.
Desde que Nixon abandonou a conversibilidade do dólar com relação ao ouro, no início da década de 70, que tinha sido estabelecida em Bretton Woods, os EUA têm vivido, direta ou indiretamente, à custa do resto do mundo.
A questão da dívida norte-americana está exigindo — definitivamente — um esforço coordenado para que se acabe com essa situação, com a reformulação das trocas monetárias e do próprio sistema financeiro internacional.
Os Brics têm feito tímidas tentativas no sentido de substituir a moeda dos Estados Unidos em suas trocas e de criar instituições que possam, paulatinamente, servir de alternativa — principalmente para as nações emergentes — ao FMI e ao Banco Mundial.
Mas continuam, paradoxalmente, a manter boa parte de sua riqueza investida em títulos dos EUA, quem sabe, pela vontade de marcar, também, com essa atitude, as mudanças que estão ocorrendo nos últimos anos no panorama geopolítico mundial.

As moedas romanas serviam não apenas para armar suas legiões, mas também para cunhar em ouro, prata e bronze os símbolos do poder imperial. É preciso tirar dos Estados Unidos a possibilidade de exprimir sua soberba e de  continuar armando seus soldados com meros pedaços de papel.

Este texto foi publicado também nos seguintes sites: